sábado, 7 de março de 2020

Respeito às coisas alheias. Educando para uma sociedade melhor.





Paulinho era um menino que fora criado com todo amor e carinho pelos seus pais.
Estudava numa escola boa e confortável, tinha professora dedicada e amigos com quem se divertia nas horas de folga. Enfim, era um bom aluno.
Contudo, certa vez entrou na sua classe um garoto maior que veio transferido de outra escola. De personalidade envolvente, Roberto começou a dominar Paulinho, que passou a ver no novo amigo um líder.
Desse dia em diante, Paulinho mostrou fraco rendimento escolar, não fazia mais os deveres de casa, tornou-se malcriado e saía sempre à noite voltando tarde ao lar, sem que sua mãe soubesse onde tinha estado.
Não valeram conselhos e recomendações dos pais e da professora; o garoto cada vez mais mostrava indisciplina, desrespeito e desinteresse por tudo o que lhe fora ensinado até então.
Seus pais, muito preocupados, não sabiam mais o que fazer.
Nessa época, o pai de Paulinho começou a ter problemas de saúde. O coração estava seriamente comprometido e era necessário um tratamento rigoroso e muito cuidado.
Certo dia, Paulinho chegou tarde da noite e encontrou tudo fechado e silencioso. Ninguém em casa.
Sem saber o que fazer, procurou informações com um vizinho. Assim, recebeu a notícia de que seu pai passara mal e fora levado às pressas para o hospital.
Com o coração angustiado, correu até o hospital e encontrou sua mãe em prantos.
— Graças a Deus que você chegou, meu filho — disse ela.
— Como está papai? — perguntou, aflito.
— Está sendo atendido pelo médico, Paulinho, mas demoramos muito para vir e temo que o socorro chegue tarde.
— Mas, por que, mamãe? Por que não pediu para Aninha ligar logo de um telefone público?
— Eu pedi, meu filho, mas o telefone está quebrado.
Muito desapontado, o garoto lembrou-se de que fora ele mesmo e seu bando quem destruíra o aparelho por brincadeira. Gaguejando, insistiu:
— Mas tem um pronto-socorro próximo de nossa casa. Por que a senhora não solicitou uma ambulância?
Meneando a cabeça, a mãe informou algo desalentada:
— Tentamos, Paulinho... Mas a ambulância, infelizmente, estava com os quatro pneus cortados, serviço de um bando de garotos desocupados que andam por aí, segundo informaram.
Corando até a raiz dos cabelos, Paulinho lembrou-se que, também por divertimento, eles haviam estragado os pneus da ambulância que estava estacionada no pátio defronte o pronto-socorro.
Cheio de vergonha e arrependimento, em lágrimas, Paulinho confessou à sua mãe tudo o que fizera, e concluiu:
— Se o papai morrer, nunca mais vou me perdoar. Por minha culpa ele não recebeu a assistência urgente de que tanto precisava.
A mãezinha que ouvia calada afagou-lhe os cabelos e falou com carinho:
— Sempre é tempo de nos arrependermos de nossas ações más, meu filho. Ore e peça a Deus em favor do seu pai. Ele nunca deixa de nos amparar nas nossas necessidades.
Algum tempo depois, o médico veio avisar que estava tudo correndo bem e que o paciente logo estaria recuperado.
Cheios de alegria, mãe e filho se abraçaram, agradecendo a Deus que atendera às suas súplicas.
E, a partir daquele dia, Paulinho voltou a ser o menino que era antes, reconhecendo que o respeito à propriedade alheia é muito importante, especialmente às coisas públicas que prestam serviço inestimável à população, e que nunca sabemos quando nós também vamos precisar delas.
Que ele, ao invés de transmitir suas boas qualidades aos amigos indisciplinados, se deixara contaminar por eles.
Paulinho prometeu a si mesmo que faria tudo o que pudesse para que seus amigos também compreendessem que somente o respeito e o amor ao próximo poderão nos tornar pessoas melhores e mais felizes.Fiel às promessas de mudança interior que fizera a si mesmo, Paulinho procurou à companhia telefônica e a direção do pronto-socorro responsabilizando-se pelos estragos verificados e prontificando-se a pagar com seu trabalho os prejuízos que causara.

Tia Célia
Célia Xavier Camargo
Fonte: O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita




Sugestões de perguntas:

1. Como é a cidade em que você vive?
2. Quais as belezas e quais as coisas feias de sua cidade?
3. Qual a maneira que temos de manter a cidade limpa?
4. Quem é responsável por manter a cidade limpa?
5. Você sabe o que é pichação? É correto?
6. Devemos conservar as placas de orientação nas ruas?
7. Como devem ser conservados os jardins públicos?
8. O que devemos fazer com o lixo?
9. Quem deve cuidar das calçadas que ficam em frente à sua casa?
10. Por que devemos cuidar da nossa cidade?
11. Quando você anda na rua e come um doce, o que faz com o papel?
12. O que você pensa das pessoas que riscam e arranham os transportes públicos?
14. Como devemos utilizar os banheiros públicos?


Reforçar que todos somos responsáveis pela conservação da cidade onde vivemos.


Tema: Responsabilidade social, cuidados com seu ambiente, ecologia e preservação do meio ambiente, educação para a convivência social.


Para pintar e reforçar o conteúdo.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Campanha Preventiva do SUICÍDIO INFANTIL - SE DESCONECTA

O Direito das Crianças. Linda poesia de Ruth Rocha.


Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.

Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.

Não é questão de querer
Nem questão de concordar
Os diretos das crianças
Todos tem de respeitar.

Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.

Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir...

Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.

Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.

Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola, bola, bola!

Lamber fundo da panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!

Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.

Um passeio de canoa,
Pão lambuzado de mel,
Ficar um pouquinho à toa...
Contar estrelas no céu...

Ficar lendo revistinha,
Um amigo inteligente,
Pipa na ponta da linha,
Um bom dum cachorro quente.

Festejar o aniversário,
Com bala, bolo e balão!
Brincar com muitos amigos,
Dar pulos no colchão.

Livros com muita figura,
Fazer viagem de trem,
Um pouquinho de aventura...
Alguém para querer bem...

Festinha de São João,
Com fogueira e com bombinha,
Pé-de-moleque e rojão,
Com quadrilha e bandeirinha.

Andar debaixo da chuva,
Ouvir música e dançar.
Ver carreira de saúva,
Sentir o cheiro do mar.

Pisar descalça no barro,
Comer frutas no pomar,
Ver casa de joão-de-barro,
Noite de muito luar.

Ter tempo pra fazer nada,
Ter quem penteie os cabelos,
Ficar um tempo calada...
Falar pelos cotovelos.

E quando a noite chegar,
Um bom banho, bem quentinha,
Sensação de bem estar...
De preferência um colinho.

Uma caminha macia,
Uma canção de ninar,
Uma história bem bonita,
Então, dormir e sonhar...

Embora eu não seja rei,
Decreto, neste país,
Que toda, toda criança
Tem direito a ser feliz!!!

 Ruth Rocha.

sábado, 20 de julho de 2019

Amizade de muitas cores. Linda poesia para crianças.


Conheci no outro dia
Um menino d’Angola.
Cheguei perto dele:
«Queres jogar à bola?»
Conheci noutro dia
Um cigano a cavalo.
Cheguei perto dele:
«Eu posso montá-lo?»
Conheci no outro dia
Uma menina chinesa.
Cheguei perto dela:
«Queres sentar-te à minha mesa?»
Sem preconceito,
Sem medos,
Nem ódios!
Tenho mil amigos,
Não ligo ao seu passaporte,
Só me interessa a amizade,
E vivo cheio de sorte!
André  Silvestre
Tema: amizade, respeito às diferenças, tolerância, solidariedade.
ATIVIDADE:

As crianças colocam as mãos sobre o papel e fazem o desenho. A seguir cada uma escolhe uma cor e pinta, logo após recortar. Colar em folha de cartolina com desenho da terra como na imagem. 

Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.
Khalil Gibran

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A LIÇÃO DO FOGO.



Um membro de um determinado grupo, ao qual prestava serviços regularmente, sem nenhum aviso deixou de participar de suas atividades. Após algumas semanas, o líder daquele grupo decidiu visitá-lo.
Era uma noite muito fria.
O líder encontrou o homem em casa sozinho, sentado diante da lareira, onde ardia um fogo brilhante e colhedor.
Adivinhando a razão da visita, o homem deu as boas-vindas ao líder, conduziu-o a uma grande cadeira perto da lareira e ficou quieto, esperando.
O líder acomodou-se confortavelmente no local indicado, mas não disse nada.
No silêncio sério que se formara, apenas contemplava a dança das chamas em torno das tochas de lenha, que ardiam.
Ao cabo de alguns minutos, o líder examinou as brasas que se formaram.
Cuidadosamente selecionou uma delas, a mais incandescente de todas, empurrando-a para o lado.
Voltou então a sentar-se, permanecendo silencioso e imóvel. O anfitrião prestava atenção a tudo, fascinado e quieto.
Aos poucos a chama da brasa solitária diminuía, até que houve um brilho momentâneo e seu fogo apagou-se de vez.
Em pouco tempo o que antes era uma festa de calor e luz, agora não passava de um negro, frio e morto pedaço de carvão recoberto de uma espessa camada de fuligem acinzentada.
Nenhuma palavra tinha sido dita desde o protocolar cumprimento inicial entre os dois amigos.
O líder, antes de se preparar para sair, manipulou novamente o carvão frio e inútil, colocando-o de volta no meio do fogo. Quase que imediatamente ele tornou a incandescer, alimentado pela luz e calor dos carvões ardentes em torno dele.
Quando o líder alcançou a porta para partir, seu anfitrião disse: 
-Obrigado. Por sua visita e pelo belíssimo sermão.
Estou voltando ao convívio do grupo.
Deus te abençoe!

Reflexão :

Aos membros vale lembrar que eles fazem parte da chama e que longe do grupo eles perdem todo o brilho.
Aos lideres vale lembrar que eles são responsáveis por manter acesa a chama de cada um e por promover a união entre todos os membros, para que o fogo seja realmente forte, eficaz e duradouro.

sábado, 13 de julho de 2019

A Lenda dos Ovos de Páscoa. Lenda com atividades.



