quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Passarinho no Sapé.

Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=78798&picture=passarinho

P tem papo
o P tem pé.
É o P que pia?
(Piu!)
Quem é?
O P não pia:
O P não é.
O P só tem papo
e pé.
Será o sapo?
O sapo não é.
(Piu!)
É o passarinho
que fez seu ninho
no sapé.
Pio com papo.
Pio com pé.
Piu-piu-piu:
Passarinho.
Passarinho
no sapé.


Cecília Meireles.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As mil e uma noites. ALI BABÁ E OS QUARENTA LADRÕES.

Fonte da imagem:https://pixabay.com/pt/cavalo-sombra-terra-homem-no-cavalo-935073/

Numa distante cidade do Oriente, vivia um homem bom e justo, chamado Ali Babá.
Ali Babá era muito pobre. Morava numa tenda, entre um vasto deserto e um grande oásis.
Para sustentar a mulher, Samira, e os quatro filhos, Ali Babá oferecia seus serviços às caravanas de mercadores
que passavam por ali. Estava sempre pronto para cuidar dos camelos, lavá-los, escová-los e dar-lhes água e alimento.
Os ricos comerciantes já conheciam Ali Babá e gostavam muito de seu serviço. Ele sempre cobrava o preço justo pelo trabalho, porém, muitas vezes, os mercadores davam-lhe mais, pois sabiam que ele vivia em dificuldades.
— Aqui estão dez moedas de prata para você, Ali Babá.
E obrigado por ter cuidado tão bem dos meus camelos.
— Mas, senhor, são só cinco moedas que costumo cobrar — respondia honestamente Ali Baba.
— Sim, eu sei, meu bom homem. Mas quero gratificá-lo.
— Obrigado, patrão, agradeço em nome dos meus filhos.
Samira, em casa, também trabalhava muito. Além de cuidar dos filhos e das tarefas do lar, remendava a tenda, que já era velha, e cuidava de uma horta, plantando tudo que podia, preocupada em economizar.
— Veja, Samira! Veja, minha mulher! Hoje os homens da caravana foram generosos. Deram-me dez moedas!
— Graças a Alá! Agora poderemos comprar uma túnica nova para Ben e outra para Ornar. Eles têm passado frio.
— Sim, Samira, amanhã mesmo vou fazer isso. A caravana vai embora ainda hoje, e até o mês que vem não terei mais trabalho...
Era difícil a vida de Ali Babá! As caravanas não eram constantes e havia épocas em que, devido às tempestades de areia no deserto, os mercadores levavam dois ou três meses para passar por ali.
Para que sua mulher e seus filhos não passassem necessidades, Ali Babá procurava fazer outros trabalhos. Com eles garantia pelo menos a compra de leite, pão, azeite e alguma carne.
Assim, quando não havia caravanas, Ali Babá entrava
numa floresta que fazia parte do oásis, entre o deserto e a cidade. Lá ele colhia tâmaras e damascos, colocava-os em cestos e depois ia vendê-los no grande bazar da cidade.
"Que bom! Hoje consegui apanhar meio cesto de frutas. Mas já é tarde. Não consigo mais enxergar. Amanhã mando meu filho Anuar ir vendê-las na cidade e volto aqui para pegar mais. Vou ver se encho dois cestos", pensou Ali Babá.
No dia seguinte, bem cedinho, lá se foi Ali Babá com seus cestos vazios, disposto a enchê-los de tâmaras e damascos.
Estava no alto de uma tamareira quando ouviu um rumoroso tropel de cavalos "Muito estranho, esse barulho de patas de cavalos", refletiu. "Sempre vejo passarem camelos por aqui". O ruído, cada vez mais forte, indicava que os cavaleiros estavam se aproximando.
Ali Babá continuava curioso. "Quem será que vem chegando? Parecem muitos... E para onde será que vão?
Entrar no deserto a cavalo é impossível! Esses animais não aguentariam o calor!".
Não demorou muito, Ali Babá avistou os cavaleiros.
Eram, de fato, muitos. Do alto da tamareira, o bom homem contou exatamente quarenta.
"Puxa! Eles parecem estar com pressa... E estão bem
carregados. Todos os cavalos levam arcas, cofres e sacos...
Devem ser mercadores da cidade. Bem, vou tratar do meu trabalho, pois o dia passa depressa."
Mais ou menos uma hora depois, os homens voltaram com seus cavalos ruidosos.
Ali Babá, que arrumava seus cestos, tratou de se esconder, com medo de que o vissem. Afinal, não conhecia aqueles homens, nem sabia exatamente o que faziam.
"Lá vão eles. Não são mesmo homens do deserto. Estão
voltando para o lado da cidade. O mais curioso é que já
descarregaram os cavalos. Onde terá ficado toda aquela
bagagem?"
Os cavaleiros logo sumiram por entre a mata, pois os cavalos, agora aliviados da carga, corriam muito mais.
O dia passou. Ali Babá, contente com seus cestos de frutas, foi para casa descansar.
— Pai, consegui vender todas as tâmaras no bazar. Pena que Ben, Ornar e Hassan não foram comigo. Teríamos nos
espalhado por lá, cada um com um cesto, e vendido as frutas mais depressa.
— Então, amanhã vão os quatro. Hoje eu trouxe muito
mais do que ontem. Vejam se conseguem vender tudo.
Enquanto forem ao bazar, irei outra vez para a floresta e
pegarei mais frutas.
— Está bem, papai.
Na manhã seguinte, lá se foi novamente Ali Babá. Que calor fazia! Ele nem se lembrava mais dos homens a cavalo que vira na véspera. Tanto se esquecera, que nem comentara o fato com Samira.
AU Babá começou logo a apanhar suas frutas. Por volta do meio-dia, já cansado, se sentou à sombra de uma palmeira, para comer o lanche.
De repente, ouviu ao longe o mesmo barulho da véspera. Apurou o ouvido e teve certeza: eram cavalos que se aproximavam. Seriam os mesmos homens do dia anterior?
Se fossem, estavam passando um pouco mais tarde.
Quando Ah Baba percebeu que o tropel estava próximo, subiu rapidamente na palmeira e constatou: eram os mesmos quarenta homens. Para onde iriam?
"Hoje vou atrás deles. Quero ver para onde vão. Não
devem ir muito longe daqui... Estão carregados outra vez."
Ali Babá teve sorte. Enquanto descia da palmeira para tomar a estrada e seguir o rastro dos cavalos, o chefe dos
cavaleiros resolveu parar, para os animais beberem água.
Quando Ali Babá chegou, os homens estavam começando a se levantar para continuar o caminho.
"Agora posso vê-los de perto?, pensou Ali Babá. “Que gente esquisita”... São tão mal-encarados... E todos armados com facas e cimitarras..."
— Vamos, vamos! Chega de folga! Temos de descarregar tudo isso que roubamos hoje e voltar logo para a cidade. Amanhã é outro dia! — disse o chefe.
