domingo, 22 de maio de 2016

História de Uma Gata. Chico Buarque.



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História de Uma Gata.
Chico Buarque
 
Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato

Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria

Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio

Felino, não reconhecerás.





Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php image=134637&picture=minimalista-desenho-do-gato

Complete o desenho do gatinho e pinte.

A princesa e a ervilha. Hans Christian Andersen.

Fonte da imagem;https://pixabay.com/pt/menina-dan%C3%A7a-vestido-flores-1349272/

Havia uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas não se contentava com uma princesa que não fosse de verdade. De modo que se dedicou a procurá-la no mundo inteiro, ainda que inutilmente, pois todas que via apresentavam algum defeito. Princesas havia muitas, porém não podia ter certeza, ja que sempre havia nelas algo que não estava bem. Assim, regressou ao seu reino cheio de sentimento, pois desejava muito uma princesa verdadeira!
Certa noite, caiu uma tempestade horrível. Trovejava e chovia a cântaros. De repente, bateram à porta do castelo, e o rei foi pessoalmente abrir.
No umbral havia uma princesa. Mas, Santo Céu, como havia ficado com o tempo ea chuva! A água escorria por seu cabelo e roupas, seu sapato estava desmanchando. Apesar disso, ela insistia que era uma princesa real e verdadeira.
"Bom, isso vamos saber logo", pensou a rainha velha.
E, sem dizer uma palavra, foi ao quarto, tirou toda a roupa de cama e colocou uma ervilha no estrado, em seguida colocou vinte colchões sobre a ervilha, e sobre eles vinte almofadas feitas com as plumas mais suaves que se pode imaginar.
Ali teria que dormir toda a noite a princesa.
Na manhã seguinte, perguntaram-lhe como tinha dormido.
-Oh, terrivelmente mal! - disse a princesa. Não consegui fechar os olhos toda a noite. Vá se saber o que havia nessa cama! Encostei-me em algo tão duro que amanheci cheia de dores. Foi horrível!
Ouvindo isso, todos compreenderam que se tratava de uma verdadeira princesa, já que havia sentido a ervilha através dos vinte colchões e vinte almofadões. Só uma princesa podia ter uma pele tão delicada.
E assim o príncipe casou com ela, seguro que sua era uma princesa completa. A ervilha foi enviada a um museu onde pode ser vista, a não ser que alguém a tenha roubado.


sábado, 21 de maio de 2016

Respeitando o tempo para aprender. Linda animação.

O pescador e sua mulher. Um conto de fadas dos Irmãos Grimm.