Coelhinho da Páscoa, podes ajudar-me ?
Claro que ajudo, se puder…
Gostava de fazer uma prenda de Páscoa para dar aos meus pais!
E o que lhes queres oferecer ?
Pois… isso é que eu ainda não sei. Mas gostava de lhes oferecer uma coisa que eles gostassem muito…
Qual é a cor que eles preferem ?
O vermelho.
Então oferece-lhes alguma coisa vermelha ! Porque não?
Mas ovos vermelhos não existem !
Mas é claro que existem! A minha amiga põe todos os dias ! Vou pedir-lhe se me dá alguns para a tua prenda.
Que bom, os meus pais vão ficar contentes ! Mas eu ainda gostava de lhes oferecer mais alguma coisa…
E o que seria ?
Eles também gostam de cor-de-rosa.
Então oferece-lhes qualquer coisa cor-de-rosa ! Porque não?
Mas ovos rosas não existem!
Mas é claro que existem ! A minha amiga põe todos os dias ! Vou pedir-lhe se me dá alguns para a tua prenda.
Magnífico, então. Mas eu ainda gostava de lhes oferecer mais alguma coisa…
O que é que eles gostam mais, diz lá…
Também gostam de verde…
Então oferece-lhes ! Mas ovos verdes não existem!
Mas é claro que existem! A minha amiga põe todos os dias ! Vou pedir-lhe se me dá alguns para a tua prenda.
Mas eu ainda gostava de lhes oferecer mais alguma coisa…
De que cores gostam mais os teus pais ? Talvez de azul…
Então oferece-lhes também !
Os azuis não existem!
Mas é claro que existem! A minha amiga põe ovos azuis todos os dias ! Vou pedir-lhe se me dá alguns para a tua prenda.
Muito bem, agora acho que já tenho ovos de Páscoa de muitas cores. Os meus pais vão ficar contentes…
Que belo presente.
Agora só tens de arranjar onde colocar os ovos. Vou arranjar um cestinho para os pôr todos! Vês como conseguiste fazer uma bonita prenda? Parabéns!
Agradeço-te muito por me teres ajudado. Sem ti não seria possível conseguir uma prenda tão bonita.
Não precisas de agradecer, foi com muito prazer que te ajudei! Então adeus. Adeus e uma boa Páscoa para ti e para os teus pais…
E a menina partiu com o seu cestinho cheio de ovos de Páscoa de todas as cores em direção a sua casa.
Mas, pelo caminho, tropeçou num ramo de árvore e caiu. Os ovos caíram todos do cesto e espalharam-se por todo o lado.
A menina só conseguiu apanhar um ou dois de cada cor ! Mas, mesmo assim, dirigiu-se a casa para oferecer aos seus pais a sua cestinha de ovos de Páscoa, que tinha preparado com tanto carinho e com a ajuda do seu amigo Coelhinho da Páscoa.
Desde esse dia, pelos campos, pelas florestas, pelos jardins, ovos de Páscoa de todas as cores aparecem escondidos atrás das árvores, debaixo dos arbustos ou ao lado das flores.
São os ovos de chocolate que as crianças costumam encontrar quando brincam à caça dos ovos de Páscoa.
Agora se vocês os encontrarem, segurem-nos com cuidado para não os deixarem cair como aconteceu com a menina desta lenda!


Para colorir:






sexta-feira, 7 de junho de 2019

A SERPENTE E O VAGALUME. Linda fábula sobre a inveja.


Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vagalume. 
Este fugia rápido, com medo da feroz predadora e a serpente nem pensava em desistir. Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada... 
 No terceiro dia, ja sem forças o vagalume parou e perguntou à cobra: 
 - Posso lhe fazer três perguntas? 
 - Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar... 
 - Pertenço a sua cadeia alimentar ? 
 - Não. 
 - Eu te fiz algum mal? 
 - Não. 
 - Então, por que você quer acabar comigo? 
 - Porque não suporto ver você brilhar... 

Fonte: http://www.antroposofy.com.br/forum/download/contos_e_lendas/A%20serpente%20e%20o%20vagalume.pdf

Moral da história: 

Algumas pessoas querem destruir o que não conseguem ser, mas você acha justo?
Qual o nome desse sentimento?
Você acha um bom sentimento?

Através do diálogo concluir que podemos ser melhores e aumentar o nosso brilho sem precisar prejudicar aqueles que julgamos ser melhores do que nós.

Atitudes para ser uma pessoa melhor:

Cultivar a educação, fazer o bem, estudar, ler e se instruir, ajudar nas tarefas de casa, ajudar os colegas de escola com algum tipo de dificuldade.
A seguir pedir sugestões de outras ações no bem. 

Atividade:

Origami de cobra:




Imagem Google.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Como turbinar seu cérebro! Jogo dos 7 erros.

Durante atividades simples como diferenciar erros entre uma imagem e outra, várias
áreas cerebrais  são ativadas. As funções cognitivas estão envolvidas neste tipo de
atividade, popularmente conhecidas como jogo dos 7 erros, sendo que apesar de
parecer algo tão simples, o indivíduo ao realizar este tipo de exercício realiza várias aprendizagens implícitas.  Por exemplo:


1) Para identificar os objetos que você vê:você faz uso de seu lóbulo occipital (em vermelho).

2) Para analisar as relações espaciais entre os objetos que você vê: isso envolve seu occipital e lobo parietal (em verde).

3) Para lembrar que você vê numa imagem e compará-lo com o que você vê na outra,você tem que usar sua memória de curto prazo: envolvendo seu frontal (em azul) e lobo parietal.

4) Para anotar os locais onde você vê a diferença: envolve principalmente o lobo frontal localizado na parte da frente do cérebro (testa), onde o planejamento de ações e movimento, bem como o pensamento abstrato. Nele estão incluídos o córtex motor e o córtex pré-frontal.



Muito bem, passando da  teoria à prática...Quantas diferenças você pode achar, e quais?



