quarta-feira, 28 de setembro de 2016

PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 6.

Em seguida deu uma ordem ao tenente do bando.
— "Olá, Capacete! Diga ao cozinheiro que prepare um pão-de-ló bem grande e bem bonito e que ponha dentro..."
Não pôde terminar. Um tique-taque muito seu conhecido fez-se ouvir perto.
— "O crocodilo!" — berrou o chefe dos piratas, disparando na fuga a todo galope, seguido pelo bando inteiro — e logo se sumiram no horizonte dentro duma nuvem de pó. O crocodilo, tique-taque, os acompanhou sem pressa nenhuma, filosofando que se daquela vez não o havia apanhado, de outra o apanharia.
— A senhora falou em nuvem de poeira, vovó. Mas a floresta não estava coberta de neve? — indagou Narizinho.
— Sim, minha filha. Mas a neve logo que cai, acumula-se solta como farinha. Se dá o vento, voa como poeira. Ora, os piratas fugiram ventando como tia Nastácia diz quando a carreira é séria, e, portanto levantavam nuvens de neve em pó.
— E que aconteceu depois? — quis saber Pedrinho.
— Pelo tropel, os meninos lá embaixo perceberam que os piratas haviam fugido e trataram de sair do subterrâneo. Foram subindo pelos ocos, e ao chegarem à superfície viram que os Peles-Vermelhas estavam na pista dos piratas.
— Que história é essa, vovó? Então os índios eram inimigos dos piratas?
— Eram aliados de Peter Pan e inimigos do Capitão Gancho, contra o qual andavam em guerra feroz.
O modo desses índios fazerem guerra merece ser contado. Eles trepavam às árvores para espiar ao longe, com a mão sobre os olhos em forma de viseira e aplicavam o ouvido sobre a terra para ouvirem os rumores distantes.
Caminhavam de rastos, como cobras, escondendo-se atrás de cada toco de pau ou moita. Levavam arcos e flechas e também um tantã, que entre os índios é o tambor da vitória.
Infelizmente era muito raro ouvir-se o som do tantã, porque os Peles-Vermelhas sempre saíam derrotados e fugiam como lebres.
Mas os meninos, ao porem as cabecinhas fora dos ocos só viram o fim da correria. Em minutos a poeira levantada pelos piratas em fuga e pelos índios perseguidores desapareceu no horizonte.
— Que expressão bonita! — exclamou Emília. — Desapareceu no horizonte!... Acho uma beleza em tudo quanto desaparece no horizonte. Inda hei de escrever uma história cheia de desaparecimentos no horizonte, com três pontinhos no fim...
E a boneca ficou absorta, de olhos pendurados no horizonte, enquanto Dona Benta, a rir-se, continuava a história.
— Passaram os piratas — disse ela. — Depois passaram os índios. Só faltava passar o bando de lobos famintos, que habitualmente acompanham os guerreiros para comer os mortos.
— E vieram os lobos nesse dia?
— Como não? Logo depois surgiram os lobos no horizonte; mas farejando a gentinha de Peter Pan fora do subterrâneo, desistiram de seguir os guerreiros e vieram como flechas devorar os meninos.
Peter Pan, entretanto, já havia descoberto o melhor meio de assustar lobo faminto. Consiste em sair ao encontro deles de costas, com a cabeça entre as pernas. Os lobos entreparam, desnorteados, não podendo compreender que espécie de animal é aquele, e depois fogem com velocidade maior ainda que a do Capitão Gancho ao ouvir o tique-taque do crocodilo.
Assim que os lobos famintos chegaram a uma certa distância, os seis meninos, guiados por Bicudo, correram-lhes ao encontro de costas, com a cabeça entre as pernas.
Foi uma beleza! Os lobos entrepararam uns segundos e em seguida voltaram-se nos pés e sumiram-se dentro da floresta.
Ora graças! Os meninos perdidos podiam enfim brincar sossegadamente de pegador ou chicote-queimado à luz do lindo luar que fazia. Mas não brincaram, porque Cachimbo lhes chamou a atenção para qualquer coisa no céu.
— "Olhem! Lá vem voando para o nosso lado uma espécie de pássaro branco bem grande..."
Todos ergueram o nariz e arregalaram os olhos. Não podiam compreender que pássaro fosse aquele. Não parecia garça, nem outra qualquer ave conhecida. Súbito, uma bola de fogo riscou o ar, vindo descer bem no meio deles. Era a fada Sininho.
— "Peter Pan manda dizer" — declarou ela nervosamente na sua linguagem do tlin, tlin, tlin — "que é preciso matar quanto antes essa ave que vem vindo."
Cachimbo, o melhor atirador do grupo, desceu imediatamente ao subterrâneo, de onde voltou com um arco e uma flecha. Ajustou a flecha ao arco, fez pontaria, esticou a corda e — zuct! — A flecha lá se foi assobiando e deu certinho no alvo. A ave branca vacilou no voo, cambaleou, descrevendo um parafuso e veio cair junto ao grupo. Todos correram para apanhá-la.
— "Não é ave!" — exclamaram cheios de surpresa. — "É uma linda menina de camisola branca. Talvez seja a tal mãezinha que Peter Pan vive prometendo trazer-nos."
Era Wendy, que se tinha adiantado dos demais durante o voo. A fada Sininho havia cometido aquela traição porque estava a roer-se de ciúmes: Gostava de Peter Pan e não podia suportar as atenções e requebrados do menino para com a sua nova conhecida. Daí lhe veio a ideia de fazê-la flechar por um dos meninos.
Nisto chegou Peter Pan, seguido de João Napoleão e Miguel. Assim que pôs o pé em terra, foi logo indagando:
— "Onde está Wendy?" — Ao saber que Wendy havia sido flechada, teve um grande acesso de cólera e passou mão do arco para também flechar Cachimbo no coração. E flechava mesmo, se não fosse Wendy despertar do desmaio ainda a tempo de impedir tamanho crime.
Wendy não havia sido ferida, porque a flecha batera justamente no botão-beijo que Peter Pan lhe havia dado. Só sentiu o choque da flecha; e como já estivesse cansada e tonta de tanto voar, bastou isso para fazê-la perder os sentidos e cair.
Vendo que ela estava vivinha, os meninos a rodearam na maior alegria, embora sem saber o que fazer. Levar Wendy para a morada subterrânea não lhes parecia bem.
Deixá-la por ali ao relento, era pior. O único remédio seria construir-lhe uma casinha bem ajeitada. Estavam a discutir esse ponto quando Wendy começou a cantar uma cantiga em verso por ela mesma inventada, assim:

