PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 4.


Todos gostaram muito daquele começo e Narizinho observou que as histórias modernas são mais interessantes que as antigas.
— Estou notando isso, vovó — disse ela. — Nas histórias antigas, de Grimm, Andersen, Perrault e outros, a coisa é sempre a mesma — um rei, uma rainha, um filho de
rei, uma princesa, um urso que vira príncipe, uma fada. As histórias modernas variam mais. Esta promete ser muito boa. Peter Pan está com jeito de ser um diabinho levado da
breca.
Dona Benta concordou que sim.
— Eu só não entendo uma coisa disse tia Nastácia. —
Como é que a tal senhora... como é mesmo?
— Darling.
— Isso. Não entendo como é que a Senhora Darling foi deixar a janela aberta. Quarto de criança a gente não deixa de janela aberta nunca. Entra morcego, entra coruja — e entram até esses diabinhos, como o tal Peter Pan.
— Boba! — exclamou Emília. — Se ela não deixasse a janela aberta não podia haver essa história. Se você fosse a mãe dos meninos deixava a janela fechada, não é? E que
aconteceria? Cortava a cabeça da história logo no começo.
— Estou desconfiado — disse Pedrinho — que o tal pó mágico de Peter Pan era o nosso pó de pirlimpimpim.
— E quem nos garante que o tal Peninha, que deu a você o pó de Pirlimpimpim, não seja esse mesmo Peter Pan?
Aquela história do Peninha ser invisível está me parecendo arteirice de Peter Pan para nos empulhar.
— Pode ser. Tudo pode ser — concordou Pedrinho, pensativo.
Houve um silêncio. Cada qual pensava numa coisa. Tia Nastácia pensava na franga que tinha de matar para o almoço do dia seguinte. Dona Benta pensava num remendo a fazer no paletó de Pedrinho. Pedrinho pensava num jeito de arranjar mais pó de pirlimpimpim. Narizinho pensava num meio de fazer Peter Pan vir visitá-la no sítio. O
Visconde não pensava em coisa nenhuma. E Emília?
Emília saíra da sala pé ante pé sem que ninguém percebesse, e logo depois voltou com a tesoura de Dona Benta na mão, E deu jeito de cortar a cabeça da sombra de tia Nastácia, que enrolou e foi guardar no fundo de uma gaveta.
Ninguém percebeu a manobra, mas quando chegou a hora de se recolherem e tia Nastácia foi apagar o lampião:
— Ué! — exclamou ela espantadíssima, vendo projetar-se na parede a sua sombra sem cabeça. — Que coisa, Santo Deus! Será que perdi minha cabeça?
E apalpou-se para verificar se estava mesmo sem cabeça. Só então se lembrou da passagem contada por Dona Benta, e viu que alguém lhe havia cortado a cabeça da sombra.
— Isso também é demais! — gritou ela. — É judiação.
Cortar a cabeça da sombra duma pobre negra velha que nunca fez mal a um mosquito... Mas quem foi o malvado?
Olhou para a cara de Pedrinho, de Narizinho, do Visconde e da Emília e não viu em nenhum deles o menor ar de criminoso. Emília, sobretudo, estava com uma carinha que era só botar num quadro e virava Santa Emília — de tão inocente.
Dona Benta foi de opinião que aquilo só podia ser arteirice do Peninha, ou talvez do próprio Peter Pan, que houvesse entrado na sala às escondidas, no momento em que todos estavam mais distraídos com a história.
A boa negra arrenegou, e lá se foi para a cozinha com a sua sombra sem cabeça, a coisa mais esquisita e feia que se possa imaginar.
— A gente não tem sossego neste sítio. — resmungava ela. — Estes meninos endiabrados não param com as reinações. Uma sombra que me acompanhava desde criança, tão direitinha, com a cabeça e tudo — e está agora essa coisa esquisita, que nem aquela rainha Dona Maria Antonieta que Sinhá Benta contou que perdeu a cabeça na tal janela da guilhotina... Credo!...

A Terra do Nunca.

No outro dia, antes de Dona Benta continuar a história de Peter Pan, tia Nastácia apareceu com a sua sombra diminuída de mais um pedaço no ombro.
— Parece que é um rato que anda roendo a minha sombra — disse ela colocando-se entre o lampião de cima da mesa e a parede branquinha. — Veja, Sinhá — acrescentou apontando para a sombra projetada na parede.
— Está faltando mais um pedaço, bem no ombro. Neste andar eu acabo sem sombra nenhuma. Isto é uma desgraça.
— Não acho — disse Narizinho. — Tanto faz você ter sombra como não ter. De que vale sombra?
— Parece, menina, parece que não vale nada — respondeu a negra. — Mas o mundo é malvado, e se sabem que eu não tenho sombra são capazes até de me queimarem viva, como fizeram com a coitadinha da Joana do Arco.
— Joana d'Arc.
— Ou isso. O mundo dá cabo de toda gente que não é igual a todos os outros. Dona Joana tinha olhos melhores que os do resto das gentes e por isso via mais coisas, tinha visões. Eles foram é queimaram a coitada. Se me enxergarem sem sombra são capazes de dizer que sou feiticeira. O mundo é mau, menina. Credo...
— Isso não — gritou Emília. — O mundo persegue os que são mais que os outros, como essa Joana d'Arc que enxergava mais; mas você é menos, porque tem menos sombra. Logo...
— Deixem de bobagem — disse Dona Benta — e vamos continuar a história do menino que não queria crescer.

Todos sentaram-se em redor dela e Dona Benta começou:

Vamos ficar com gosto de quero mais? Outro dia continua.

Peter Pan - Monteiro Lobato - Domínio Público. 

Pó de pirlimpimpim: 

Podemos lembrar que, nas histórias dos personagens do Sítio, em que o trânsito do mundo real habitado pelos personagens para outros mundos depende de instintos idôneos – como viajar à Grécia de Péricles? Como ir à lua? –, é preciso utilizar um instrumento de transporte. A lógica impõe a existência desse instrumento. É então que Monteiro se vale de alguns artifícios: o pó de pirlimpimpim, que transporta de um lugar para outro, vencendo o espaço, um segundo elemento, que os leva para outro tempo, vencendo as barreiras temporais, o faz-de-conta, que suprime as impossibilidades de acontecimentos, e o super pó, inventado pelo Visconde de Sabugosa em “O Minotauro”, que transporta, num átimo, para qualquer lugar indeterminado, desde que desejado. Então, o elemento “pó” é um instrumento de transporte – através do espaço e do tempo. O faz-de-conta é supressor de impossibilidades. 

Fonte: http://www.pucrs.br/edipucrs/CILLIJ/praticas/Literatura_de_Monteiro_Lobato.pdf

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