Converse com sua criança, ela vai se desenvolver muito melhor.



Vamos pular amarelinha? Brincando e se desenvolvendo.



terça-feira, 12 de março de 2019

Mãos Aventureiras : Ernest e Celestine perderam Simão - Historinha em Libras.



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Peter Pan - Rumo à terra do Nunca.



Continuação da história, clique AQUI capítulo anterior.

— "Moro com os meninos perdidos."
— "Fiquei na mesma. Quem é essa gentinha? Nunca ouvi falar em meninos perdidos."
— "Meninos perdidos são os meninos que caem dos carrinhos nos jardins públicos quando as amas se distraem a namorar os soldados. Se as mães deles não conseguem encontrá-los no prazo de quinze dias, eles são remetidos para a Terra do Nunca, onde quem manda sou eu.”
— "Que engraçado!" — exclamou Wendy. — "Terra do Nunca! Está aí uma terra que eu não sabia que existisse. As geografias não falam dela. E depois? Que ideia a sua, de aparecer por cá esta noite?"
— "Eu costumo vir sempre" — respondeu Peter Pan — "para escutar do lado de fora da janela as histórias tão lindas que sua mãe conta. Tantas vezes vim que sou capaz de repetir uma por uma todas as histórias que vocês já ouviram."
— "Mas como é lá na Terra do Nunca?"
— "Oh, uma terra linda, Wendy! Temos piratas terríveis num grande lago, temos alcateias de lobos famintos que percorrem a floresta e temos uma tribo de índios ferozes, os Peles-Vermelhas, como são chamados. E temos ainda as sereias."
— "Sereias?" repetiu Wendy batendo palmas. — "Com cauda?"
— "Com cauda, escamas e tudo. Sereias iguaizinhas a essas que você vê pintadas nos livros. Uma lindeza, Wendy!"
Wendy não cabia em si de encantamento ante as maravilhas contadas por Peter Pan: Ele, porém, alegou que era tarde e tinha de ir-se embora.
— "Os meninos perdidos já devem estar inquietos com a minha ausência, e ansiosíssimos por ouvir o fim da história que a Senhora Darling contou hoje. Já sabem a primeira parte. Eu venho cá, ouço as histórias ali da janela e depois as conto a eles direitinho."
— "Não vá ainda!" — pediu Wendy. — "Eu sei mais de cem histórias, cada qual mais bonita, e se você ficar eu as contarei todas. Fique."
— "Mais de cem histórias? Oh, que mina!" — exclamou Peter Pan, batendo palmas. — "Nesse caso o melhor seria ir você comigo para a Terra do Nunca. Poderá contar todas essas histórias aos meninos perdidos, poderá ainda remendar a roupa deles, pregar botões e de noite fazê-los dormir — tudo como a
Senhora Darling faz aqui. Oh, Wendy, venha comigo..."
A tentação era enorme. Visitar um país daqueles, com feras e piratas e índios e sereias, e ter ainda toda aquela meninada para brincar! Que bom não
seria... Mas a menina vacilava.
— "Não posso, Peter Pan. Mamãe não o consentiria nunca. E, além disso, deve ser muito longe essa terra."
— "Que importa que seja longe? Iremos voando, e para quem voa não há distâncias."
— "Voando? Mas eu não sei voar, Peter Pan! Que ideia..."
— "Eu ensino, não seja essa a dúvida. Em dois minutos deixo você voando que nem uma andorinha."
Aquilo era demais. Era ainda melhor do que ver sereias. Voar, voar...
Wendy não pôde resistir à tentação: resolveu que iria. Em todo caso, duvidou um pouco.
— "Já disse que ensino" — assegurou Peter Pan com firmeza. — “Eu, quando digo, faço”.
— "E ensina também ao Joãozinho e ao Miguel? Se formos para lá temos de ir todos."
— "Ensino, sim, claro que ensino. Está resolvida? Vai mesmo?"
— "Estou resolvida, vou!" — respondeu Wendy com firmeza — e pulando da cama foi acordar os irmãozinhos.
João Napoleão e Miguel sentaram-se na cama esfregando os olhos, e logo que souberam do caso, deram pulos de contentamento. Gostavam de piratas e sereias ainda mais que Wendy e, portanto ficaram ainda mais assanhados.
Queriam partir incontinenti.
— "Isso, não!" — disse Peter Pan. — "Antes de mais nada vocês precisam tomar umas lições de voo."
— "É fácil voar?" — indagou Miguel.
— "É assim" — e Peter Pan deu uma demonstração, esvoaçando pelo quarto como se fosse uma borboleta.
Vendo a facilidade, os meninos tentaram fazer o mesmo. Subiram às camas, ergueram os braços e atiraram-se. Mas foi só tombo. Esborracharam-se no tapete.
Peter Pan riu-se.
— "Não é assim, meninos. Eu tenho de soprar em vocês um pó mágico que certa fada me deu" — e dizendo isto sacou do bolso uma caixinha do pó mágico e soprou uma pitada no nariz de cada um; depois mandou que experimentassem, que subissem às camas, erguessem os braços e dessem outro pulo para o ar.
Os meninos experimentaram e com grande assombro viram que estavam leves como plumas e que podiam equilibrar-se no ar com a maior facilidade.
— "Estou que nem esses balõezinhos de borracha que mamãe enche de gás" — disse Miguel. — "Estou sem peso nenhum!" — e voou quase tão bem como Peter Pan. Por falta de experiência os três voadores deram algumas cabeçadas no forro, mas alguns minutos depois estavam que nem uma andorinha que havia ficado presa no quarto dois dias antes.
Vendo-os nesse ponto, Peter Pan achou que não era preciso mais.
Podiam partir.
— "Muito bem" — disse ele. — “Podemos partir”. Sininho seguirá na frente, para indicar o caminho. Em segundo lugar vou eu com Wendy. Depois vai João Napoleão e por último, Miguel. Aprontem-se para partir.
Foi uma correria. João Napoleão quis levar uma porção de coisas, mas teve que desistir porque ficaria muito pesado. Miguel correu ao vestíbulo da casa em busca dum gorro e como não o encontrasse veio com uma cartola do Senhor Darling na cabeça. Wendy resolveu ir como estava, de camisola mesmo.
— "Pronto?" — perguntou Peter Pan.
— "Pronto" — responderam todos.
— "Então vamos lá. Um, dois e... três!"
Ouviu-se um prrrrr... E ergueram-se nos ares os quatro meninos, na ordem mareada pelo chefe e com a bola de fogo voando à frente para indicar o caminho. E lá se foram para a maravilhosa Terra do Nunca...
Justamente naquela hora Mrs. Darling estava na sala de jantar contando ao marido a história da sombra. O Senhor Darling sorria.
— "Impossível, querida. Isso há de ser sonho. É um absurdo."
Nisto soou o prrrrr... Julgando que fosse alguma coruja que houvesse entrado na nursery, a Senhora Darling correu para lá. Ao ver a janela aberta e as três camas vazias, deu um grito e desmaiou.
Neste ponto Dona Benta interrompeu a história, deixando o resto para o dia seguinte.


