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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os três cabelos de ouro do Diabo.

Um conto de fadas dos Irmãos Grimm.

Houve, uma vez, uma mulher muito pobre, que deu à luz um menino e, como este nascera com a túnica da sorte, predisseram-lhe que, aos catorze anos se casaria com a filha do rei. Eis que, decorrido pouco tempo, o rei foi àquela aldeia sem que soubessem que era ele; quando perguntou à gente do lugar pelas novidades locais, logo lhe responderam:
- Nasceu, nestes dias, um menino com a túnica da sorte. Quem nasce com essa túnica será muito feliz e, faça o que fizer tudo lhe sairá bem. Predisseram-lhe, ademais, que aos catorze anos se casará com a filha do rei.
Ouvindo isso, o rei, que era de mau coração, ficou indignado, principalmente por causa da profecia. Foi procurar os pais da criança e, demonstrando benevolência que não possuía, disse-lhes:
- Pobre gente dê-me o vosso menino; eu tomarei conta dele.
A princípio, os pais recusaram-se, mas, como o desconhecido lhes oferecia grande soma de dinheiro, pensaram entre si: "É um filho da sorte, como tal, tudo lhe correrá bem." Assim acabaram concordando e deram-lhe o filhinho.
O rei colocou-o dentro de uma caixa; montou a cavalo e pôs-se a caminho. Ao chegar a um rio caudaloso, atirou nele a caixa, murmurando:
-Assim livro minha filha desse pretendente indesejado.
A caixa, porém, não afundou. Ficou flutuando como um barquinho e nem uma só gota de água penetrou dentro dela. Foi vagando uns dois quilômetros, além da capital do Reino, chegando assim a um moinho em cuja roda ficou presa. Por boa sorte, encontrava-se lá, no momento, o ajudante do moleiro que, vendo-a, a puxou para fora com um gancho, pensando encontrar dentro dela algum tesouro. Mas, quando a abriu, encontrou simplesmente um belo menino, risonho e vivaz. Levou-o para o casal de moleiros, os quais, não tendo filhos, alegraram-se muito, dizendo:
-Este é um presente de Deus!
Acolheram o enjeitado, trataram-no com todo o carinho e ele cresceu dotado de grandes virtudes.
Ora, aconteceu que um dia, durante forte tempestade, o rei teve de refugiar-se no moinho; vendo o menino perguntou aos moleiros se era filho deles.
-Não, - responderam, - é um enjeitado que há catorze anos apareceu dentro de uma caixa, a qual ficou presa à roda do moinho, e nosso ajudante retirou-a da água.
O rei, então, concluiu que não podia ser outro senão o filho da sorte, atirado por ele dentro do rio. Dirigindo-se aos moleiros disse:
-Boa gente, não poderia esse menino levar uma carta à Sua Majestade a Rainha? Eu lhe darei como recompensa duas moedas de ouro.
-Será feito o que Vossa Majestade ordena, - responderam os moleiros.
Disseram ao menino que se aprontasse. O rei, então, escreveu à rainha uma carta com a seguinte ordem: "Assim que o rapaz, portador desta carta, chegar aí, quero que o matem e o enterrem; faça-se tudo antes do meu regresso."
O rapaz pôs-se a caminho, levando a carta, mas extraviou-se e, à noite, foi dar a uma grande floresta. Em meio à escuridão, avistou uma luzinha; caminhou em sua direção e chegou a uma pequena casa; viu uma senhora idosa sentada, sozinha junto do fogo. Esta, ao ver o rapaz, assustou-se e perguntou:
-De onde vens? E para onde vais?
-Venho do moinho, - respondeu ele, - e vou levar uma carta a Sua Majestade a Rainha. Mas, tendo perdido o caminho, desejo pernoitar aqui.
-Pobre rapaz, - disse a velha, - vieste cair num covil de bandidos; quando chegarem e te virem, certamente te matarão.
-Venha quem quiser, - respondeu o rapaz, - eu não temo ninguém; estou tão cansado que não posso continuar a viagem.
Deitou-se sobre um banco e logo adormeceu. Não tardou muito chegaram os bandidos e, zangados, perguntaram quem era aquele desconhecido ali deitado.
-Oh, - disse a velha, - é um inocente menino que se perdeu na floresta; recolhi-o por compaixão, pois vai levando uma carta a Sua Majestade a Rainha.
Curiosos, os bandidos abriram a carta para ler o que continha; ao ver que era uma ordem para matar e enterrar o rapaz assim que chegasse ao palácio, aqueles corações empedernidos apiedaram-se dele. O chefe da quadrilha, então, rasgou a carta, escrevendo outra, na qual dizia que o rapaz, logo após a chegada, devia imediatamente casar-se com a princesa. Deixaram-no dormir, sossegadamente, até pela manhã. Quando acordou, deram-lhe a carta e ensinaram-lhe o caminho certo.