"Por Alá! Eles são ladrões!" concluiu Ali Babá. "Que perigo! Se me descobrirem, certamente me matarão. Estão armados até os dentes! Mas, agora que já estou aqui, vou continuar atrás deles. Quero ver para onde vão."
Refeitos, os cavalos puseram-se a galopar, Ali Babá
teve de correr muito, para não perdê-los de vista. Conseguiu chegar ao lugar em que haviam parado e viu que somente o chefe descera do cavalo.
Era uma clareira na floresta, no fundo da qual havia uma pedreira, não muito alta.
Os trinta e nove ladrões continuavam montados, dispostos em semicírculo, voltados de frente para a pedreira.
O chefe, em pé, segurando as rédeas do cavalo, ficou bem no meio. Com ar solene, deu uma ordem:
— Abre-te, Sésamo!
Ali Babá não conseguia entender o que estava acontecendo. Por que os ladrões estavam ali, num lugar deserto, onde não havia nada e ninguém? Por que ficavam dispostos daquela maneira? E que significado tinha aquela frase que o chefe falara?
Ele esperou apenas alguns segundos, para obter as respostas a todas essas perguntas. Logo depois da ordem dada pelo chefe, uma grande rocha da pedreira se moveu, abrindo a entrada de uma gruta. Os quarenta ladrões entraram em fila e, atrás do último, a pedreira se fechou.
"Não acredito no que estou vendo... Agora compreendo tudo! Eles devem guardar os objetos roubados dentro dessa gruta que se abre e se fecha. Por isso, ontem, os
cavalos voltaram descarregados. Vou ficar escondido atrás desta árvore. Eles terão de sair daí de dentro, pois acho que voltarão à cidade", decidiu Ali Babá.
E esperou, esperou, esperou, até que ouviu o barulho
da pedra se movendo.
"Ai vem eles!", agitou-se Ali Babá. "Já devem estar de saída. Vou prestar atenção para ver como fazem para fechar a entrada da gruta."
Os ladrões saíram em fila. Dessa vez, o último foi o chefe.
— Bem, já estão todos prontos? Então, vamos!
E, voltando-se para a grande pedra, falou:
— Fecha-te Sésamo!
A pedra rolou direitinho, fechando a entrada do esconderijo. Os ladrões pegaram a mesma picada e,
rapidamente, com seus cavalos a galope, desapareceram entre as árvores da floresta.
Ali Babá esperou assentar a poeira levantada pelos animais e saiu de trás da árvore.
"Agora, vou entrar lá. Direi as mesmas palavras do chefe dos ladrões. Sésamo deve ser o nome dessa pedreira.
Será que ela me obedecerá, ou será que só atende às ordens dele? Bem, vou experimentar. Vamos ver o que acontece!"
Colocando-se na mesma posição do ladrão, arriscou:
— Abre-te, Sésamo!
A grande pedra rolou, abrindo a entrada da gruta. Ali
Babá entrou imediatamente e ficou maravilhado com o tesouro que lá havia.
"Que beleza! Quanto ouro! Quantas pedras preciosas!
Quantas moedas! E pensar que há tanta gente pobre, passando necessidades, sem casa, sem roupa, sem comida. De quem será que eles roubam tanta riqueza? Deve ser das caravanas."
Ali Babá deu uma volta por dentro da gruta, que era iluminada por tochas.
Quando já estava de saída, lembrou-se de que tinha preso na cintura, o saquinho de pano, onde trouxera uns
pedaços de pão para o almoço.
E se eu levasse algumas dessas moedas de ouro em
meu saquinho? Acho que os ladrões nem perceberiam. Eles têm tanto... Mas isto seria um roubo. Eu seria um ladrão, roubando ladrões."
Depois, pensando na vida difícil da mulher e dos filhos,
encheu seu saquinho com pesadas moedas de ouro e foi
embora. Na saída, repetiu as palavras mágicas:
— Fecha-te, Sésamo!
Ali Babá voltou ao lugar onde estivera colhendo frutas, pegou os cestos e foi para casa. No caminho, pensava nas
moedas. Que iria fazer com elas?
Onde poderia guardá-las? Quando nada possuía, não tinha medo de ser roubado. Agora, de posse das moedas, já começava a temer os assaltantes.
"Acho que vou conversar com meu irmão Ali Mansur.
Ele é rico... Saberá me dizer o que posso fazer com as
moedas..."
Ali Mansur, o único irmão de Ali Babá, era um rico
comerciante de tapetes. Sua loja era a maior e a melhor da cidade.
Mas Ali Mansur era um homem mesquinho e ambicioso. Quanto mais tinha, mais queria. E nunca ajudava o pobre irmão, nem seus filhos.
Ali Babá chegou a casa, jantou e disse a Samira que ia visitar o irmão.
Ao ouvir a história da gruta que se abria Ali Mansur pensou que o irmão estivesse brincando. Depois, como Ali Babá insistisse, começou a achar que ele estava com febre.
Só acreditou em tudo aquilo quando o irmão lhe mostrou o saquinho com as moedas de ouro. Os olhos de Ali Mansur reluziam de cobiça, avaliando o peso de cada uma.
— Ali Babá, diga-me exatamente onde é esse lugar e o que se deve dizer para abrir e fechar a pedra. Amanhã vou até lá!
— Não, Mansur, não vá. É perigoso. Os ladrões podem
Aparecer a qualquer momento. Nunca mais ponho meus pés naquele lugar horrível. Já estou arrependido por ter tirado essas moedas. Dinheiro que não vem do trabalho não é honesto.
— Deixe de ser bobo Ali Babá. Se não quiser as moedas, deixe-as comigo. Sei muito bem como e onde usá-las.
Ali Babá foi para casa. Naquela noite nem conseguiu dormir, tamanha era sua preocupação.
— Que aconteceu Ali Babá? Por que está tão nervoso?
— perguntou Samira, percebendo a apreensão do marido.
O bom homem contou tudo à mulher, inclusive a
conversa que tivera com o irmão. Samira então lhe respondeu:
— Ora, meu marido, você não seria desonesto pegando
um pouquinho daquela fortuna. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão...
Na manhã seguinte, bem cedo, Ali Mansur saiu de sua
rica casa, com dez mulas e vinte cestos, e tomou o caminho da pedreira. Lá chegando, ordenou que a gruta se abrisse e entrou.
"Que maravilha! Vou encher os vinte cestos com joias, ouro, pedras e moedas. Amanhã virei buscar mais!"
Como Ali Mansur estava sozinho, demorou muito para
carregar as mulas. Demorou tanto, que os ladrões chegaram e...
— Fomos descobertos! A porta de Sésamo está aberta.
Saquem as espadas! — gritou o chefe dos ladrões.
E eles não perdoaram o ambicioso homem, que foi morto com vários golpes.
Os ladrões descarregaram seus cavalos, mas, como já era tarde, nem retiraram os cestos dos lombos das mulas de
Ali Mansur, trancando-as dentro da pedreira.
Quando anoiteceu, a cunhada de Ali Babá foi a casa dele.