Aguardem a continuação aqui no blog.

Peter Pan por Monteiro Lobato -  Domínio Público.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Peter Pan e o caso da sombra.



Dona Benta sentou-se na sua cadeira de pernas serradas, subiu para a testa os óculos de aro de ouro e começou:
— Era uma vez uma família inglesa...
— Espere Sinhá! Não Comece ainda — gritou lá da copa tia Nastácia. — Eu também faço questão de conhecer a história desse pestinha.
Estou acabando de lavar as panelas e já vou.
Dona Benta esperou que a negra chegasse, apesar do protesto da Emília, que disse: — "Bobagem! Para que uma cozinheira precisa saber a história de Peter Pan?"
Tia Nastácia veio e escarrapachou-se no assoalho, entre o Visconde e a menina. Só então Dona Benta começou de verdade.
— Havia na Inglaterra uma família inglesa composta de pai, mãe e três filhos — uma menina de nome Wendy (pronuncia-se Uêndi), que era a mais velha; um menino de nome João Napoleão, que era o do meio; e outro de nome Miguel, que era o caçulinha. Os três tinham o sobrenome de Darling, porque o pai se chamava não sei quê Darling. Esses meninos ocupavam a mesma nursery numa linda casa de Londres.
— Nursery? — repetiu Pedrinho. — Que vem a ser isso?
— Nursery (pronuncia-se nârseri) quer dizer em inglês, quarto de crianças. Aqui no Brasil, quarto de criança é um quarto como outro qualquer e por isso não tem o nome especial. Mas na Inglaterra é diferente. São uma beleza os quartos das crianças lá, com pinturas engraçadas rodeando as paredes, todos cheios de móveis especiais, e de quanto brinquedo existe.
— Boi de chuchu, tem? — indagou Emília.
— Talvez não tenha, porque boi de chuchu é brinquedo de meninos da roça, e Londres é uma grande cidade, a maior do mundo. As crianças inglesas são muito mimadas e têm os brinquedos que querem. Os brinquedos ingleses são dos melhores.
— E os brinquedos alemães, vovó? Ouvi dizer que há na Alemanha uma cidade que é o centro da fabricação de brinquedos.
— E é verdade, meu filho. Nuremberg: eis o nome da capital dos brinquedos. Fabricam-nos lá de todos os feitios e de todos os preços, e exportam-nos para todos os países do mundo.
— E aqui, vovó?
— Aqui essa indústria está começando: Já temos algumas fábricas de bonecas e outras de carrinhos, cavalinhos de pau, trenzinhos de folha, patinhos de celuloide, gaitas de assoprar, etc. etc.
Pedrinho declarou que quando crescesse ia montar uma grande fábrica de brinquedos da maior variedade possível, e que lançaria no mercado bonecos representando o Visconde de Sabugosa, a Emília, o Rabicó etc. Todos gostaram muito da ideia e Dona Benta voltou ao assunto.
— Pois é isso. Aquela nursery era um encanto. Imaginem que quem tomava conta das crianças era a Nana.
Alguma criada?
Não. Uma cachorra muito inteligente. Era Nana quem dava banho nas crianças, quem as vestia para dormir e tudo mais — e muito direitinho.
Na noite em que a nossa história começa, Nana estava cochilando perto da lareira, com a cabeça entre as patas, enquanto no cômodo pegado o Senhor e a Senhora Darling se preparavam para uma visita a uns parentes.
Quando o casal saía de noite quem ficava tornando conta dos meninos era sempre a cachorra. Nisto o relógio bateu oito horas — bem, bem, bem, bem, bem, bem...
— A senhora errou, Dona Benta! — berrou logo Emília, que não deixava escapar coisa nenhuma. — A senhora só bateu seis bens.
Dona Benta riu-se.
— Não faz mal — disse ela. Os dois que faltam ficam subentendidos.
Mas o relógio bateu oito horas e Nana ergueu-se e espreguiçou-se, porque a ordem da Senhora Darling era fazer a criançada ir para a cama a essa hora justa. Depois Nana acendeu a luz elétrica.
— Como?
— Ela sabia agarrar com a boca a chave da luz e torcer. Estava acostumada a fazer isso. Acendeu a luz e foi ver os pijamas de cada um. E foi ao banheiro abrir a torneira de água quente e fria, experimentando a água com a pata para ver se-estava no ponto.
— Que danada! Por que a senhora não nos arranja uma cachorra assim, vovó?
— Porque vocês só querem saber de onças e rinocerontes e bichos esquisitos. Mas deixem estar que ainda ponho um Cachorrinho aqui em casa.
— E há de chamar-se Japi! — gritou Emília, que sempre fora a botadeira de nomes. — Mas continue Dona Benta. A Nana encheu a banheira e que mais?
— Preparou a água do banho e foi buscar o Miguel, que era o menorzinho, e Miguel veio montado nela, dando esporadas. Nana fê-lo apear-se e entrar n’água, e foi fechar a porta para que não houvesse corrente de ar. Depois de acabado o banho, deu o pijaminha para Miguel vestir e levou-o para a cama.
