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PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 5.

— Essa Terra do Nunca, onde Peter Pan vivia com os meninos perdidos, era bem longe — e muito linda terra. Na frente havia uma grande floresta, que naquela estação do ano estava despida de todas as suas folhas e recoberta de neve branquinha. Nem para remédio era possível encontrar lá uma só folha verde. Do lado direito havia um enorme lago, no qual boiavam pedaços de gelo, como ilhinhas flutuantes. Era nesse lago que navegavam os navios dos piratas. Do lado esquerdo ficava uma aldeia de Peles- Vermelhas, isto é, índios norte-americanos de nariz recurvo, cocar de penas na cabeça, cachimbo da paz na boca. Viviam em silêncio e em descanso, sempre de cócoras, como nossos caboclos do mato.
As casas desses índios eram em forma de tenda árabe.
— Eu sei — interrompeu Pedrinho. — A tal tenda árabe tem a forma dum cartucho achatado, ou dum funil sem o bico.
— Pois é — confirmou dona Benta. — Viviam nesses funis sem bico e em vez de cacique eram governados por uma índia muito valente, de nome Pantera Branca.
— A senhora não disse o que havia nos fundos da Terra do Nunca — reclamou Pedrinho.
— Nos fundos ficava um deserto de neve que os lobos famintos percorriam em bandos uivantes. Pois bem: os meninos perdidos moravam perto dos índios, longe dos piratas e longíssimo dos lobos famintos.
— Moravam como?
— Numa caverna subterrânea, sem porta de entrada.
— E de que modo entravam na caverna, se não havia porta?
— De um modo muito interessante. Em cima da caverna o chão era como ali no terreiro — liso, sem sinal nenhum de caverna embaixo. Mas de longe em longe havia várias árvores — árvores ocas. Cada menino era dono de uma árvore e entrava na caverna pelo respectivo oco.
— Por que isso, vovó, de cada um ter a sua árvore?
Acho asneira.
— Havia uma razão muito importante. Tendo cada qual a sua árvore, um não atrapalhava o outro, quando eram atacados pelos piratas ou pelos lobos famintos. Sumiam-se todos a um tempo, cada qual pela sua entrada. Se não fosse assim, na precipitação da fuga dois ou três eram capazes de se meterem pelo mesmo oco, ficando entalados lá dentro.
Não há melhor defesa contra piratas e lobos do que árvores ocas, que vão dar em cavernas subterrâneas. Tomem nota disso.
Pedrinho tomou nota em seu caderno.
— Na noite do começo desta história — prosseguiu Dona Benta — estavam os meninos perdidos a brincar na floresta, vestidos de pele por causa do grande frio. Um deles dançava uma valsa com um avestruz. De longe mais pareciam ursinhos do que gente.
— E quantos eram?
— Seis. O mais velho chamava-se Levemente Estragado.
Os outros se chamavam Bicudo, Cachimbo, Assobio e, finalmente, Gêmeo. Gêmeo era ó nome dado a dois meninos realmente gêmeos e tão iguaizinhos que as mesmas roupas e o mesmo nome serviam para ambos.
— E como se distinguia um do outro?
— Não se distinguiam. Os demais lidavam com eles como se fossem um só.
— Eu sei — berrou Emília. — Com os livros é assim. Há montes de livros tão iguais que tanto faz a gente pegar num como pegar noutro. A obra é a mesma.
— Pois é — disse Dona Benta rindo-se da comparação da boneca. — Os seis meninos perdidos eram esses tais, e naquela noite estiveram brincando até tarde, à espera de Peter Pan, que fora à cidade ouvir o resto da história da Senhora Darling.
— Estiveram brincando de quê? — perguntou Pedrinho.
— De tudo — respondeu Dona Benta. — Os meninos ingleses são como vocês aqui: brincam de tudo. E um deles tinha um brinquedo muito original.
— Qual deles?