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Era uma vez um pobre pescador e sua mulher. Eram pobres, muito pobres. Moravam numa choupana à beira-mar, num lugar solitário. Viviam dos poucos peixes que ele pescava. Poucos porque, de tão pobre que era ele não possuía um barco: não podia aventurar-se ao mar alto, onde estão os grandes cardumes. Tinha de se contentar com os peixes que apanhava com os anzóis ou com as redes lançadas no raso. Sua choupana, de pau-a-pique era coberta com folhas de palmeira. Quando chovia a água caía dentro da casa e os dois tinham de ficar encolhidos, agachados, num canto.
Não tinham razões para serem felizes. Mas, a despeito de tudo, tinham momentos de felicidade. Era quando começavam a falar sobre os seus sonhos. Algum dia ele teria sorte, teria uma grande pescaria, ou encontraria um tesouro – e então teriam uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente e galinhas no quintal. Eles sabiam que a casinha azul não passava de um sonho. Mas era tão bom sonhar! E assim, sonhando com a impossível casinha azul, eles dormiam felizes, abraçados.
Era um dia comum como todos os outros. O pescador saiu muito cedo com seus anzóis para pescar. O mar estava tranquilo, muito azul. O céu limpo, a brisa fresca. De cima de uma pedra lançou o seu anzol. Sentiu um tranco forte. Um peixe estava preso no anzol. Lutou. Puxou. Tirou o peixe. Ele tinha escamas de prata com barbatanas de ouro. Foi então que o espanto aconteceu. O peixe falou. "Pescador, eu sou um peixe mágico, anjo dos deuses no mar. Devolva-me ao mar que realizarei o seu maior desejo…" O pescador acreditou. Um peixe que fala deve ser digno de confiança. "Eu e minha mulher temos um sonho," disse o pescador. "Sonhamos com uma casinha azul, jardim na frente, galinhas no quintal… E mais, roupa nova para minha mulher…"
Ditas estas palavras ele lançou o peixe de novo ao mar e voltou para casa, para ver se o prometido acontecera. De longe, no lugar da choupana antiga, ele viu uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, e galinhas no quintal e, à frente dela, a sua mulher com um vestido novo – tão linda! Começou a correr e enquanto corria pensava: "Finalmente nosso sonho se realizou! Encontramos a felicidade!"
Foi um abraço maravilhoso. Ela ria de felicidade. Mas não estava entendendo nada. Queria explicações. E ele então lhe contou do peixe mágico. "Ele me disse que eu poderia pedir o que quisesse. E eu então me lembrei do nosso sonho…" Houve um momento de silêncio. O rosto da mulher se alterou. Cessou o riso. Ficou séria. Ela olhou para o marido e, pela primeira vez, ele lhe pareceu imensamente tolo: "Você poderia ter pedido o que quisesse? E por que não pediu uma casa maior, mais bonita, com varanda, três quartos e dois banheiros? Volte. Chame o peixe. Diga-lhe que você mudou de ideia."
O marido sentiu a repreensão e sentiu-se envergonhado. Obedeceu. Voltou. O mar já não estava tão calmo, tão azul. Soprava um vento mais forte. Gritou: "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" O peixe apareceu e lhe perguntou: "O que é que você deseja?" O pescador respondeu "Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido uma casa maior, com varanda, três quartos e dois banheiros!" O peixe lhe disse: "Pode ir. O desejo dela já foi atendido." De longe o pescador viu a casa nova, grande, do jeito mesmo como a mulher pedira.
"Agora ela está feliz," ele pensou. Mas ao chegar a casa o que ele viu não foi um rosto sorridente. Foi um rosto transtornado. "Tolo, mil vezes tolo! De que me vale essa casa nesse lugar ermo, onde ninguém a vê? O que eu desejo é um palacete num condomínio elegante, com dois andares, muitos banheiros, escadarias de mármore, fontes, piscina, jardins. Volte! Diga ao peixe desse novo desejo!"
O pescador, obediente, voltou. O mar estava cinzento e agitado. Gritou: "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" O peixe apareceu e lhe perguntou: "O que é que você deseja?" O pescador respondeu "Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palacete num condomínio elegante…" Antes que ele terminasse o peixe disse: "Pode voltar. O desejo dela já está satisfeito."
Depois de muito andar – agora ele já não morava perto da praia - chegou à cidade e viu, num condomínio rico, um palacete tal e qual aquele que sua mulher desejava. "Que bom," ele pensou. "Agora, com seu desejo satisfeito, ela deve estar feliz, mexendo nas coisas da casa." Mas ela não estava mexendo nas coisas da casa. Estava na janela. Olhava o palacete vizinho, muito maior e mais bonito que o seu, do homem mais rico da cidade. O seu rosto estava transtornado de raiva, os seus olhos injetados de inveja.
"Homem, o peixe disse que você poderia pedir o que quisesse. Volte. Diga-lhe que eu desejo um palácio de rainha, com salões de baile, salões de banquete, parques, lagos, cavalariças, criados, capela."
O marido obedeceu. Voltou. O vento soprava sinistro sobre o mar cor de chumbo. "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" O peixe apareceu e lhe perguntou: "O que é que você deseja?" O pescador respondeu "Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palácio com salões de baile, de banquete, parques, lagos…" - "Volte!" disse o peixe antes que ele terminasse. "O desejo de sua mulher já está satisfeito."
Era magnífico o palácio. Mais bonito do que tudo aquilo que ele jamais imaginara. Torres, bosques, gramados, jardins, lagos, fontes, criados, cavalos, cães de raça, salões ricamente decorados… Ele pensou: "Agora ela tem de estar satisfeita. Ela não pode pedir nada mais rico."
O céu estava coberto de nuvens e chovia. A mulher, de uma das janelas, observava o reino vizinho, ao longe. Lá o céu estava azul e o sol brilhava. As pessoas passeavam alegremente pelo campo.
"De que me serve este palácio se não posso gozá-lo por causa da chuva? Volte, diga ao peixe que eu quero ter o poder dos deuses para decretar que haja sol ou haja chuva!"
O homem, amedrontado, voltou. O mar estava furioso. Suas ondas se espatifavam no rochedo. "Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!" – ele gritou. O peixe apareceu. "Que é que sua mulher deseja?" ele perguntou. O pescador respondeu: "Ela deseja ter o poder para decretar que haja sol ou haja chuva!"
O peixe falou suavemente. "O que vocês desejavam era felicidade, não era?" - "Sim," respondeu o pescador. "A felicidade é o que nós dois desejamos." - " Pois eu vou lhes dar a felicidade!" O pescador riu de alegria. "Volte," disse o peixe. "Vá ao lugar da sua primeira casa. Lá você encontrará a felicidade…" E com estas palavras desapareceu.
O pescador voltou. De longe ele viu a sua casinha antiga, a mesma casinha de pau-a-pique coberta de folhas de coqueiro. Viu sua mulher com o mesmo vestido velho. Ela colhia verduras na horta. Quando ela o viu veio correndo ao seu encontro. "Que bom que você voltou mais cedo," ela disse com um sorriso. "Sabe? Vou fazer uma salada e sopa de ostras, daquelas que você gosta. E enquanto comemos, vamos falar sobre a casinha branca com janelas azuis… E depois vamos dormir abraçados”.
Ditas essas palavras ela segurou a mão do pescador enquanto caminhavam, e foram felizes para sempre.