Nesse momento a mãe dos meninos entrou no quarto para ver se estava tudo em ordem. Animou a todos, um por um, prometeu um passeio ao jardim zoológico, para que vissem a enorme goela vermelha do hipopótamo e o pescoço que não acaba mais da girafa. Depois contou uma história linda.
— Que história ela contava? — quis saber Emília.
— Quantas existem. As mesmas que já contei a vocês e muitas outras. Depois distribuiu beijos, dizendo: — "Agora tratem de dormir." Acendeu uma lamparina de luz muito fraca, apagou a luz elétrica e ia saindo na ponta dos pés, quando notou uma sombra esquisita na parede — uma sombra que vinha da rua. Voltou-se de repente e viu do lado de fora o vulto dum menino.
Assustou-se, está claro, porque as boas mães se assustam por qualquer coisinha e correu a fechar a vidraça. Fez isso tão depressa que a sombra não teve tempo de retirar-se e foi guilhotinada. Por essa e outras é que as tais vidraças de subir e descer, como as nossas aqui do sítio, são chamadas "vidraças de guilhotina".
— E que é guilhotina? — perguntou Emília, que pela primeira vez ouvia essa palavra.
Dona Benta explicou que era uma certa máquina de cortar cabeça de gente, inventada por um médico francês de nome Guillotin. Isso durante o terrível período da Revolução Francesa, um tempo em que cortar cabeça de gente se tornou a preocupação mais séria do governo. E Pedrinho, já lido na História do Mundo, lembrou que o próprio Doutor Guillotin teve a sua cabeça cortada por essa máquina.
— Bem feito! — exclamou Emília. — Quem manda...
— Bom, chega de guilhotina — gritou Narizinho. — Continue vovó. A Senhora Darling guilhotinou a cabeça da sombra e que fez depois?
— Ao ver cair no chão a cabeça da sombra, como se fosse um pedaço de gaze negra, ela murmurou: — "Que fato estranho!" — Depois
abaixou-se, pegou a cabeça da sombra e examinou-a a luz da lamparina, com cara de quem diz: — "Nunca ouvi contar dum fato semelhante! São dessas coisas que até parecem invenção". Em seguida dobrou a sombra, bem dobradinha, guardou-a na gaveta de Wendy e retirou-se do quarto, pensativa.
— E os meninos? — indagou Narizinho. — Nada viram?
— Os meninos nada perceberam. Quando a Senhora Darling deu com a sombra na parede, eles já estavam caindo no sono.
O quarto ficou mergulhado em silêncio profundo. Todos dormiam, e até a chama da lamparina parecia cochilar, de tão quietinha. Mas de repente essa luz tremeu três vezes e apagou-se.
— Por quê? — indagou Narizinho.
— Algum besouro — sugeriu Emília.
— Não — disse Dona Benta. — É que havia entrado pela janela uma pequena bola de fogo.
— Como havia entrado pela janela, se a janela estava fechada? — berrou Emília.
— Isso não sei — disse Dona Benta. — O livro nada conta. Mas como fosse uma bola de fogo mágica, o caso se torna possível. Para as bolas de fogo mágicas tanto faz uma janela estar aberta como fechada. Ela acha sempre jeito de entrar. Do contrário não valia a pena ser bola mágica. Entrou e começou a esvoaçar em todas as direções, muito aflitazinha, como quem anda atrás de alguma coisa.
— Já sei — interrompeu Narizinho. — Estava procurando a cabeça da sombra.
— Talvez fosse isso, — concordou Dona Benta — porque depois de várias voltas pelo ar a bola parou defronte do armário de Wendy e entrou na gaveta pelo buraco da fechadura.
— E houve um incêndio, já sei! — gritou Emília. — Bola de fogo em gaveta de armário é incêndio certo. A cidade de Londres vai ser destruída...
— Credo! — exclamou tia Nastácia, que estivera cochilando e acordara naquele ponto. — Não fale assim, Emília, que é mau agouro.
— Não houve incêndio nenhum — disse Dona Benta. — Bola de fogo mágica não pega fogo nas coisas.
— Então que aconteceu?
— Nada. A bola ficou na gaveta, e nesse mesmo instante a janela foi erguida pelo lado de fora. A cabeça dum menino apareceu. Apareceu, espiou de todos os lados e pulou para dentro do quarto sem fazer o menor barulho.
— "Sininho, Sininho! Onde está você, Sininho?" — indagou ele em voz baixa.
— "Tlin, tlin, tlin", — foi a resposta da bola de fogo lá dentro da gaveta.
O menino dirigiu-se pé ante pé na direção dos tlins, abriu a gaveta e remexeu-a toda, até encontrar a cabeça da sombra. Pela cara alegre que fez via-se que era o dono dela.
— Que engraçado! — exclamou Emília. — Só agora noto que todos nós temos a nossa sombra, que é só nossa, mas não de gaze, como a desse menino. É de ar preto.