Ao receber a carta, a Rainha prontamente executou as ordens. Mandou que se organizasse uma esplêndida festa e a princesa casou com o filho da sorte. Como era um rapaz bonito e afável, sentiu-se alegre e feliz a seu lado.
Transcorrido algum tempo, regressou o rei ao castelo e verificou que se realizara a predição: o filho da sorte casara-se com a princesa sua filha.
-Como pôde acontecer isto? - perguntou; - na minha carta dei ordens completamente diversas.
A Rainha, então, mostrou-lhe a carta recebida para que ele mesmo visse o que dizia. O rei leu-a e percebeu que havia sido trocada. Perguntou ao rapaz o que acontecera e por que trouxera a carta trocada.
-Eu nada sei, - respondeu o rapaz, - talvez tenha sido trocada enquanto dormia lá na floresta.
-Não te sairás tão facilmente desta, - exclamou o rei, encolerizado. - Quem quiser minha filha, terá de trazer-me do inferno os três cabelos de ouro do Diabo; quando me trouxeres o que exijo, então poderás ficar com minha filha.
Com isto, o rei pensava que se livraria, de uma vez por todas, do rapaz. Mas o filho da sorte disse-lhe:
-Está bem, irei ao inferno buscar os cabelos de ouro, pois não tenho medo do Diabo.
Despediu-se de todos e iniciou a longa caminhada. A estrada, por onde seguia, conduziu-o a uma grande cidade cercada de muralhas; chegando à porta, a sentinela perguntou-lhe qual era seu ofício e o que sabia.
-Sei tudo, - respondeu o filho da sorte.
-Dize-nos, então, por favor, por que é que secou o chafariz da praça do mercado, do qual normalmente jorrava vinho e agora nem mais água jorra? - perguntou a sentinela.
-Sabereis quando eu voltar, - respondeu o rapaz.
Continuou andando e chegou à porta de outra grande cidade; aí, também, a sentinela perguntou-lhe qual era o seu ofício e o que sabia.
-Sei tudo, - respondeu ele.
-Dize-nos, então, por favor, por que é que certa árvore de nossa cidade, que sempre produziu maçãs de ouro, agora nem folhas dá mais?
-Sabereis quando eu voltar, - respondeu.
Prosseguiu o caminho. Foi andando até à margem de um rio muito largo, que devia atravessar. O barqueiro perguntou-lhe qual era o seu ofício e o que sabia.
-Sei tudo, - respondeu outra vez.
-Então me dize, por favor, - perguntou o barqueiro, - por que é que devo sempre ir e vir sem nunca ficar livre?
-Saberás quando eu voltar.
Depois de atravessar o rio, encontrou o ingresso do inferno. Tudo lá dentro era negro e cheio de fuligem. O Diabo não estava em casa, estava apenas sua avó, sentada numa grande poltrona.
-Que desejas? - perguntou-lhe. - E não tinha aparência de má.
-Desejo os três cabelos de ouro do Diabo, - respondeu ele; - se não os conseguir, não poderei conservar minha mulher.
-Pedes demasiado! - disse ela. - Se ao chegar, o Diabo te encontrar aqui, ele te esfolara vivo. Mas como tenho pena de ti, verei se posso ajudar-te.
Transformou-o numa formiga e disse-lhe:
-Agora te esconde nas dobras da minha saia, ai estarás seguro.
-Muito bem, - exclamou o rapaz, - mas há também três coisas que gostaria de saber: primeiro, porque é que secou um chafariz do qual costumava jorrar vinho e agora nem mesmo água jorra; segundo, porque é que uma macieira, que sempre dava maçãs de ouro, agora nem folhas mais dá; terceiro, porque é que um barqueiro deve sempre ir e vir sem nunca se livrar.
-Essas são perguntas muito difíceis - respondeu a velha; - mas fica quietinho e calado e presta bem atenção ao que diz o Diabo quando eu lhe arrancar os cabelos de ouro.
Quando anoiteceu, o Diabo voltou para casa. Mal entrou na porta, percebeu no ar algo que não era puro.
-Sinto cheiro, sinto cheiro de carne humana, - resmungou, - há algo estranho aqui!
Revistou todos os cantos, mas não conseguiu encontrar nada. A avó então o repreendeu:
-Agora mesmo acabei de varrer e arrumar a casa; e tu, mal chegas já te pões a fazer desordens; andas sempre com cheiro de carne humana nas narinas! Vamos, senta-te e come o teu jantar!
Quando terminou de comer e beber, o Diabo sentiu cansaço; reclinou a cabeça no regaço da avó, pedindo-lhe que lhe fizesse cafuné. Não demorou muito e ferrou no sono, bufando e roncando tranquilamente. Então a velha pegou um cabelo de ouro, arrancou-o e guardou-o de lado.
-Ai! - gritou o diabo, - que é que estás fazendo?
-Ah, tive um pesadelo, - respondeu a avó, - e sem querer agarrei e puxei teus cabelos.
-O que sonhaste? - perguntou o Diabo.
-Sonhei que um chafariz, do qual sempre jorrava vinho, secou, e nem mais água jorra. Por que será?