Moral da história: 

Mais importante que ter bens materiais é ter um sonho. Podemos realizar nossos sonhos, mas através de nosso esforço. Nada que recebermos de forma fácil será a solução para realizar um sonho.



Os sonhos nos levam a buscar a realização deles, a trabalhar e procurar maneiras de realizá-los. E essa tarefa só compete a cada um de nós. Tudo o que é conquistado com esforço será bem merecido e trará muitas alegrias. Assim, quem tem as coisas que deseja de forma facilitada demais tenderá a não valorizar.
Também devemos evitar o descontentamento. Algumas pessoas nunca estão satisfeitas, sempre desejam o que não possuem. Essas pessoas não serão felizes, pois que cada um tem o que merece e o que lutou para conquistar.
Completar explicando que a verdadeira felicidade não depende apenas dos bens materiais, mas das conquistas espirituais que buscamos através do estudo, bons livros, boa música, boas companhias.
Fazer o bem sempre, porque recebemos de volta o que plantamos.

Dinâmica: 

distribuir as quatro carinhas para cada criança.
Sem falar, as crianças irão circular pela sala com uma carinha escolhida no rosto. Observar quais carinhas vai atrair. Depois trocar as carinhas.
Uma carinha triste pode fazer com que uma criança com a carinha feliz fique na sua frente em uma atitude de “animar” o amigo. Ou dentro do espírito do conto, atrair outra carinha triste.
Deixar as crianças livres para escolher e depois comentarem como se sentiram.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A porta. Linda poesia de Vinicius de Moraes.

Fonte da imagem:https://pixabay.com/pt/porta-apartamento-entrada-bloqueado-1013738/

Sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Não há nada no mundo

Mais viva que uma porta



Eu abro devagarinho

Pra passar o menininho

Eu abro bem com cuidado

Pra passar o namorado


Eu abro bem prazenteira

Pra passar a cozinheira

Eu abro de supetão

Pra passar o capitão


Eu fecho a frente da casa

Fecho a frente do quartel

Eu fecho tudo no mundo

Só vivo aberta no céu!


Vinicius de Moraes

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Cantigas de roda, cirandas.