— E que fez ele, vovó, depois de achar a sombra? — perguntou a menina.
— Que fez? Tirou-a da gaveta, desdobrou-a e tratou de emendá-la no resto, porque desde que a Senhora Darling desceu a janela ele ficou com a sombra sem cabeça — ou decapitada. Mas isso de emendar sombra não é coisa fácil. Exige prática. O menino tentou primeiro grudá-la com cuspe. Não grudou.
Lembrou-se de a colar com sabão. Também não colou. O menino sentiu-se atrapalhado.
— Se fosse eu — disse Emília — experimentava uma bisnaga de Cola-tudo. O que cola tudo deve colar sombra também.
— E onde achar a tal bisnaga de Cola-tudo?
— Todas as nurserys devem ter uma bisnaga de Cola-tudo para colar os brinquedos. Eu se fosse a Senhora Darling...
— Está bem, Emília, mas pare de falar. Não atrapalhe mais. Continue vovó.
Dona Benta continuou:
— A. cabeça não colava de jeito nenhum, de modo que o menino foi tomado de grande desespero. Isso de ter sombra sem cabeça parece ser uma coisa terrível; pelo menos o era para aquele menino, pois escondeu a cara nas mãos e, pôs-se a chorar tão alto que Wendy acordou e sentou-se na cama, muito admirada.
— "Por que está chorando?" — indagou ela.
Em vez de responder, o menino enxugou depressa os olhos com as costas da mão e fez um bonito cumprimento com o gorro vermelho. Depois disse:
— "Há muito tempo que eu ando querendo saber qual é o seu nome."
— "Meu nome é Wendy Darling" — respondeu a menina. — "E o seu?"
— "Peter Pan."
— "E onde mora o Senhor Peter Pan?"
— "Moro na rua das casas, número das portas."
Wendy riu-se daquela molecagem e puxou prosa. Conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que Peter Pan era um menino sem pai nem mãe, que vivia solto pelo mundo e agora estava muito atrapalhado por ter perdido a cabeça de sua sombra.
— "Não; gruda nem com sabão" — disse ele fazendo bico.
— "Bobo!" — exclamou Wendy rindo-se. — "Com sabão está claro que não gruda. Sabão só gruda nota velha. Sombra tem que ser costurada com retrós, quer ver?" — e sem esperar pela resposta saltou da cama, foi à sua mesinha de costura e trouxe de lá uma agulha já enfiada. Ajeitou a cabeça da sombra no resto da sombra e num instante alinhavou-a com retrós preto. Ficou que ninguém percebia a emenda.
— "Pronto! Vê como está bem agora?"
Peter Pan pulou de contentamento. Deu várias voltas pela nursery, num verdadeiro namoro com a sua sombra consertada.
— "Eu sou mesmo um danadinho!" — exclamou por fim, todo cheio de si.
Tamanha gabolice espantou Wendy Ela havia consertado a sombra e o prosa chamava para si as honras! Já se viu uma coisa assim?
 "Danado, você?" — disse a menina com ironia. — "Se fui eu quem costurou a sombra, como o danado pode ser você?"
— "Sim" — disse o menino; — "você ajudou um pouco, não nego."
— "Ajudou!..." — repetiu Wendy imitando-lhe o tom de voz. — "Pois nesse caso, passe muito bem! Não gosto de gente gabola."
Disse e pulou para a cama, deitando-se e cobrindo a cabeça com a colcha.
Peter Pan desapontou e fez cara de arrependido.
— "Oh, não se ofenda, Wendy! Eu tenho este defeito. Sou gabola de nascença. Quando qualquer coisa de bom me acontece, ponho-me sem querer a contar prosa. Seja boa. Perdoe-me. Reconheço que uma menina vale mais do que vinte meninos."
— Isso também não! — protestou Pedrinho. — Só se é lá na Inglaterra. Aqui no Brasil um menino vale pelo menos duas meninas.
— Olhem o outro gabola! — exclamou Narizinho. — Vovó já disse que louvor em boca própria é vitupério.
Wendy — continuou Dona Benta — enterneceu-se com o tom daquelas palavras e sentou-se de novo na cama, descobrindo a cabeça. Estava risonha e contente.
— "Peter Pan" — disse ela — "você bem que merece um beijo.
Quer?"
O menino ficou no ar, sem compreender. Menino sem mãe é assim, nem beijo sabe o que é. Beijo! pensou consigo. Que seria isso de beijo? Com certeza era aquele copinho de prata que Wendy tinha posto no dedo quando tomou a agulha para coser a sua sombra. Não podia ser outra coisa.
— "Quero" — respondeu ele, e foi logo tirando o dedal do dedo de Wendy e colocando-o no seu, certo de que beijo queria dizer dedal. Depois, para retribuir a gentileza, perguntou à menina se ela aceitava um beijo dele.
— "Aceito, sim" — respondeu Wendy, que estava achando muito curioso aquilo.
— "Pois tome este" — disse Peter Pan, arrancando um dos botões de seu casaco e apresentando-o com toda a seriedade.