Estava muito preocupada com o marido, que saíra cedo e ainda não voltara.
— Amanhã vou procurá-lo, Salima, não se preocupe — disse Ali Babá, pois já sabia para onde seu irmão tinha ido.
No dia seguinte, Ali Babá nem levou seus cestos para colher tâmaras e damascos. Foi diretamente procurar o irmão em Sésamo, pois Mansur nunca jogaria fora uma oportunidade para ficar mais rico.
— Abre-te Sésamo! — ordenou Ali Babá.
Dentro da pedreira, o bom homem chorou ao encontrar
o irmão morto, todo ensanguentado. Vendo as mulas
carregadas de riquezas, Ali Babá logo percebeu o que havia acontecido. Arrastou o corpo do irmão para fora, enterrou-o na floresta e voltou a Sésamo para pegar as mulas e entrega-las a Salima.
Estava começando a aliviá-las dos cestos cheios de
riquezas quando se lembrou das palavras de sua mulher:
"Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão...".
"Sou tão pobre...", pensou. "Nem casa tenho. Meus filhos e minha mulher não têm roupas para se agasalhar. Há
dias em que não temos o que comer... Acho que Alá me
“perdoaria, se eu levasse apenas dois destes cestos que meu irmão encheu...”
Assim pensando, Ah Baba saiu de Sésamo com dez mulas, dezoito cestos vazios e dois cheios. À tarde, quando os ladrões voltaram à pedreira, perceberam tudo.
— Alguém mais conhece nosso segredo, companheiros!
— disse o chefe. — Estiveram aqui, levaram o homem morto, as mulas e ainda pegaram algumas das nossas joias e moedas.
Pois, a partir de hoje, fiquem de olho! Quero vingança! Logo vamos notar se alguém ficou rico de uma hora para outra. E muito fácil identificar os novos ricos...
Um mês depois, Ali Babá comprou uma casa na cidade, dois belos cavalos, pôs os filhos na escola e adquiriu móveis, roupas e utensílios novos. Em sua casa não faltava mais comida e, uma vez por semana, ele distribuía pão e leite para os pobres.
Um dos ladrões, encarregado de fiscalizar a vida dos moradores daquele lado da cidade, percebeu a generosidade de Ali Babá e perguntou a um vizinho:
— De onde veio esse homem tão bom?
— Ah, chama-se Ali Babá. Era um pobre coitado que cuidava dos camelos das caravanas e vendia frutas no bazar.
De repente, apareceu com moedas de ouro, colares de
esmeraldas e pulseiras de rubi. Ele vendeu as joias e comprou a casa, os cavalos, as roupas, tudo! Ninguém sabe onde arranjou tanta riqueza. Acho que ganhou de algum mercador, por ser muito honesto...
O ladrão correu para seu chefe e disse:
— Achei o homem! Chama-se Ali Babá! Agora o senhor poderá se vingar.
No dia seguinte, o chefe dos ladrões se disfarçou de
mercador preparou vinte mulas, cada uma carregando dois enormes jarros de barro, e foi bater na casa de Ali Babá.
— Boa tarde, meu bom homem. Sou um mercador de
azeite. Acabei de atravessar o deserto. Será que posso
descansar um pouco em sua casa com minhas mulas?
— Sim, entre, por favor — disse Ali Babá — Deixe as
mulas no pátio para tomarem água.
— Obrigado. Vou descarregá-las para que descansem até amanhã. Tenho de levar todo o azeite que está nestes
quarenta jarros até a cidade de Bagdá, que é bem longe daqui.
— Amanhã o senhor pensará nisso. Agora, venha.
Quero que tome um banho e jante com minha família, antes de dormir.
Ali Babá pediu para Samira preparar carne com azeitonas e salada com trigo para o visitante. Apresentou-lhe seus quatro filhos e ficaram conversando animadamente.
Na cozinha, Samira percebeu que não tinha mais azeite para temperar a salada.
— Anuar, venha cá! — chamou a mulher. — Vá comprar
azeite.
— Mas, mãe, agora é tarde. Já está tudo fechado.
— Por Alá! E o que vou fazer? Com que vou temperar a salada para o mercador?
— Ora, mãe, ele não está carregando azeite naqueles jarros enormes? Pois é muito fácil: desça até o pátio e pegue um pouquinho.
— Bem, não há outro jeito. E o que vou fazer.
Samira desceu até ao pátio de sua casa. As mulas já
estavam todas recolhidas ao estábulo. Os quarenta jarros
permaneciam no meio da área, iluminados por uma grande lua cheia.
Ao chegar perto de um deles, Samira ficou estupefata.
Uma voz, vinda de dentro do jarro, perguntou:
— Já está na hora de matarmos Ali Babá e sua família?
Samira não sabia o que fazer. Se se afastasse
bruscamente, poderia levantar suspeitas. Chegou então perto do outro jarro, esperando nova pergunta, mas nada!
Tudo ficou em silêncio. O segundo jarro estava mesmo cheio de azeite. Então, a conclusão de Samira foi rápida: ela sabia que os ladrões de Sésamo eram quarenta. Ora, em trinta e nove daqueles quarenta jarros enormes havia homens escondidos e apenas um deles continha azeite. E o visitante que estava dentro de sua casa era, sem dúvida, o chefe dos ladrões. Ele trouxera azeite num dos jarros porque, se alguém lhe pedisse, ele poderia provar que era um mercador.
Samira saiu de casa na mesma hora e foi chamar os guardas do palácio do sultão, que não ficava muito longe dali.
Depois, voltou depressa para casa, foi à cozinha e preparou um sonífero perfumado, à base de ervas do oásis.
Em seguida, desceu novamente ao pátio e despejou um pouco do sonífero em cada um dos trinta e nove jarros.
Quando terminou, viu que os guardas já haviam chegado. Mandou-os entrar e ficar aguardando do lado de fora da sala, onde Ali Babá conversava com o chefe dos ladrões.
Esperou mais alguns minutos e, ao ter certeza de que todos os ladrões dormiam profundamente dentro dos jarros, entrou na sala e disse:
— Ali Babá ! Tenha cuidado! Este homem é o chefe dos ladrões de Sésamo!
— Mas... mas — balbuciou o marido, incrédulo.
— Sim, sou eu! — disse o ladrão. E, tirando um punhal da cintura acrescentou:
— Agora, vocês vão morrer!
Nesse momento, os guardas entraram na sala, desarmaram e prenderam o homem.
Enquanto descia, já preso, o chefe dos ladrões viu todos os seus companheiros amarrados e amontoados no chão,
dormindo que dava gosto.
Ali Babá e Samira foram ao palácio do sultão e contaram toda a história de Sésamo, pedindo a ele que distribuísse aquela riqueza aos pobres da cidade.
O sultão concordou com o casal, mas fez questão dedar a Ali Babá um terço de tudo que havia dentro da pedreira.
Assim, graças à bondade de Ali Babá e à inteligência de Samira, nunca mais houve pobres naquela cidade.