Fonte da imagem:
http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=38759&picture=sapo-isolada

Sapo-cururu.

Sapo-cururu,
Na beira do rio,
Quando o sapo canta,
Oh maninha,
É que está com frio

A mulher do sapo
Deve estar lá dentro
Fazendo rendinha
Oh, maninha,
Para o casamento.





Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=89710&picture=galo


Meu galinho.

Há três noites que eu não durmo, o-lá-lá!
Pois perdi o meu galinho o-lá-lá!
Coitadinho, o-lá-lá!
Pobrezinho, o-lá-lá!
Eu perdi lá no jardim.

Ele é branco e amarelo, o-lá-lá!
Tem a crista vermelinha, o-lá-lá!
Bate as asas, o-lá-lá!
Abre o bico, o-lá-lá!
Ele faz qui-ri-qui-qui!

Já rodei em Mato Grosso, o-lá-lá!
Amazonas e Pará, o-lá-lá!
Encontrei, o-lá-lá!
Meu galinho, o-lá-lá!
No sertão do Ceará.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Alice no País das Maravilhas.Capítulo 9 - A história da falsa tartaruga.


“Você não pode imaginar como eu estou feliz em vê-la novamente, minha queridinha”, disse a Duquesa, tocando afetuosamente o braço de Alice, passando a caminhar junto com ela.
Alice ficou feliz por encontrá-la de bom humor, e pensou consigo mesma que talvez fosse a pimenta que a deixava tão selvagem como quando as duas se conheceram na cozinha.
“Quando eu for uma Duquesa”, ela disse para si mesma (não em um tom muito esperançoso), “não vou usar pimenta em minha cozinha de jeito nenhum. Sopa cai muito bem sem isso talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal-humoradas”, ela continuou bem feliz de ter descoberto um novo tipo de regra, “e o vinagre as deixa azedas... e a camomila as deixa amargas... e. e as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não seriam tão sovinas com doces, sabe...”
 Ela quase se esqueceu da Duquesa nessa hora e levou um pequeno susto quando ouviu sua voz perto dos ouvidos.
“Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e isso faz você esquecer-se de falar. Eu não posso lhe dizer agora qual é a moral disso, mas vou lembrar num instante.”
“Talvez não haja nenhuma”, Alice aventurou-se a observar.
“Ora, ora, criança!”, retrucou a Duquesa. “Tudo tem uma moral, se você encontrá-la.” E foi se apertando contra Alice enquanto falava.
Alice não gostou muito de estar tão perto dela, em primeiro lugar porque a Duquesa era muito feia, e em segundo lugar porque era do tamanho exato para apoiar o queixo sobre o ombro de Alice, e possuía um queixo muito pontudo. Entretanto, Alice não queria ser rude e por isso aguentou o quanto pôde.
“O jogo parece estar bem melhor agora”, disse para manter a conversa.
“Perfeito”, respondeu a Duquesa, “e a moral disso é... ‘Oh! é o amor, é o amor que faz o mundo girar!”
“Alguém disse”, Alice murmurou, “que ele gira quando cada um cuida dos seus próprios negócios.”
“Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa”, disse a Duquesa enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, “e a moral disso é... ‘Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de si mesmos.”
“Como ela gosta de achar uma moral em tudo!”, Alice pensou consigo mesma.
“Aposto como você está pensando porque eu não coloco meu braço na sua cintura”, a Duquesa falou, depois de uma pausa. “A razão é: tenho dúvidas em relação ao humor do seu flamingo. Posso experimentar?”
“Ele pode bicar”, Alice cautelosamente replicou não se sentindo nem um pouco a fim de que ela tentasse.
“Bem verdade”, disse a Duquesa, “flamingos e a mostarda bicam. E a moral disso é... ‘Pássaros da mesma plumagem voam juntos’.”
“Só que a mostarda não é um pássaro”, Alice observou.
“Certo. Como sempre”, disse a Duquesa, “você tem uma maneira muito clara de colocar as coisas!”
“É um mineral, eu acho”, disse Alice.