-Ah, se o soubessem! - disse o Diabo. Há no chafariz um sapo, debaixo de uma pedra, se o matarem voltará a jorrar vinho.
A avó recomeçou a fazer-lhe cafuné; ele adormeceu de novo, roncando de fazer estremecer os vidros. Ela então lhe arrancou o segundo cabelo.
-Ui! - gritou zangado, - mas, que estás fazendo?
-Não te zangues, - respondeu ela, - fiz isto porque tive um pesadelo.
-E que sonhastes mais? - perguntou o Diabo.
-Sonhei que havia, num reino, uma árvore, a qual primeiro dava maçãs de ouro e agora nem folhas dá mais. Por que será?
-Oh, se o soubessem! - respondeu o Diabo. - Há um rato que lhe está roendo a raiz; se o matarem, voltará a produzir maçãs de ouro, mas se o rato continuar roendo-lhe a raiz, ela secará para sempre. Agora me deixa em paz com teus sonhos; se me interromperes o sono outra vez, levarás uma bofetada.
A avó acalmou-o e voltou a fazer-lhe cafuné, até que ele adormeceu e começou a roncar. Então, agarrou o terceiro cabelo de ouro e arrancou-o. O diabo levantou-se de um pulo, gritando que havia de lhe pagar, mas ela conseguiu acalmá-lo novamente e disse:
-Que culpa tenho de ter maus sonhos?
-Que é que sonhaste ainda? - perguntou com certa curiosidade o Diabo.
-Sonhei que um barqueiro queixava-se de ter sempre de ir e vir, sem nunca se livrar. Por que será?
-Ah, o tolo! - respondeu o Diabo; - quando alguém quiser atravessar o rio, ele que lhe meta nas mãos o varejão, assim o outro ficará sendo o barqueiro e ele estará livre.
Tendo arrancado os três cabelos de ouro e obtido resposta para as três perguntas, a avó deixou o velho Satanás dormir sossegado até à manhã do dia seguinte.
Assim que ele saiu de casa, a velha tirou a formiga das dobras de sua saia, restituindo-lhe o aspecto humano.
Aqui tens os três cabelos de ouro, - disse, - e certamente ouviste as respostas do Diabo às tuas três perguntas.
-Ouvi, sim - disse o rapaz, - e as gravei na memoria.
-Bem, agora não precisas mais nada, - disse a velha; - podes, portanto, seguir teu caminho.
O rapaz agradeceu contentíssimo à velha por tê-lo tirado das dificuldades e deixou o inferno, muito feliz por ter-se saído tão bem.
Quando chegou à margem do rio e encontrou o barqueiro, que aguardava a resposta prometida, disse-lhe:
-Leva-me primeiro para o outro lado; depois eu te direi o que deves fazer para livrar-te.
Tendo atingido a-outra margem, deu-lhe o conselho do Diabo:
-Quando vier alguém e quiser atravessar o rio, dá-lhe o teu varejão e safa-te.
Continuou andando, andando, até chegar à cidade onde estava a macieira estéril; ali também a sentinela aguardava a resposta; disse-lhe então o que ouvira do Diabo:
-Matai o rato que está roendo as raízes da árvore e ela tornará a produzir maçãs de ouro.
A sentinela agradeceu e presenteou-o com dois jumentos carregados de ouro. Por fim, chegou à cidade do chafariz seco. Repetiu à sentinela o que ouvira do Diabo:
-Há um sapo debaixo de uma pedra, no fundo de chafariz; é preciso encontrá-lo e matá-lo para que torne a jorrar vinho em abundância do chafariz.
A sentinela agradeceu e deu-lhe outros dois jumentos carregados de ouro.
Finalmente, o filho da sorte chegou à casa de sua mulher, que ficou radiante por tornar a vê-lo e ouvir contar como tudo lhe correra bem. Depois, foi entregar ao Rei o que este exigira: os três cabelos de ouro do Diabo. Vendo, porém, os quatro jumentos carregados de ouro, o Rei alegrou-se muito e disse:
-Agora estão satisfeitas todas as condições, portanto, podes ficar com minha filha. Mas, dize-me, querido genro de onde provém todo esse ouro? Esse imenso tesouro?
-Atravessei um rio, - respondeu o rapaz, - e encontrei-o na areia na margem.
-Poderei, também, ir buscar um pouco para mim? - perguntou o rei cobiçoso.
-Quando quiseres, - respondeu-lhe ele. - No rio há um barqueiro; pedi-lhe que vos transporte para a outra margem e aí podereis encher quantos sacos desejardes.
Cheio de cobiça, o Rei pôs-se, imediatamente, a caminho; quando chegou ao rio, pediu ao barqueiro que o transportasse para a outra margem. O barqueiro encostou o barco no ancoradouro e mandou que se sentasse. Ao chegar à margem oposta, o barqueiro entregou-lhe o varejão, pulou fora do barco e desapareceu.
E, com isso, o rei teve de ser o barqueiro, em punição de seus pecados.
-E ainda continua lá, indo e vindo feito um barqueiro?
-Como não? Quem mais conhecia a história para o livrar do castigo?