(Versão de Suely M. Brazão)

Livro do aluno volume II – Domínio Público. 

sábado, 20 de agosto de 2016

As Mãos, os Pés, o Estômago e o Corpo. Linda fábula de Esopo.

Fonte:https://pixabay.com/pt/crian%C3%A7as-brincando-mar-azul-areia-993534/

Certo dia, as Mãos e os Pés, trocando ideias, começaram a se queixar das outras partes do corpo.
No final da conversa, chegaram à conclusão que trabalhavam a vida inteira, custeando o Corpo e que tudo era mais em proveito do Estômago, que comia sem trabalho. Portanto, o Estômago que procurasse o seu sustento, porque as Mãos e os Pés não iriam mais dar-lhe de comer. O Estômago pediu muito, mas disseram que haviam tomado uma decisão. Assim, começaram a lhe negar comida, o que foi enfraquecendo-o e, com isso, o Corpo inteiro.
Sentindo as Mãos e os Pés se enfraquecerem, começaram novamente a querer alimentar o Estômago, mas como a fraqueza fosse muita, nada lhes valeu, morrendo todos juntos.

Esopo. Domínio Público.


Moral da história: 

Assim como no corpo todos os órgãos dependem uns dos outros, na vida também precisamos agir como uma equipe para que todos sejam favorecidos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Ou isso ou aquilo. Linda poesia de Cecília Meireles.

Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=34760&picture=menina-com-guarda-chuva

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.




Cecília Meireles

domingo, 7 de agosto de 2016

Alice no País das Maravilhas. Capítulo 11 - Quem roubou as tortas?