“É claro que é”, disse a Duquesa, que parecia pronta para concordar com tudo que Alice dissesse. “Há uma grande máquina de mostarda perto daqui. E a moral disso é... ‘Quanto mais tenho para mim, menos sobra para os outros’.”
“Ah! já sei!”, exclamou Alice, que não tinha prestado atenção à última observação da Duquesa. “É um vegetal. Não parece com um, mas é.”
“Eu concordo com você”, disse a Duquesa, “e a moral disso é... ‘Seja o que você parece ser’... ou, se você prefere colocar isso de um jeito mais simples... ‘Nunca se imagine diferente do que deveria parecer para os outros o que você fosse ou poderia ter sido não seja diferente do que você tendo sido poderia ter parecido para eles ser diferente’.”
“Eu acho que poderia entender melhor”, disse Alice polidamente, “se eu tivesse isso por escrito: não consigo seguir com você falando.”
“Isso não é nada em comparação com o que eu poderia dizer se quisesse”, replicou a Duquesa num tom de prazer.
“Por favor, não se dê ao trabalho de dizer isso mais complicado que já disse”, falou Alice.
“Oh, não fale em dar trabalho”, disse a Duquesa. “Dou-lhe de presente tudo o que já falei até agora.”
“Um tipo de presente bem barato!”, pensou Alice. “Fico feliz que as pessoas não costumem dar presentes de aniversário como esses!”. Mas ela não se aventurou a dizer isso em voz alta.
“Pensando novamente?”, perguntou a Duquesa, com outro cutucão do seu queixo pontudo.
“Eu tenho o direito de pensar”, disse Alice asperamente começando a se sentir aborrecida.
“Tem tanto direito”, disse a Duquesa, “quanto os porcos têm de voar, e a mo...”
Mas nesse instante, para grande surpresa de Alice, a voz da Duquesa sumiu, bem no meio da sua palavra favorita, moral, e o braço que estava grudado no seu começou a tremer. Alice olhou para cima e lá estava a Rainha diante dela, com os braços cruzados, franzindo o cenho como uma tempestade de raios e trovões.
“Um belo dia, não é, Majestade?”, a Duquesa começou, com uma vozinha débil, frágil.
“Agora, eu vou lhe dar um aviso sincero”, gritou a Rainha, batendo os pés no chão enquanto falava, “ou você ou a sua cabeça devem sair daqui, e já! Faça sua escolha!”
A duquesa fez sua escolha e sumiu no mesmo instante.
“Vamos continuar com o jogo”, a Rainha disse para Alice, e a menina estava assustada demais para dizer qualquer coisa, por isso seguiu-a lentamente em direção ao campo de críquete.
Os outros convidados tiraram vantagem com a ausência da Rainha e estavam descansando na sombra: entretanto, tão logo a avistaram correram apressados para o jogo, pois a Rainha tinha reforçado que um minuto sequer de atraso iria lhes custar a vida.
Todo o tempo em que eles estiveram jogando a Rainha não parou nem um minuto de discutir com os jogadores e gritar “Cortem a cabeça dele!”, ou “Cortem a cabeça dela!”. Aqueles que eram sentenciados ficavam sob custódia dos soldados, que, é claro, tinham que deixar seus postos de arcos do jogo para isso, daí, lá pelo final da primeira meia-hora de jogo, já não havia mais arcos e todos os jogadores, com exceção do Rei, da Rainha e de Alice estavam presos e sob sentença de execução.
Então a Rainha abandonou o jogo, quase sem fôlego e perguntou para Alice: “Você já viu a Falsa Tartaruga?”
“Não”, respondeu Alice. “Eu nem mesmo sei quem é a Falsa Tartaruga.”
“É com o que se faz a Sopa de Falsa Tartaruga”, completou a Rainha.
“Nunca vi uma, nem mesmo ouvi falar”, disse Alice.
“Venha, então”, disse a Rainha, “e eu vou lhe contar a história dela.”
Como todos caminhavam juntos, Alice ouviu o Rei dizer em voz baixa para os condenados: “Vocês estão todos perdoados.”
“Bem, isso é uma boa coisa!”, Alice disse para si mesma, pois estava se sentindo muito triste com as execuções que a Rainha ordenara.
Logo eles chegaram junto a um Grifo, que jacarezava ao sol. (Se você não sabe o que é um Grifo, olhe a figura).