— Levemente Estragado. Esse menino havia apanhado um avestruz fugido dum jardim zoológico, e o ensinara a pular e dançar ao som da flauta. Nada mais cômico do que essas danças do avestruz, porque os avestruzes são os bichos mais desajeitados e deselegantes que existem.
Ficaram brincando até tarde, visto que Peter Pan estava a demorar-se mais que do costume, e por fim começaram a ficar inquietos, com medo de que lhe houvesse acontecido qualquer coisa. Subitamente ouviram um rumor ao longe.
Seria ele? Bicudo colou o ouvido ao chão, como fazem os índios.
— "Ouço um barulho surdo de vozes horrendas" — disse arregalando os olhos. — "Devem ser os piratas."
Foi água na fervura. Os seis meninos sumiram-se pelos ocos de suas árvores, como coelhos se somem nas tocas quando cachorro late perto.
Minutos depois apareceram os piratas, os terríveis piratas do lago. Que horrendas criaturas!
O crime estava estampado naquelas caras como números escritos a giz no quadro-negro. Vinham comandados pelo famoso Capitão Gancho, o pior pirata que jamais existiu, tão malvado que não havia quem não tremesse de medo dele. Tinha olhos vermelhos e sobrancelhas que nem certos bichos cabeludos. Barba arrepiada e suja de terra, andar de gorila, cabelos cacheados e lustrosos de banha rançosa. Marchava na frente do bando, a cantar uma cantiga das mais feias, marcando o compasso com o gancho de ferro que lhe servia de mão.
— Como é isso, vovó? — indagou a menina. — Que história de gancho de ferro é essa?
— Muito simples. Esse famoso pirata havia perdido a mão direita numa guerra contra os meninos perdidos. Peter Pan dera-lhe tamanho golpe de espada que a mão peluda pulou longe, indo cair no lago, justamente dentro da boca dum crocodilo. O crocodilo, nhoque! Devorou o horrendo
petisco; e gostou tanto, que desde essa época não fez outra coisa senão andar peregrinando de terra em terra e de mar em mar para comer o resto da munheca, isto é, o Capitão Gancho inteirinho. Por esse motivo o pirata tinha ódio de morte a Peter Pan e aos meninos perdidos, havendo jurado
matá-los a todos com a pior das mortes possíveis e imagináveis.
— Qual era essa morte? — indagou Emília.
— Não sei, nem quero saber. Não gosto de horrores.
Quem sabia era o Capitão Gancho, um diabo malvadíssimo.
Mas depois que perdeu a mão com a espada de Peter Pan, mandou fazer uma manopla de ferro com dois ganchos na ponta. Enfiava o toco do braço nessa manopla, atava-a bem atada com tiras de couro e manejava o gancho como se fosse mão.
— Credo! — exclamou tia Nastácia. Imagine uma ganchada desse garfo!...
— Devia ser terrível — confirmou Dona Benta — porque esse pirata passou a meter mais medo depois de perder a mão do que antes. Menos para o crocodilo. Este monstro não tinha medo nenhum do Capitão Gancho e começou a persegui-lo por toda parte. Tornou-se o azar da vida do pirata. O que valeu ao Capitão Gancho foi uma coisa que até parece mentira. Imaginem que ó tal crocodilo também havia engolido um despertador que tinha corda por um ano e cujo tique-taque era muito forte. O tique-taque do despertador no estômago da fera fazia-se ouvir longe e servia de aviso ao Capitão, dando-lhe tempo de fugir com quantas pernas tinha.
Pois bem, assim que o bando de piratas chegou ao ponto da floresta onde, pouco antes, os meninos estavam brincando, o Capitão Gancho sentou-se num enorme chapéu-de-sapo que por ali crescia, bem por cima da morada subterrânea. Sentou-se para descansar e ao mesmo tempo meditar sobre o meio de descobrir o esconderijo de Peter Pan e seu bandinho.
— “Com seiscentos bilhões de demónios!" — urrou ele.