O Rei e a Rainha de Copas estavam sentados em seus tronos quando eles chegaram, com uma multidão em volta... todo tipo de pequenos pássaros e animais além de todas as cartas do baralho: o Valete estava parado na frente deles, acorrentado, com um soldado em cada lado o guardando; e perto do Rei estava o Coelho Branco, com uma trombeta em uma mão e um pergaminho na outra. Bem no meio da corte havia uma mesa, com um grande prato de tortas sobre ela: elas pareciam tão deliciosas que Alice ficou com fome só de olhá-las e pensou “Tomara que o julgamento termine logo e eles sirvam o lanche!”. Mas parecia que a coisa não tinha chance e então, para passar o tempo, ela começou a olhar para tudo em volta.
Alice nunca estivera numa corte de justiça antes, mas já tinha lido sobre elas nos livros e estava satisfeita por perceber que sabia o nome de quase tudo em volta. “Aquele é o juiz”, ela disse para si mesma, “por causa da sua grande peruca.”
O juiz, aliás, era o Rei, que vestia a coroa sobre a peruca (vejam o frontispício do livro, se vocês quiserem ver como ele fazia isso). Ele não parecia muito confortável e com certeza não estava muito charmoso também.
“E aquele é o lugar destinado aos jurados”, pensou Alice, “e aquelas doze criaturas” (ela foi obrigada a pensar “criaturas”, sabe, porque algumas eram animais e outras eram pássaros), “suponho que sejam os jurados”. Ela repetiu a última palavra duas ou três vezes para si mesma, bastante orgulhosa disso: pois pensava, com razão, que muito poucas meninas da sua idade sabiam o significado dessa palavra. Entretanto se ela tivesse dito “membros do júri” também estaria certa.
Os doze jurados estavam escrevendo muito ocupados em suas lousas.
“O que eles estão fazendo?”, Alice sussurrou para o Grifo. “Eles não tem nada para escrever ali, antes de o julgamento começar.”
“Eles estão colocando seus nomes”, o Grifo sussurrou em resposta, “pois estão com medo de esquecê-los antes de o julgamento terminar.”
“Que estúpidos!”, Alice começou a falar de alto e bom som, mas logo parou, pois o Coelho Branco gritou “Silêncio na corte!” e o Rei colocou seus óculos para olhar ansiosamente em volta, procurando quem estava falando.
Alice podia ver, tão bem como se estivesse olhando por cima dos ombros, que todos os jurados tinham escrito “Que estúpidos!” em suas lousas e pôde ver também que um deles estava em dúvida sobre a grafia correta de “estúpidos” e tinha pedido para seu vizinho dizer para ele. “Uma bela bagunça vão estar as lousas até o final do julgamento!”, Alice pensou consigo mesma.
Um dos jurados tinha um giz que rangia. Isso é claro, Alice não aguentava, e então ela deu a volta na corte até chegar atrás dele e na primeira oportunidade arrancou-lhe o giz. Alice fez isso tão rápido que o pobre pequeno jurado (era Bill o Lagarto) não pôde perceber o que tinha acontecido: então, depois de procurar por toda parte ele foi obrigado a escrever com o dedo o resto do dia. É claro que não adiantava nada, pois não deixava marca nenhuma na lousa.
“Arauto, leia a acusação!”, ordenou o Rei.


Nesse momento, o Coelho Branco assoprou três vezes a trombeta e a seguir desenrolou o pergaminho, lendo o que se segue:
“A Rainha de Copas fez algumas tortas,
Em um dia de verão:
O Valete de Copas roubou todas elas,
E levou embora sem hesitação.”
“Pensem no veredito”, disse o Rei para o júri.
“Ainda não, ainda não!”, o Coelho interrompeu com pressa. “Há muito que fazer antes disso!”
“Chame a primeira testemunha”, o Rei disse, e o Coelho Branco assoprou três vezes sua trombeta, chamando a seguir:
“Primeira testemunha!”