Fonte: http://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/os_tres_cabelos_de_ouro_do_diabo 



1. Varejão.

Significado de Varejão.
1- vara comprida usada para movimentar pequenas embarcações em águas rasas.
Ex. - A água estava rasa e foi possível usar o varejão.


Moral da história: o bem sempre vence o mal.

Para fazer em casa:
Distribua os corações impressos e recortados para que as crianças levem para casa e fiquem uma semana observando o bem e o mal nos seus cotidianos, tanto em casa como na escola.


Jeanne Geyer.

domingo, 24 de abril de 2016

As sapatilhas de Sofia. Historinha com atividades.


As sapatilhas de Sofia, Frederick Lipp.

Era um dia de sol muito brilhante na aldeia, e Sofia não conseguia abrir os olhos naquela luz tão intensa.
Na aldeia faz sempre muito calor, raramente chove, mas, quando isso acontece, a chuva cai, ininterruptamente, dias seguidos.
No ar pairava uma quietude quando, de repente, se ouviu um ruído semelhante ao zumbido de um enxame de abelhas, que aumentava cada vez mais.
O porco começou a grunhir e as galinhas a cacarejarem.
Sofia queria perceber o que se passava e, sentada direita como um pau de vassoura, pôs-se à escuta. "Deve ser o carro do homem dos números", pensou ela enquanto esfregava os olhos.
Uma vez por ano, um homem da cidade chegava à aldeia num carro vermelho. O povo da aldeia dizia que era o homem dos números. O homem contava as pessoas da aldeia a mando do governo. Depois de fazer o seu percurso, o homem parou em frente da casa de Sofia.
— Quantas pessoas vivem aqui? — perguntou.
— Duas — respondeu Sofia, — a minha mãe e eu.
— Vejamos, assim dá um total de 154 pessoas. O ano passado eram…
O homem dos números tinha ouvido dizer que o pai de Sofia morrera porque não havia médico na aldeia e não havia nenhum hospital por perto.
Sofia olhava fixamente para o calçado do homem.
— Ah! Nunca viste umas sapatilhas?
Sofia ficou ruborizada. O segredo, que acalentava há tanto tempo, ocupou-lhe por inteiro o pensamento, que voou para tão longe como os falcões voam em grandes círculos no azul dos céus. No fundo do coração Sofia sentia que, se algum dia tivesse umas sapatilhas iguais às daquele homem, o seu desejo se transformaria em realidade.
— Vamos até à margem do rio? — disse o homem dos números. — Põe os pés nessa lama de barro fino. Agora sai!
Sofia gostou da sensação do barro a escorrer por entre os dedos dos pés. O homem tirou a régua do bolso das calças e mediu as marcas dos pés de Sofia. Enquanto coçava a barba, fazia contas em voz alta e acabou por dizer:
— Vejamos… dentro de trinta dias vais receber um presente.
Sofia contava os dias… Algum tempo depois, o carro dos correios atravessou a aldeia e deixou-lhe na porta de casa um pacote. Depois de sofregamente abrir o pacote, gritou:
— Umas sapatilhas!  Calçou-as com muito cuidado e exclamou:
— Agora, já posso realizar o meu desejo secreto!
— Que desejo? — perguntou a mãe.
— Agora já posso ir à escola, mãe!
— Mas, minha querida, a escola fica a oito quilômetros e o caminho é muito mau!
— Eu sei mãe, mas é que eu agora tenho umas sapatilhas… — respondeu Sofia enquanto saltitava de alegria.
Um sorriso começou a desenhar-se lentamente na boca da mãe de Sofia. Recordou a filha de vestido amarelo, cor do sol, a correr ao lado do pai que, com a pequena lousa preta debaixo do braço, procurava a sombra de um coqueiro. Recordava a filha, de olhar fixo e sem pestanejar, a olhar a lousa onde o pai fazia só rabiscos a que chamava letras: "Este aqui é o teu nome e este é o nome da nossa aldeia", ensinava ele à Sofia.
— Creio que pode ir à escola — disse então a mãe à Sofia.
No dia seguinte, ainda o sol não tinha nascido e já Sofia comia uma tigela de arroz com peixe salgado e se punha a caminho através dos arrozais. As sapatilhas protegiam-na das pedras aguçadas. E corria como se tivesse asas nos pés!
Com um salto atravessou riachos e percorreu uma estrada deserta, onde só passava um carro de longe a longe. Sofia corria e corria, cada vez mais depressa, até que por fim avistou a escola que tinha apenas uma sala de aula.
As sandálias dos alunos estavam, em fila alinhada, junto à porta da entrada. Sofia tirou rapidamente as sapatilhas, colocou-as junto às outras sandálias e entrou descalça na sala de aula.
— O meu nome é Sofia e venho à escola para aprender a ler e a escrever!
Na sala, onde havia só rapazes, começaram logo os risinhos.
— Silêncio! — disse a professora, colocando o dedo sobre os lábios fechados.
— Vem cá, és muito bem-vinda. Diz-me, de onde vens?
— De Andong Kralong.
A professora, apanhada de surpresa, disse em surdina:
— Mas, essa aldeia fica a oito quilômetros daqui!…
— Pois fica senhora professora, mas eu tenho as minhas sapatilhas!
Os rapazes continuavam com as suas risadinhas, tapando a boca com as mãos. Os olhos da Sofia encheram-se de lágrimas.
— Mas, tu és uma rapariga! — sussurrou um dos alunos.
Sofia engoliu toda a raiva que sentia e manteve-se de cabeça erguida e quieta como a serpente antes de atacar a presa. Em breve chegaria o momento da desforra.
Acabada a aula, Sofia calçou as sapatilhas e atou os seus cordões, com um triplo nó. Então, virou-se para os rapazes, olhou-os de frente e disse:
— Já que são tão espertos, venham agarrar-me!
Os rapazes, empurrando-se uns aos outros, logo desataram a correr atrás dela. Em vão.
Na manhã seguinte, Sofia acordou antes do cantar do galo. Sair tão cedo permitiu que fosse a primeira a chegar à escola. Os rapazes iam chegando de sorriso envergonhado… É que ainda não tinham esquecido a derrota, na corrida da véspera. E, a partir daquele dia, Sofia aprendeu muito naquela escola de uma única sala.
Passou um ano. Uma manhã, Sofia estava sentada junto da mãe quando, de repente, se levantou uma nuvem de poeira na encosta. O porco começou a grunhir. As galinhas a cacarejarem. Era o homem dos números que voltava no seu carro vermelho.
Nesse momento, as primeiras gotas de chuva começaram a formar pequenos círculos na superfície da água do rio, círculos que se alargavam cada vez mais. Começava a monção. Sofia olhou as nuvens que se formavam e pensou que, agora, iria ter menos calor a caminho da escola.
O homem dos números contou as pessoas da aldeia e, ao fim do dia, chegou à casa de Sofia. E olhou para os pés nus da menina.
— Onde estão as tuas sapatilhas? — perguntou.
Sofia sorriu e, com ar de desafio e mãos na cintura, disse:
— Só calço as minhas sapatilhas para ir à escola.
E os dois começaram a rir.
— Hoje, eu quero mostrar-lhe uma coisa — disse Sofia. — Venha comigo, por favor.
Caminharam juntos e em silêncio, até à margem do rio. Chegados aí, Sofia, de cabeça baixa, disse timidamente:
— Um dia, quero construir uma escola na minha aldeia, e…
— O quê?
— Também quero ser professora — afirmou Sofia.
Pegou numa cana de bambu e agarrando-a com as duas mãos, escreveu na lama de argila:
Muito obrigada pelas sapatilhas.
Agora, já sei ler e escrever.
E fez-se um tal silêncio que se podia ouvir o borbulhar da água a correr por entre os seixos.