— "Não descansarei enquanto não agarrar esse maldito menino."
O chefe dos piratas era especialista em pragas. Possuía a maior coleção de pragas da Inglaterra, e talvez da Europa inteira, na opinião de muitos. E todas as suas pragas começavam por seiscentos bilhões. Não fazia nenhuma por menos.
Nesse ponto Emília interrompeu Dona Benta.
— Por que é que os marinheiros gostam tanto de pragas? — perguntou ela. — Sempre que numa história aparece um cachorro- do mar...
— Lobo-do-mar — corrigiu Dona Benta. — Os velhos marinheiros são Chamados lobos-do-mar.
— Dá na mesma — objetou Emília. — Eu quero dizer cachorro do mar e tenho minhas razões. Mas sempre que aparece um desses cachorros do mar, vem logo praga, e de milhões. Com trezentos milhões de caravelas! Com seiscentos milhões de baleias! É milhão que não acaba mais.
— Sim — disse Dona Benta — mas repare que é sempre praga de milhões apenas. Só esse Capitão Gancho usava as tais pragas de bilhões, e por isso ficou terrível. Um bilhão compõe-se de mil milhões. Ora, quando ele praguejava com seiscentos bilhões de demónios, como fez em relação a Peter Pan, esse número queria dizer seiscentos milhares de milhões, ou seiscentos montes de mil milhões cada um. Eu até creio que ele não era forte em aritmética, pois é impossível que haja tantos demônios assim...
— Credo! — exclamou tia Nastácia persignando-se. — Um demônio já deixa a gente tonta, como aquele Lúcifer que fez a revolução dos anjos lá no céu e foi jogado no Inferno. Imaginem agora seiscentos montes de não sei quantos cada um. Credo...
— Continue, vovó — pediu Narizinho. — O Capitão Gancho sentou-se no chapéu-de-sapo e depois?
— Sentou-se e logo deu um pulo, porque o tal chapéu-de-sapo estava quente como chapa de fogão. Furioso da vida pregou-lhe um tremendo pontapé, fazendo-o voar dali com um som metálico. Aquele som abriu os olhos do pirata.
— "Hum!" — exclamou ele, percebendo que não era chapéu-de-sapo natural e sim uma ponta de chaminé que saía de dentro da terra e tinha a forma de chapéu-de-sapo.
— "Oitocentos bilhões de diabos me assem vivo em todos os fogos do Inferno, se isto não é arteirice do Senhor Peter Pan e mais os seus meninos perdidos! Descobri tudo! Eles moram aqui embaixo, nalgum buraco subterrâneo."
Disse e pôs-se a examinar o terreno, dando pancadas no solo com a ponta dos dedos, como fazem os médicos para examinar o pulmão dos doentes. O som era de terra oca embaixo. O chefe dos piratas ficou radiante. Tinha descoberto o esconderijo dos meninos e agora iria caçá-los como se caçam ratos. Pôs-se a examinar o terreno. Viu que não havia entrada nenhuma afora os ocos das árvores.
Tentou descer por um deles (justamente o oco de Bicudo) e entalou. Não cabia. Ficou danado, espirrou mais alguns bilhões de demônios e teve uma ideia sinistra.
— "Achei o meio!" — exclamou. — "Mando preparar um grande pão-de-ló bem bonito por fora e bem cheio de veneno por dentro”. Ponho o pão-de-ló ali naquela pedra e vou ficar espiando de longe. Os meninos perdidos não têm mães para ensinar-lhes o que devem e o que não devem comer, de modo que logo saem da caverna e se lançam sobre o doce como lobos famintos — e eu terei o gosto de vê-los morrer a pior das mortes.

Será que o capitão gancho vai conseguir colocar na prática o seu plano? Continua...

Fonte:Fonte: http://www.pucrs.br/edipucrs/CILLIJ/praticas/Literatura_de_Monteiro_Lobato.pdf

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