“Levante-se, preguiçoso!”, disse a Rainha. “E leve esta senhorita para ver a Falsa Tartaruga e ouvir sua história. Eu preciso voltar para verificar algumas execuções que ordenei”, e afastou-se, deixando Alice sozinha com o Grifo.
Alice não gostou muito do visual da criatura, mas ela pensou que no fim das contas estaria mais a salvo ficando com ele do que seguindo com a selvagem Rainha. Pelo menos era o que esperava.
O Grifo sentou-se e esfregou os olhos, olhando a Rainha até que ela sumisse de vista. Então começou a rir por entre os dentes.
“Qual é a graça?”, perguntou Alice.
“Ela”, disse o Grifo. “Tudo é fantasia dela. Eles nunca executam ninguém, sabe. Vamos!”
“Todo mundo diz ‘vamos’ por aqui”, pensou Alice, ao mesmo tempo em que começou a segui-lo lentamente. “Eu nunca fui tão mandada em toda minha vida antes, nunca!”
Eles ainda não tinham ido muito longe, quando avistaram a Falsa Tartaruga ao longe, sentada triste e solitária sobre a pequena saliência de uma pedra e, ao chegarem mais perto, Alice pôde ouvi-la suspirar como se seu coração estivesse partido. Alice sentiu uma grande pena dela.
“Porque ela está triste?”, perguntou ao Grifo. E o Grifo respondeu com quase as mesmas palavras que dissera em relação à Rainha: “É tudo fantasia dela, ela não tem pelo que entristecer, sabe. Vamos!”
Eles foram então na direção da Falsa Tartaruga, que olhou para eles com seus grandes olhos cheios de lágrimas, mas não disse nada.
“Esta jovem”, disse o Grifo, “quer saber sua história, quer sim.”
“Eu vou lhe contar”, disse a Tartaruga, com uma voz profunda, cavernosa. “Sentem-se os dois, e não digam nenhuma palavra até eu terminar.”
Então eles sentaram-se e ninguém falou nada por alguns minutos.
Alice pensou consigo mesma. “Eu não sei como ela pode terminar se nem mesmo começa.”
Mas esperou pacientemente.