Moral da história: 
muitas vezes precisamos apenas de um estímulo para realizar nossos sonhos. Sofia acreditou tanto que com sapatilhas conseguiria ir à escola, que quando ganhou realizou seu sonho.

Perguntas:

- Você acha que Sofia vai mesmo conseguir construir uma escola em sua aldeia? Por quê?
- Será que ela vai ser uma professora também como deseja? Ela mostrou determinação suficiente para conseguir tudo o que quer?
- E você, tem algum sonho?
- Como você espera realizar esse sonho? Você precisa de alguma sapatilha – estímulo-, situação favorável para realizar o seu sonho?

Dinâmica:

Distribuir as crianças em grupo. Deverão conversar sobre as perguntas:

Os sonhos são importantes? Por quê?

Sem sonhar e lutar pelos seus sonhos é possível ter progresso na sociedade?

Cite exemplos que você conhece de pessoas que atingiram os seus sonhos e como fizeram para conseguir.

Após o tempo estipulado, o líder fará um resumo das conclusões do grupo.
Todos os grupos apresentarão aos demais seu trabalho.
A seguir o orientador junto com as crianças, irá apontar os resultados em comum, e finalizar a conclusão sobre a história:


Se não fossem os sonhos dos grandes inventores, e mesmo de cada um de nós que lutou para realiza-los, o progresso não teria acontecido.

segunda-feira, 21 de março de 2016

O Sapateiro e Os Elfos, dos Irmãos Grimm. Um conto de Natal.