Uma casinha quero ter,
Que menor não haja no mundo;
Terreiro bem limpo na frente,
Jardim de mil flores no fundo.

— "Pronto! Já sabemos o que ela quer!" — exclamaram os meninos em coro. — "Vamos fazer a casinha de Wendy, com jardim de mil flores ao fundo."
E foi uma lufa-lufa. Bicudo correu a cortar paus na floresta; Cachimbo desceu ao subterrâneo em procura duma velha grade muito ajeitada para a armação do teto; Assobio foi em busca dum pedaço de tapete velho e dum rolo de encerado.
Num instante ficou pronta a casinha. Peter Pan observou que haviam esquecido a chaminé. Onde já se viu casa sem chaminé? Correu os olhos em torno, em procura, e deteve-os no Miguel, que tinha na cabeça a cartola de seu pai.
— "Ótimo!" — gritou Peter Pan tomando a cartola. — "Melhor chaminé do que esta não é possível" — e arrumou-a em cima do teto.
E tudo mais foi assim. O material de construção mais empregado era o "faz-de-conta". Não tem fechadura na porta? Faz de conta que esta fivela é fechadura. Não tem cadeira? Faz de conta que esta pedra é cadeira.
Wendy não precisou entrar na casinha, porque a casinha havia sido construída em redor dela — e foi a primeira vez no mundo que semelhante coisa aconteceu.
Pronta a casa com a dona dentro, Peter Pan veio e bateu na porta — toque, toque, toque. Wendy surgiu à janela e perguntou quem era.
— "São os meninos perdidos que desejam saber se a menina está disposta a ser a mãezinha deles. Nunca tiveram mãe e querem experimentar se é bom."
— "Com muito gosto" — respondeu Wendy. — "Serei mãe de todos, contarei histórias à noite, remendarei as roupas de dia, agradarei aos que chorarem e ralharei com os que fizerem coisas inconvenientes — tudo igualzinho como mamãe faz lá em casa. Mas só serei mãe se Peter Pan quiser ser o pai."
Todos bateram palmas, numa grande alegria. Iam ter mãe afinal. Iam ter quem lhes contasse histórias — que maravilha!
— "História! História!" — exclamaram. — "Para começar, conte já uma linda história" — e os meninos foram entrando para a casinha, em atropelo. Era incrível que lá coubessem todos, mas couberam. Para isso foi preciso que se arrumassem com a habilidade e o jeito com que as sardinhas se arrumam dentro das latas.
Logo que todos se acomodaram, Wendy começou assim:
— "Era uma vez uma pobre menina chamada Cinderela" — e foi por aí além até que o sono tomasse conta de toda a sua filharada.
Tudo dormiu. Dormiu a floresta o seu sono agitado de morcegos, pios de coruja e uivos de lobo. Dormiu o crocodilo, lá longe. Dormiram os piratas; e os índios, vendo o inimigo a dormir, deixaram a perseguição para o dia seguinte e dormiram também.
Só não dormiu Peter Pan. Passou toda, a noite fora, de espada na mão, montando guarda à casinha da jovem mãe que havia arranjado para os meninos perdidos.
Dona Benta parou nesse ponto, achando que o melhor era também irem dormir.
— Chega por hoje. O resto fica para amanhã. Agora é cada um ir para sua cama sonhar com o Capitão Gancho e o crocodilo
— Credo! — exclamou tia Nastácia, erguendo-se. — Eu quero sonhar com Dona Wendy, que é tão galantinha. Mas com esse canhoto malvado, Deus me livre!
Pedrinho deu um suspiro. Estava lamentado não haver fugido para a Terra do Nunca tio dia em que nasceu.
Narizinho também suspirou. Quanto não daria para ser Wendy Darling?
Só Emília não suspirou, nem disse nada. Saiu dali muito quieta e foi mexer na caixa de ferramentas de Pedrinho.
Dona Benta encontrou-a lá, lidando para entortar um prego.
— Que é que está fazendo, Emília?
— Estou vendo se faço uma munheca de gancho como a do Capitão.
— E para que, bobinha?
— Para assustar tia Nastácia. Quero ganchar aquele beição dela...