— Já sei — gritou Emília. — Beijo para ele significava presente, um presente qualquer. Que bobíssimo!
— Wendy — continuou Dona Benta — recebeu o botão e ficou de olhos postos em Peter Pan. Súbito, perguntou:
— "Que idade você tem, Peter Pan?"
— "Não sei. Só sei que sou bastante criança. Fugi de casa no mesmo dia em que nasci."
— "No mesmo dia em que nasceu? Que ideia! E por que, meu caro?"
— "Porque ouvi uma conversa entre meu pai e minha mãe sobre o que eu havia de ser quando crescesse. Ora, eu não queria crescer. Não queria, nem quero nunca virar homem grande, de bigodeira na cara feito taturana. Muito melhor ficar sempre menino, não acha? Por isso fugi e fui viver com as fadas."
Wendy quase perdeu a fala de tanto gosto, ao saber que estava diante dum menino conhecedor de fadas. Ela ouvia sua mãe contar histórias de fadas, mas não havia nunca falado com alguém que as conhecesse pessoalmente.
— "É verdade isso, Peter? Há mesmo fadas ou você está a mangar comigo?"
— "Verdade, sim, Wendy. Não muitas, mas há."
— "E de onde vêm elas?"
— "Então não sabe, Wendy? Parece incrível! Não há quem não saiba disso..."
— "Pois eu não sei. Conte."
— "Foi assim. A primeira fada apareceu no mundo do dia em que a primeira criança nascida deu a primeira risadinha."
— "Oh, nesse caso deve haver uma fada para cada criança no mundo, porque todas as crianças dão uma primeira risadinha" — observou Wendy.
— "Assim devia ser" — confirmou Peter Pan, — "se as fadas não fossem as criaturas mais fáceis de morrer que existem. Morrem como
passarinhos. Cada vez, por exemplo, que uma criança diz que não acredita em fadas, morre uma."
Aqui tia Nastácia interrompeu a narrativa para dizer:
— Para mim esse menino estava empulhando Dona Wendy. Estou velha e só vi fada nas histórias.
— Cale a boca! — berrou Emília. — Você só entende de cebolas e alhos e vinagres e toicinhos. Está claro que não poderia nunca ter visto fada porque elas não aparecem para gente preta. Eu se fosse Peter Pan, enganava Wendy dizendo que uma fada morre sempre que vê uma negra beiçuda...
— Mais respeito com os velhos, Emília! — advertiu Dona Benta. —
Não quero que trate Nastácia desse modo. Todos aqui sabem que ela é preta só por fora.
— É o pigmento — disse o Visconde. — Isso de brancuras e preturas não passa de maior ou menor quantidade de pigmentos nas células da pele.
Emília, que não sabia o significado de pigmento, veio logo com a sua célebre respostinha: — "Pigmento é o seu nariz" — mas Dona Benta apoiou o
Visconde, dizendo que era aquilo mesmo, que os pretos são pretos porque têm muitos pigmentos na pele.
— Mas que é esse tal pigmento, vovó?
— Pigmento é como os sábios chamam qualquer substância colorida que tinge os tecidos duma planta ou dum organismo animal. A rosa vermelha é
vermelha por causa dos pigmentos vermelhos que tem nas pétalas e os negros são negros por causa dos pigmentos negros que possuem na pele.
— Quer dizer — observou Emília — que se os pigmentos de tia Nastácia fossem cor de burro quando foge, ela não seria negra e sim uma burra fugida...
— Chi, meu Deus do Céu! — exclamou Narizinho. — Como a Emília está asneirenta hoje...
— É a lua — disse tia Nastácia. — Já reparei que em tempo de lua cheia Emília dá para espirrar bobagem que nem torneira aberta que a gente quer tapar com a mão.
Emílio botou-lhe a língua e Dona Benta prosseguiu:
— Mas vamos ao caso. Vocês me interrompem tanto que a história não pode chegar ao fim. Peter Pan contou a Wendy como as fadas nascem, e ao falar em fada lembrou-se da bola de fogo que havia entrado na gaveta. Era uma fada, essa bolinha, e muito sua amiga. Uma fada que fazia tudo que as outras
fadas fazem, menos falar. Sua fala não passava daquele tlin, tlin, tlin, de campainha de prata.
Assim que Peter Pan se lembrou da bola de fogo, ou Sininho, como era o seu nome, um tlin, tlin zangado se fez ouvir dentro da gaveta.
— "A pobre!" — exclamou Peter Pan. — "Deve estar furiosa comigo por ter-me distraído com você e esquecido dela. Sininho é ciumentíssima."
De fato. Sininho saiu da gaveta furiosa. Esvoaçou pelo quarto por uns instantes, indo afinal esconder-se num canto, emburrada. Eram ciúmes de Wendy. Mas a menina não deu nenhuma importância àqueles maus modos; continuou a conversar com Peter Pan como se não houvesse visto nada.
— "Vamos, Peter Pan!" — disse ela. "Conte-me mais alguma coisa da sua vida. Conte onde mora, mas de verdade."

A história continua, vamos descobrir onde Peter Pan mora?

Monteiro Lobato - Domínio Público