Era uma vez um sapateiro que tinha ficado tão pobre, mesmo sem culpa nenhuma, que a única coisa que lhe restara era um pedaço de couro que dava para fazer um único par de sapatos. De noite, ele cortou o molde dos sapatos, planejando começar a trabalhar neles no dia seguinte. Depois, de consciência tranquila, foi calmamente para a cama, entregou-se a Deus, e adormeceu.
De manhã, rezou suas orações e ia se sentar para começar a trabalhar quando viu que os sapatos estavam prontinhos em cima da banca. Ficou tão espantado, que nem sabia o que pensar. Pegou os sapatos e olhou de perto. Não havia um único ponto irregular e estava perfeito como se tivesse sido feito por um mestre-artesão.
Melhor ainda: logo chegou um cliente que gostou tanto dos sapatos que pagou por eles mais do que seria o preço normal. Com o dinheiro, o sapateiro ia comprar um pedaço de couro que dava para fazer dois pares de sapatos. Novamente, ele deixou os moldes cortados de noite, antes de ir deitar, pretendendo trabalhar neles com mais ânimo no dia seguinte. Mas nem precisou, porque quando se levantou os sapatos já estavam prontos. E também logo chegaram compradores, que lhe pagaram o suficiente para que ele comprasse couro para quatro pares novos.
Na manhã seguinte, ele encontrou os quatro pares prontos. E assim continuou: os sapatos que ele deixava cortados de noite estavam terminados de manhã. Em pouco tempo ele estava conseguindo se manter decentemente e, daí a mais um pouco, estava rico.
Numa noite, pouco antes do Natal, depois que o sapateiro tinha cortado o couro e eles estavam se preparando para ir dormir, ele disse para a mulher:
— E se a gente ficasse acordado hoje para ver quem é que está nos ajudando?
A mulher gostou da ideia e deixou a lâmpada acesa. Os dois se esconderam num canto, atrás de umas roupas, e ficaram esperando.
À meia-noite, dois homenzinhos nus e com ar muito esperto entraram, se inclinaram diante da banca de trabalho, pegaram as peças que estavam cortadas e começaram a furar, costurar e martelar com tanta rapidez e agilidade em dedinhos pequenos que o sapateiro nem acreditava, de tão espantado. Trabalharam sem um momento de descanso, até que os sapatos estavam prontinhos, em cima da banca. Então saíram correndo e foram embora. Na manhã seguinte, a mulher disse:
— Esses homenzinhos nos fizeram ficar ricos. Devíamos mostrar a eles como estamos gratos. Eles devem ter frio, coitados, correndo de um lado para outro sem nada para vestir. Sabe de uma coisa? Vou fazer umas camisas e calças para eles, coletes, e casacos… E você podia fazer uns pares de sapatos.
— Ótima ideia disse o sapateiro.
Naquela noite, quando aprontaram tudo, deixaram os presentes em cima da banca de trabalho, em vez dos moldes de couro cortado. Depois se esconderam para ver o que os homenzinhos iam fazer. À meia-noite, lá chegaram eles correndo, prontos para trabalhar. De início, ficaram meio intrigados ao ver aquelas roupinhas, em vez do couro cortado. Mas deram pulos de alegria. Ligeiros como o relâmpago, vestiram as roupinhas lindas, se ajeitaram todos e cantaram:
— Estamos lindos, tão elegantes. Sem mais trabalho, como era antes…
Pularam e dançaram, saltaram por cima das cadeiras e dos bancos, e finalmente saíram pela porta afora, sem parar de dançar. Depois disso, nunca mais voltaram, mas o sapateiro continuou prosperando até o fim de seus dias, porque tudo em que ele punha as mãos dava certo.



Um conto dos Irmãos Grimm.

Moral da história: 

quem trabalha com vontade e capricho sempre é recompensado com ajudas de outras pessoas.


Significado de Elfos:


[Mitol.]- Elfos são personagens da mitologia escandinava; gênios, de pequeno porte, espertos, travessos e geralmente benfeitores dos homens. São divididos em elfos das
trevas, que vivem em regiões subterrâneas e elfos da luz, que são mais belos que o Sol e vivem em um país fabuloso, chamado Alfheim.


Para você saber sobre contação de histórias, clique AQUI

Perguntas:

- O sapateiro teve culpa de ficar pobre?

- Quantos pares de sapato dava para fazer com o couro que restou?

- Você acha que ele agiu corretamente ao utilizar o último pedaço de couro para fazer um sapato?

- O sapateiro confiava em Deus? E você, também confia?

- Sem a ajuda dos Elfos, você acha que o sapateiro conseguiria?

- Os Elfos são do bem ou do mal?

Pedir que a turma faça um resumo do restante da história.

Por que os Elfos ao receberem as roupas não voltaram mais?

- A missão dos Elfos era apenas ajudar sem pedir nada em troca - 

Atividade:

Desenho livre sobre a parte da história que mais gostaram.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

10 verdades sobre castigos infantis que talvez você não Conheça...


Autor: Jon Talber.

Uma pedagogia doente só é capaz de produzir mais doença...

"Se vistos com olhos imparciais, na verdade, os problemas são apenas testes de campo para comprovar nossa acuidade criativa..."

Um castigo que não é ao mesmo tempo educativo e disciplinador, trata-se de um deformador do caráter...

Em primeiro lugar, um comportamento infantil indesejável raramente é espontâneo. Isso quer dizer que ele não nasceu como parte integrante da criança. Na maioria das vezes são inspirações herdadas, assimiladas, a partir da própria mesologia, seja no ambiente doméstico ou de convivência do portador.
Outro ponto importante são as atitudes dos adultos em relação aos indisciplinados, uma vez que a reação imediata são os ineficazes gritos, ou os castigos que ao invés de educarem deseducam. E não são raros os casos onde o pequeno infrator, além de não se corrigir, se corrompe ainda mais, o que acaba por criar um verdadeiro círculo vicioso, onde o educador agora se torna co-autor naquele processo de acentuação da deformidade comportamental da criança problemática.
Por isso mesmo, saber castigar é preciso. Não basta ter boa intenção, é necessário conhecer uma técnica, que além de educar seja incapaz de criar traumas e patrocinar mais problemas. Apenas lembrando que, o castigo deve ter sempre como objetivo o esclarecimento cognitivo, de modo que a criança se conscientize, de forma pedagógica e prática, da falha pessoal que deve ser reparada.
Criança não é burra, apenas imatura. Logo, exceto nos casos onde exista uma demência confirmada ou tenha idade inferior a três anos, já é capaz de compreender o que é errado ou certo. Mas irá precisar de um adulto consciente e disposto a informá-la sobre essas coisas.
Eis a seguir uma pequena lista de dicas, abordagens educativas, que embora tenham aparência de castigos, poderão se tornar eficientes práticas cognitivas na formação da personalidade infantil. O objetivo das orientações é ajudar a corrigir os comportamentos patológicos, que se desprezados podem evoluir para a delinquência.
Claro que as dicas poderão ser ampliadas ou adaptadas para cada caso.