A primeira testemunha era o Chapeleiro. Ele chegou com uma xícara de chá em uma das mãos e um pedaço de pão com manteiga na outra.
“Eu peço-lhe desculpas sua Majestade”, ele começou, “por trazer estas coisas, mas eu ainda não tinha terminado meu chá quando fui chamado.”
“Você deveria ter terminado”, disse o Rei. “Quando você começou?”
O Chapeleiro olhou para a Lebre de Março, que o tinha seguido até à corte de braços dados com o Leirão.
“Catorze de março, eu acho que era”, ele respondeu.
“Quinze”, disse a Lebre de Março.
“Dezesseis”, disse o Leirão.
“Escrevam isso” o Rei disse para o júri; e os jurados apressaram-se em escrever as três datas em suas lousas, somando-as e chegando a uma conta maluca que incluía valores em dinheiro.
“Tire seu chapéu”, o Rei ordenou ao Chapeleiro.
“Não é meu”, respondeu o Chapeleiro.
“Roubado!”, o Rei exclamou, virando-se para o júri, que no mesmo instante anotaram o fato.
“Eu os tenho para vender”, o Chapeleiro continuou com sua explicação. “Nenhum deles é meu. Eu sou um chapeleiro.”
Nesse instante a Rainha colocou seus óculos e começou a encarar o Chapeleiro, que empalideceu e inquietou-se.
“Faça seu depoimento”, disse o Rei, “e não fique nervoso, ou eu mandarei executá-lo imediatamente.”
Essa frase parece que não encorajou a testemunha, que começou a ficar sobre apenas um pé, alternando, olhando inquietamente para a Rainha. Na confusão acabou mordendo um pedaço da sua xícara de chá ao invés de morder seu pão com manteiga.
Exatamente nessa hora Alice teve uma curiosa sensação, que a perturbou bastante até que ela percebesse o que se estava passando: Alice estava começando a crescer novamente. No início ela achou que deveria levantar-se e deixar a corte, mas depois decidiu ficar enquanto houvesse espaço para ela.
“Eu queria que você não me espremesse tanto”, disse o Leirão, que estava sentado ao seu lado. “Eu quase não consigo respirar.”
“Eu não posso ajudá-lo. Eu estou crescendo.”
“Você não tem o direito de crescer aqui”, disse o Leirão.
“Não fale bobagens”, respondeu Alice destemidamente, “você sabe que você está crescendo também.”
“Sim, mas eu estou crescendo em uma velocidade razoável”, retrucou o Leirão, “e não desse jeito ridículo.” A seguir ele levantou-se com irritação e atravessou a sala até chegar do outro lado da corte.
Todo o tempo a Rainha não tirou os olhos do Chapeleiro e, no instante que o Leirão atravessou a corte, ela ordenou a um dos oficiais da corte: “Tragam-me a lista dos cantores no último concerto!”. O coitado do Chapeleiro começou a tremer tanto que seus sapatos escorregaram dos pés.
“Dê seu depoimento”, o Rei repetiu muito bravo, “ou você será decapitado, esteja você nervoso ou não.”
“Eu sou um homem pobre, Majestade”, o Chapeleiro começou com uma voz trêmula, “e eu nem bem tinha começado a tomar meu chá... há mais ou menos uma semana... e como a fatia de pão estava ficando tão fina... e a cintilação do chá...”
“A cintilação do quê?”, perguntou o Rei.
“Ela começa com C”, o Chapeleiro retrucou.
“É lógico que cintilação começa com C”, disse o Rei agudamente. “Você acha que eu sou burro? Vá em frente!”
“Eu sou um homem pobre”, o Chapeleiro continuou, “e quase tudo começou a cintilar depois que... e a Lebre de Março disse...”
“Eu não disse nada”, a Lebre de Março interrompeu rapidamente.
“Disse”, replicou o Chapeleiro.
“Eu nego isso!”, disse a Lebre de Março.
“Ela nega”, disse o Rei. “Deixemos o tema de lado.”
“Bem, de qualquer maneira, o Leirão disse...”, e o Chapeleiro continuou, olhando ansiosamente ao redor para ver se ele iria negar também; mas o Leirão não negou nada, já que dormia a sono solto.
“Depois disso”, continuou o Chapeleiro, “eu cortei algumas fatias de pão...”
“Mas o que o Leirão disse?”, um dos jurados perguntou.
“Isso eu não lembro”, disse o Chapeleiro.
“Você precisa lembrar”, observou o Rei, “ou você será executado.”
O coitado do Chapeleiro derrubou sua xícara de chá e o pão com manteiga e colocou-se de joelhos.
“Eu sou um homem pobre, Majestade”, ele começou.
“Você é um muito pobre orador”, disse o Rei.
Nesse instante um dos porcos-da-índia começou a aplaudir, mas imediatamente foi abafado pelos oficiais da corte. (Como essa palavra abafar pode ser difícil para alguns, eu vou explicar como eles fizeram a coisa. Eles tinham um grande saco de lona, com a boca que fechava com cordões: eles enfiaram lá dentro o porco-da-índia, de cabeça para baixo e depois sentaram sobre ele).
“Eu estou muito feliz de ver como eles fazem isso”, pensou Alice. “Já tinha lido tantas vezes no jornal, que no fim dos julgamentos... Houve uma tentativa de aplauso, que foi imediatamente abafada pelos oficiais da corte... e nunca tinha entendido direito o que isso significava.”
“Se isso é tudo o que você sabe a respeito do caso, pode descer”, continuou o Rei.
“Eu não posso descer mais”, disse o Chapeleiro. “Eu já estou no chão, como o senhor pode ver.”
“Então pode sentar-se”, replicou o Rei.
Outro porco-da-índia começou a aplaudir e também foi abafado.
“Bem, com isso se acabam os porcos-da-índia”, pensou Alice. “Vamos ver se agora melhora.”
“Eu preferia terminar meu chá.”, disse o Chapeleiro, olhando ansiosamente para a Rainha, que estava lendo a lista dos cantores.
“Você pode ir embora”, disse o Rei. 


E o Chapeleiro deixou a corte apressadamente, sem nem mesmo esperar para calçar seus sapatos.
“... e cortem-lhe a cabeça lá fora”, a Rainha complementou para um dos oficiais; mas o chapeleiro já sumira de vista antes que o oficial chegasse até à porta.
“Chamem a próxima testemunha!”, ordenou o Rei.
A próxima testemunha era a cozinheira da Duquesa. Ela trazia a pimenteira na mão, e Alice adivinhou quem era antes mesmo dela entrar na corte, pois as pessoas perto da porta começaram todas a espirrar.
“Faça seu depoimento”, disse o Rei.
“Faço não”, disse a cozinheira.
O Rei olhou ansiosamente para o Coelho Branco, que disse em voz baixa: “Vossa Majestade deve o senhor mesmo submeter essa testemunha ao interrogatório.”
“Bem, se é necessário, eu faço”, o Rei respondeu com ar melancólico, após cruzar os braços e franzir as sobrancelhas até que seus olhos quase sumissem. Ele perguntou então, com uma voz profunda:
“De que são feitas as tortas?”
“Principalmente de pimenta”, respondeu a cozinheira.
“Melado”, disse uma voz sonolenta atrás dela.
“Prendam esse Leirão!”, a Rainha gritou esganiçada! “Retirem esse Leirão da corte! Sufoquem esse Leirão! Abafem! Cortem-lhe os bigodes!”
Começou então a maior confusão, e até que eles conseguissem expulsar o Leirão e todos se sentassem novamente, a cozinheira sumira.
“Não importa!”, disse o Rei, com um ar de alívio. “Chamem a próxima testemunha”. Ele completou, à meia voz para a Rainha, “Realmente, minha querida, você precisa interrogar a próxima testemunha. Isso tudo está me dando a maior dor de cabeça!”

Alice estava olhando para o Coelho Branco, que remexia na lista de testemunhas, curiosa para saber quem seria a próxima, “pois até agora ainda não consegui entender nada do caso”. Imaginem sua surpresa quando o Coelho Branco leu bem alto, com sua vozinha esganiçada o nome “Alice!”

Alice no País das Maravilhas.
Lewis Carroll.

Ilustrações de John Tenniel.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A Andorinha e as Outras Aves.