“Uma vez”, disse a Falsa Tartaruga afinal, com um suspiro profundo. “Eu era uma Tartaruga de verdade!”
Estas palavras foram seguidas de um grande silêncio, quebrado apenas por uma ocasional exclamação “Hjckrrh!”, vindo do Grifo e os constantes e fortes soluços da Falsa Tartaruga. Alice já estava a ponto de levantar e dizer “Obrigada, Senhora, pela sua interessante história”, mas ela não podia deixar de pensar que deveria haver mais algo a ser dito e então ficou sentada e não disse nada.
“Quando nós éramos pequenos”, a Falsa Tartaruga continuou afinal, mais calmamente, embora ainda soluçando um pouquinho, íamos para a escola no mar. O professor era uma velha Tartaruga. Nós costumávamos chamá-la Tartenruga****.
“E por que chamá-la de Tartenruga se ela era uma Tartaruga?”, perguntou Alice.
“Nós a chamávamos assim porque tinha rugas”, a Falsa Tartaruga respondeu com irritação. “Você é mesmo muito tonta!”
“Você deveria envergonhar-se de fazer uma pergunta tão boba”, completou o Grifo, e então os dois sentaram-se e ficaram em silêncio olhando para a pobre Alice, que se sentiu a ponto de enfiar a cabeça no chão de vergonha. Finalmente o Grifo disse para a Falsa Tartaruga:
“Vai em frente, velha amiga! Não vamos ficar aqui o dia inteiro!”.
Ela então prosseguiu:
“Sim, nós íamos para a escola no mar... mas parece que você não acredita mesmo...”
“Eu não disse nada!”, interrompeu Alice.
“Disse sim!”, retrucou a Falsa Tartaruga.
“Segure sua língua”, completou o Grifo, antes que Alice pudesse retrucar. A Falsa Tartaruga continuou:
“Nós tivemos a melhor educação... na verdade, nós íamos à escola diariamente...”
“Eu também ia à escola todos os dias”, falou Alice, “você não tem porque ficar orgulhosa disso.”
“Com aulas extras?”, perguntou a Falsa Tartaruga um pouco ansiosa.
“Sim”, respondeu Alice, “nós aprendíamos Francês e música.”
“E lavagem?”, mais uma vez perguntou a Falsa Tartaruga.
“É claro que não”, disse Alice indignadamente.
“Ah! Então a sua escola não era realmente boa”, acrescentou a Falsa Tartaruga em um tom de grande alívio. “Agora, na nossa tinha, afinal, ‘Francês, música e lavagem’... extra.”
“Vocês não precisavam muito disso”, retomou Alice, “vivendo no meio do mar.”
“Eu não tinha recursos para pagá-los”, insistiu a Falsa Tartaruga com um suspiro. “Eu só frequentava os cursos regulares.”
“E quais eram?” indagou a menina.
“Enrolação e Contorção, é claro, para começar”, a Falsa Tartaruga replicou, “e depois os diferentes ramos da Aritmética: Ambição, Distração, Enfeiação e Derrisão.”
“Eu nunca ouvi falar em ‘Enfeiação’”, Alice atreveu-se a dizer. “O que é isso?”
O Grifo levantou as patas em sinal de surpresa. “Nunca ouviu falar em ‘Enfeiação’!”, exclamou, “Você sabe o que é embelezamento, acredito eu!”
“Sim”, respondeu Alice sem muita certeza, “significa... fazer... alguma coisa... mais bonita...”
“Bem, então”, o Grifo continuou, “se você não sabe o que é enfeiação, você é muito boba mesmo.”
Alice não teve coragem de perguntar mais nada sobre o assunto. Virou-se então para a Falsa Tartaruga e disse:
“O que mais você aprendeu?”
“Bem, havia Mistério”, e a Falsa Tartaruga começou a enumerar as matérias nas patas. “Mistério antigo e moderno, com Marografia: também Arrastamento... o professor de Arrastamento era um velho congro, que vinha uma vez por semana. Ele nos ensinava Arrastamento, Esticamento e ainda Desmaios em Bobinas.”
“E como é isso?”, disse Alice.
“Bem, eu não vou poder mostrar para você”, completou a Falsa Tartaruga. “Ando meio fora de forma. E o Grifo não aprendeu isso.”
“Não tive tempo”, disse o Grifo. “Eu estudei com o mestre das Clássicas. Ele era um velho caranguejo, se era.”
“Nunca tive aulas com ele”, retomou a Falsa Tartaruga com um suspiro. “Ele ensinava Risando e Desgosto, dizem.”
“É isso mesmo, isso mesmo” disse o Grifo, suspirando também. Os dois esconderam as caras nas patas.


“E quantas horas vocês estudavam por dia?”, perguntou Alice, apressando-se em mudar de assunto.
“Dez horas no primeiro dia”, respondeu a Falsa Tartaruga, “nove no segundo e assim por diante.”
“Que coisa estranha!”, exclamou Alice.
“É por isso que chamávamos as aulas de lições (lessons)”, o Grifo explicou, “porque elas diminuíam (lessen) cada dia.”
Aquela era uma ideia nova para Alice, e ela parou para pensar um pouco antes da sua próxima observação. “Então o décimo-primeiro dia tinha que ser feriado?”
“Claro que era”, respondeu a Falsa Tartaruga.
“E como era no décimo-segundo?”, perguntou com vivacidade Alice.

“Chega de lições”, o Grifo interrompeu em um tom decidido. “Conte a ela sobre os jogos agora.”

Alice no País das Maravilhas.
Lewis Carroll.

Ilustrações de John Tenniel.