Eis a lista.

Se não quiser que a criança brigue com seu irmão, diga para ela o que você deseja que faça, ou seja: “Cuide bem do seu irmão.” Para uma criança, o “não pise na grama” é um convite à prática da infração. Já a expressão: “Pise fora do gramado”, também funciona como um convite à prática do procedimento correto.

O tradicional castigo onde o pequeno infrator é colocado sentado em um local do qual não poderá se ausentar por um período de tempo, este, embora ainda largamente aplicado, é dos mais ineficazes. Ali não há o sentimento de punição, e em pouco tempo a criança adquire resistência, e ainda não muda de atitude.

Para que o castigo seja eficaz é preciso que a criança tenha a certeza de que vai perder alguma coisa, a exemplo de uma conquista ou privilégio que já possui. O castigo do cativeiro não representa uma perda de fato, mas apenas a privação temporária de sua liberdade, que será restaurada tão logo o tempo de reclusão acabe. Por isso tem um efeito apenas simbólico, mas sem nenhuma eficácia educativa ou corretiva.

E o único castigo positivo é o corretivo. E corretivo quer dizer didático, esclarecedor, que acrescente alguma coisa à cognição da criança; algo útil à sua personalidade. Não se enquadrando em nenhuma dessas condições, não é positivo. Lembre-se, o castigo não é uma punição, e sim uma forma inteligente de ensinar alguma coisa aos que não conseguem assimilar através do aprendizado tradicional.

Não existe nenhuma mágica, é um simples fato, uma criança motivada é naturalmente disciplinada...

E como a intenção do castigo é forçar a criança a prestar atenção a uma orientação, que de outro modo ela não o faria, o processo só terá o êxito pretendido se ela tiver receio de perder algum benefício concreto que já possui, como, por exemplo, limitação do uso do computador, ou do tempo diante da televisão. Assim, suspender o uso do equipamento por algumas horas, ou durante um dia inteiro, é uma boa prática.


Privá-la de brincar com os amigos, ou de assistir seus vídeos favoritos, e em casos mais extremos, até de comer sua sobremesa favorita, também tem seu valor. Com criatividade podemos ampliar a lista de “punições” cognitivas para uma infinidade de procedimentos, sem causar grandes traumas.

Importante também é não fazer que aquilo pareça um ato de vingança pessoal, sem motivos. Devemos ainda ficar atentos para os casos onde, entre irmãos, diante de uma mesma infração, penas diferenciadas são atribuídas. Nesse caso, o efeito ao invés de educativo se tornará negativo, e tende a criar revolta e antagonismos dentro do ambiente doméstico.

Esclarecer, de forma clara e convincente, sobre os motivos do castigo, e o mais importante, numa linguagem que a criança seja capaz de compreender, faz parte do processo. Histórias pessoais ou fábulas edificantes (tem bastante aqui no blog galera) poderão ser usadas como exemplos. Se coloque no lugar de cobaia, relate episódios de sua vida que possam ser usados como ilustrações. No exemplo pessoal, não aconselhamos o modelo comparativo, onde outra criança é usada como referência ou espelho de boa conduta, ou o seu inverso.


Lembre-se, a criança problemática já convive com conflitos pessoais sérios, muitos deles relacionados com a autoestima, e a comparação tende a acentuar ainda mais seu quadro psicopatológico. Por outro lado, esclarecer sobre as possíveis conseqüências de um ato negativo, tem grande valor. Mas, nada se compara com os esclarecimentos sobre os eventuais e benéficos desdobramentos de um ato positivo.

Outro ponto importante: não devemos cair na armadilha de confundir com castigo as obrigações e deveres naturais de cada um, tais como, arrumar a própria cama, ajudar em pequenas tarefas domésticas, ou acordar cedo para ir à escola. Se agirmos dessa forma, estaremos ensinando à criança que o ato de trabalhar ou de cumprir com os deveres necessários e obrigatórios, representam um castigo, uma espécie de calvário ou martírio.



Finalmente, não se limite aos conselhos que acaba de aprender; 

use sua própria imaginação e criatividade no exercício de sua pauta disciplinadora ou magistério doméstico. Afinal de contas, o centro de convivência caseira ainda é o melhor ambiente para se educar sem traumatizar.

Acrescento o indispensável exemplo dos pais, sem os quais nada vai funcionar, pois que as crianças são atentas a tudo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A mula. Fábula de Esopo.

- Meu pai com certeza era um valoroso e belo raça pura. Eu sou sua própria imagem em velocidade, resistência, espírito e beleza.
Pouco tempo depois, sendo levado a uma longa jornada como burro de carga, e sentindo-se muito cansado, exclamou em tom desconsolado:
- Acho que cometi um erro. Meu pai, afinal de contas deve ter sido apenas um simples asno.

Esopo

Moral da história: 

Ao desejarmos ser o que não somos, estamos plantando em nós a semente da frustração.