Estavam os homens semeando algodão e linho.
Observando-os, a Andorinha disse aos outros pássaros:
- Será para o nosso mal o que os homens estão plantando, pois dessas sementes nascerão algodão e linho, depois eles farão laços e redes para nos prenderem. Melhor seria destruirmos o que for nascendo para que estejamos seguras. As Outras Aves riram muito e não quiseram seguir o conselho. A Andorinha, vendo isso, fez as pazes com os homens e foi viver perto de suas casas. Depois de algum tempo, os homens fizeram laços, redes e instrumentos de caça, com os quais passaram a prender as Outras Aves, preservando a Andorinha.

Esopo. Domínio Público.

Moral da história:


Quem não tem força tem que agir com inteligência e prudência.

domingo, 31 de julho de 2016

Contos brasileiros - O BICHO MANJALÉU.

Fonte da imagem:https://pixabay.com/pt/pr%C3%ADncipe-princesa-fada-castelo-1503345/

Uma vez existia um velho casado, que tinha três filhas muito bonitas; o velho era muito pobre e vivia de fazer gamelas para vender. Quando foi um dia, chegou à sua porta um moço muito formoso, montado num belo cavalo e lhe falou para comprar uma de suas filhas.
O velho ficou muito magoado e disse que, por ser pobre,
não havia de vender sua filha. O moço disse-lhe que, se não lhe vendesse, o mataria; o velho intimidado vendeu-lhe a moça e recebeu muito dinheiro.
Retirando-se o cavaleiro, o pai da família não quis mais
trabalhar nas gamelas, por julgar que não o precisava mais de então em diante; mas a mulher instou com ele para que não largasse o seu trabalho de costume, e ele obedeceu.
Quando foi na tarde seguinte, apresentou-se um outro
moço, ainda mais bonito, montado num cavalo ainda mais bem aparelhado, e disse ao velho que queria comprar uma de suas filhas.
O pai ficou incomodado; contou-lhe o que tinha sucedido no dia antecedente, e recusou-se ao negócio. O moço o ameaçou também de morte, e o velho cedeu.
Se o primeiro deu muito dinheiro, este ainda deu mais
e foi-se embora.
O velho de novo não quis continuar a fazer as gamelas
e a mulher o aconselhou, até ele continuar. Pela tarde seguinte, apareceu outro cavaleiro ainda mais bonito, e melhor montado, e, pela mesma forma, carregou-lhe a filha mais moça, deixando ainda mais dinheiro.
A família cá ficou muito rica; depois apareceu a velha
pejada e deu à luz a um filho, que foi criado com muito luxo e mimo.
Quando chegou o tempo de o menino ir para a escola,
um dia brigou com um companheiro, e este lhe disse:
— Ah! Tu cuidas que teu pai foi sempre rico!... Ele hoje está assim, porque vendeu tuas irmãs!...
O rapazinho ficou muito pensativo e não disse nada em casa; mas quando foi moço, lá num dia se armou de um
alfanje e foi ao pai e à mãe e lhes disse que lhe contassem a história de suas três irmãs, senão os matava. O pai lhe teve mão, e contou o que se tinha passado antes de ele nascer. O moço então pediu que queria sair pelo mundo para encontrar suas irmãs, e partiu. Chegando a um caminho, viu numa casa três irmãos brigando por causa de uma bota, uma carapuça e uma chave. Ele chegou e perguntou o que era aquilo, e para que prestavam aquelas coisas.
Os três irmãos responderam que àquela bota se dizia
"Bota, me bota em tal parte!" e a bota botava; à carapuça se dizia: "Esconde-me, carapuça!" e ela escondia a pessoa que ninguém a via; e a chave abria qualquer porta.
O moço ofereceu bastante dinheiro pelos objetos, os irmãos aceitaram, e ele partiu. Quando se encobriu da casa, disse: "Bota, me bota na casa de minha irmã primeira".
Quando abriu os olhos, estava lá. A casa era um palácio
ornado e rico, e o moço mandou pedir licença para entrar e falar com a irmã que estava feita rainha. Ela não queria aparecer, porque dizia que nunca tinha tido irmão. Afinal, depois de muita instância, deixou o estrangeiro entrar; ele contou toda a sua história, a irmã acreditou e o tratou muito bem.
Perguntou-lhe como poderia ter chegado ali àquelas brenhas, e o irmão disse-lhe ter o poder da bota. Pela tarde, a rainha se pôs a chorar e o irmão lhe indagou a razão, ao que ela respondeu que seu marido era o rei dos peixes e, quando vinha jantar, era muito zangado, em termos de acabar com tudo, e não queria que ninguém fosse ter ao seu palácio...
O moço disse-lhe que por isso não se incomodasse, que tinha com que se esconder e não ser visto, e era com a
carapuça. Pela tarde veio o rei dos peixes, acompanhado de uma porção de outros, que o deixaram na porta do palácio e se retiraram. Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: "Aqui me fede a sangue real!" do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou banho e se desencantou num belo moço.
Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o
que fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está
aí, apareça.
Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito
considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restavam duas irmãs a visitar.
O rei lhe indagou que préstimo tinha aquela bota, e
quando soube do que valia, disse:
— Se eu a apanhasse ia ver a rainha de Castela.
O moço, não querendo ficar, despediu-se e, no ato da saída, o cunhado lhe deu uma escama, e disse-lhe:
— Quando você estiver em algum perigo, pegue nesta
escama, e diga: "Valha-me o rei dos peixes'".
O moço saiu e quando se encobriu do palácio, disse:
"Bota, me bota em casa de minha irmã segunda"; e, quando abriu os olhos, lá estava. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que o outro. Com alguma dificuldade da parte da irmã, entrou e foi recebido muito bem. Depois de muita conversa a sua irmã do meio pôs-se a chorar, dizendo que era "por ele estar aí, e, sendo seu marido o rei dos carneiros, quando vinha jantar, era dando muitas marradas, em termos de matar tudo".