Tudo na Criação de Deus é importante e faz parte do todo. Nada na natureza é sem um significado importante na sua vida bem como no equilíbrio de tudo. Todos os vegetais, minerais, animais, insetos, rios e matas precisam deste equilíbrio para que o planeta se mantenha vivo e nos forneça o que precisamos para viver. 
Precisamos entender tudo isto para que saibamos como agir em sociedade e na natureza, mas sem acharmos que somos melhores que os outros. Quando isto acontece, mais cedo ou mais tarde a pessoa orgulhosa e arrogante vai ter alguma experiência que vai mostrar sua real importância no mundo.  

Tema: humildade.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A GRANDE CRISE. Avanço científico-tecnológico versus Infelicidade humana e violência. Uma reflexão para o educador.

Uma pausa para reflexão sempre cai bem. O foco do blog é usar fábulas e historinhas infantis para ajudar na educação de crianças preparadas para a vida, e espiritualizadas para enfrentar o novo mundo. Por isto achei de grande relevância o texto abaixo.



Avanço científico-tecnológico versus Infelicidade humana e violência.

Como explicar a grande crise que estamos vivendo hoje, em que temos, de um lado, uma humanidade que atingiu um tremendo avanço científico-tecnológico, e, de outro, estatísticas assustadoras, como a de que a depressão é a doença que mais atinge mulheres e a que mais cresce entre homens, fazendo com que antidepressivos sejam os medicamentos mais vendidos no mundo, ou a que dá conta de que a violência nas escolas, ruas, lares, etc., vem aumentando vertiginosamente?
Como explicar essa grande crise que envolve o louvável avanço científico-tecnológico de um lado e o aumento da violência e da infelicidade humana de outro?
Segundo estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2020, a depressão será a segunda maior doença em todo o mundo, ficando atrás apenas das doenças do coração.
De antemão, é possível observar que toda a evolução científica e tecnológica da humanidade não tem sido capaz de nos trazer mais felicidade, tranquilidade e paz. E se o patamar evolutivo a que chegamos não consegue nos proporcionar isso, alguma coisa está errada. E só por isso — ou exatamente por isso — percebermos a necessidade de rever nossos conceitos, de fazer uma revolução no modo como vivemos, pois, caso contrário, aumentará a relação entre tecnologia e infelicidade humana. Quando digo “revolução”, refiro-me à necessidade de mudar drasticamente nossas atitudes. Afinal, “se continuarmos fazendo o que sempre fizemos, vamos receber o que sempre recebemos. É preciso fazer algo diferente para ter um resultado diferente”.
Como se não bastasse o tamanho dessa crise, outra vem se abatendo sobre a humanidade: a crise de sentido da vida. É por causa dessa crise que o ser humano vivencia conflitos e se pergunta: de onde vim? Para onde vou? Quem sou? O que estou fazendo aqui? Qual o sentido da vida?
Todos, em determinado momento da vida, fazemos essas perguntas, mas poucos obtêm respostas satisfatórias. Em geral, as pessoas dizem a si mesmas: “eu tenho tudo para ser feliz e não sou, sinto que está faltando alguma coisa na minha vida, mas não sei o bem o que é”.
Traçamos metas, como casar, ter filhos, separar, passar no concurso, comprar uma roupa, uma casa, um carro, trocar de casa, de carro, de cidade, de país... E, quando conseguimos atingi-las, ficamos felizes na hora, por um curto período, mas a satisfação passa logo. Isso acontece porque a felicidade que esse tipo de meta proporciona não é permanente, mas passageira. E, assim, acabamos percebendo que “o melhor da festa”
é a “a expectativa da festa”, pois enquanto esperamos pela festa podemos fantasiar que ficaremos felizes, mas, no fundo, sabemos que tal felicidade é passageira.
Todo ser humano busca a felicidade.
A questão é saber como e onde encontrá-la.
É bom que as pessoas sigam realizando seus desejos, pois, assim, chegará um momento em que perceberão que apenas Deus poderá preenchê-las totalmente. Ao dizer isso, estou me referindo à transcendência, que é uma necessidade básica de nossa alma — a necessidade de entrar em contato com algo sagrado, superior, maior.
A transcendência é, para a alma, como a alimentação é para o corpo. Se não nos alimentarmos, nosso corpo sentirá fome; se não transcendermos, quem sentirá fome será a nossa alma. E é essa “fome” — a fome de transcendência sentida pela alma — que recebe o nome de depressão, de crise existencial, e que se evidencia quando não conseguimos reagir de maneira adequada aos problemas e dificuldades da vida, quando nos sentimos — e ficamos — incapazes de enfrentar adequadamente a nossa própria vida.
A falta de transcendência pode ser comparada a uma grande bebedeira:
algumas pessoas, sob o efeito do álcool, ficam nervosas, briguentas e violentas; outras ficam tristes, choram, sentem sono, desanimam; outras, ainda, ficam agitadas, desassossegadas... Portanto, quando a transcendência não está presente em nossa vida, começamos a achá-la sem graça, sem sentido, chata e cada vez mais nos sentimos tristes, vazios, depressivos, melancólicos, agressivos e violentos.
A falta de transcendência, muitas vezes, tem sido encarada como uma doença muito conhecida em nossos dias: a depressão.
Para aliviar os sintomas da falta de transcendência, precisamos acabar com comportamentos inadequados, que nos levam à escuridão.
Trataremos desse assunto nos próximos capítulos.



VALORES HUMANOS - A revolução necessária - Izabel Ribeiro