O irmão apaziguou-a, dizendo que tinha onde se esconder. Com poucas, chegou uma porção de carneiros com um carneirão muito alvo e belo na frente; este entrou e os outros voltaram.
Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: "Aqui me fede a sangue real!" do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou banho e se desencantou num belo moço.
Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí, apareça.
Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito
considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restava uma irmã a visitar.
Na despedida, o rei dos carneiros deu ao cunhado uma
lãzinha, dizendo:
— Quando estiver em perigo, diga: "Valha-me o rei dos carneiros".
Também disse, depois de saber a virtude da bota:
— Se eu pegasse esta bota, ia ver a rainha de Castela.
O moço foi reparando nisto e formou-se logo consigo o plano de ir vê-la. Saiu, e pela mesma forma foi à casa de sua irmã mais moça. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que os outros dois. O que lá sucedeu foi o mesmo do que nos palácios das suas irmãs mais velhas. Era o palácio do rei dos pombos, e este, na despedida, deu ao cunhado uma pena, com as palavras:
— Quando se vir nalgum perigo, diga: "Valha-me o rei
dos pombos".
Na despedida, sabendo o rei do préstimo da bota, mostrou também desejos de ir visitar a rainha de Castela.
Logo que o moço se viu longe do palácio, disse: "Bota, bota-me agora na terra da rainha de Castela". Assim foi.
Chegado lá, ele indagou e soube que "era uma princesa que o pai queria casar, e que era tão bonita que ninguém passava pela frente do palácio que não olhasse logo para cima para vê-la na janela; mas a princesa tinha dito ao rei que só casava com o homem que passasse sem levantar a vista."
O estrangeiro foi passar, atravessou toda a distância sem olhar, e a princesa casou com ele.
Depois de casados, ela indagou pela significação daqueles objetos que seu marido sempre trazia consigo; ele tudo lhe contou, e a princesa prestou muita atenção ao prestígio da chave.
O rei, seu pai, tinha em palácio um quarto que nunca se abria, e neste quarto, onde era proibido a todos entrar,
estava, desde muito tempo, trancado um bicho Manjaléu,
muito feroz, que sempre o rei mandava matar e sempre revivia.
A moça tinha muita curiosidade de o ver e, aproveitando a saída do pai e do marido para uma caçada, pegou a chave encantada e abriu o quarto. O bicho pulou de dentro, dizendo: "A ti mesmo é que eu queria!..." e fugiu com ela para as brenhas.
Quando voltaram, os caçadores deram por falta da
princesa, e ficaram muito aflitos. O rei foi ao quarto do Manjaléu, e achou-o aberto e vazio, e o novo príncipe conheceu a sua chave... Ao depois se valeu de sua bota e foi ter onde estava sua mulher. Esta, quando o viu, estando ausente o Manjaléu ficou muito alegre, e quis ir-se embora com ele. Mas o marido não o consentiu, dizendo que ela ficasse para indagar ao monstro onde estava a sua vida, para assim dar cabo dele.
O príncipe foi-se embora. Quando o Manjaléu voltou,
conheceu que ali tinha estado bicho homem; a moça o
dissuadiu, e quando ele se acalmou, ela lhe perguntou onde estava a sua vida. O monstro zangou-se muito, e disse:
— Ah! Tu queres saber de minha vida mais o teu marido, para darem cabo de mim!... Não te digo, não...
Passaram-se dias, sempre a moça instando. Afinal, ele foi amolar um alfanje, dizendo:
— Eu te digo onde está minha vida; mas se eu sentir
qualquer incômodo, conheço que ela vai em perigo e, antes que me matem, mato a ti primeiro, queres?!
A princesa respondeu que sim. O Manjaléu amolou o
alfanje, e disse-lhe:
— Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão, dentro do caixão uma pedra, dentro da pedra uma pomba, dentro da pomba um ovo, dentro do ovo uma vela; assim que a vela se apagar, eu morro.
O bicho saiu e foi procurar frutas; chegou o príncipe, soube de tudo e foi-se embora. O Manjaléu veio e deitou-se no colo da moça com o alfanje ali perto. O príncipe chegou com sua bota à praia do mar num instante; lá pegou na escama que tinha, e disse: "Valha-me o rei dos peixes" de repente uma multidão de peixes apareceu, indagando o que ele queria.
O príncipe perguntou por um caixão que havia no fundo do mar; os peixes disseram que nunca o tinham visto, e só se o peixe do rabo coto soubesse. Foram chamar o peixe do rabo coto, e este respondeu:
— Neste instante dei uma encontroada nele.
Todos os peixes foram e botaram o caixão para fora.
O príncipe o abriu e deu com a pedra; aí pegou na lãzinha e disse: "Valha-me o rei dos carneiros" De repente apareceram muitos carneiros e entraram a dar marradas na pedra.
O Manjaléu lá começou a sentir-se doente, e dizia:
— Minha vida, princesa, corre perigo!
E pegou no alfanje; a moça o foi dissuadindo e engambelando. Os carneiros quebraram a pedra e voou uma pomba. O príncipe pegou na pena e disse: "Valha-me o rei dos pombos!" Chegaram muitos pombos e correram atrás da pomba, até que a pegaram. O príncipe abriu-a e achou o ovo. Quando estava nisto, lá o Manjaléu estava muito desfalecido, pegou no alfanje e ia dando um golpe na princesa.
Foi quando cá o príncipe quebrou o ovo, e apagou a vela; aí o bicho caiu sem ferir a moça. O príncipe foi ter com ela, e levou-a para o palácio, onde houve muitas festas.


(Versão de Sergipe, coletada por Sílvio Romero) - Domínio Público.