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domingo, 18 de setembro de 2016

Sim, não, espera.

Outro dia, levei por escrito para minha mãe a lista de presentes que desejava ganhar no Natal: uma bola de futebol, um jogo de videogame e um celular.
A resposta também veio por escrito e dizia: Sim, não, espera.
Sem entender o bilhete, fui pedir explicações. Ela disse que cada palavra era a resposta para um dos meus pedidos. Logo:

Bola = Sim
Jogo de videogame = Não
Celular = Espera

Assim, entendi que vou ganhar a bola, mas ela não vai me dar o jogo de videogame que pedi porque é um jogo de guerra.
- Filho, não é bom e educativo ficar “fazendo guerra”, dando tiros, jogando bombas, destruindo cidades e matando pessoas, mesmo que seja de brincadeira. Esse jogo de videogame é igual a uma arma de brinquedo. Não quero que você cresça achando que matar é divertido ou correto.
Ela também explicou que a terceira resposta é espera porque ainda não é o momento certo para eu ganhar um celular:
- Tudo tem seu tempo, filho. Em um futuro próximo, dependendo da sua maturidade e responsabilidade, poderá ganhar um celular. Agora ainda é cedo, tenha um pouco de paciência.
Apesar de não concordar, afinal, já tenho onze anos, sei que por enquanto não vou ganhar o celular. Para completar mamãe explicou que Deus também usa sim, não, espera para responder ao que nós pedimos a Ele.
- Deus nos atende quando pedimos algo que merecemos ou que vai auxiliar na nossa evolução espiritual. Quando não somos atendidos, depois de um tempo, percebemos que nosso pedido não era legal para nós e que não foi a melhor resposta.
Como percebeu que eu ouvia atentamente, ela completou:
- Quando Deus responde espera, temos que confiar Nele. Também devemos orar, ter fé e paciência porque Ele sabe o que é melhor para nós.
Pensando bem, não vou brigar, nem ficar emburrado porque não vou ganhar tudo o que pedi. Sei que reclamar não vai adiantar e que o melhor a fazer é esperar e não discutir. Afinal, minha mãe sabe muito e, assim como Deus, também usa sim, não, espera...

Claudia Schmidt.


Fonte: http://www.searadomestre.com.br/evangelizacao/estoria.htm#simnaoespera

Atividade:

Colorir:


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Árvore de Amigos.

Existem pessoas em nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples fato de terem cruzado o nosso caminho.
Algumas o percorrem ao nosso lado, vendo muitas luas passarem, mas outras apenas vemos entre um passo e outro.
A todas elas chamamos de amigo.
Há muitos tipos de amigo.
Talvez cada folha de uma árvore caracterize um deles.
O primeiro que nasce do broto é o amigo pai e o amigo mãe.
Mostram o que é ter vida.
Depois vem o amigo irmão, com quem dividimos o nosso espaço para que ele floresça como nós.
Passamos a conhecer toda a família de folhas, a qual respeitamos e desejamos o bem.
Mas o destino nos apresenta outros amigos, os quais não sabíamos que iam cruzar o nosso caminho.
Muitos desses denominados amigos do peito, do coração.
São sinceros, são verdadeiros.
Sabem quando não estamos bem, sabem o que nos faz feliz…
Às vezes, um desses amigos do peito estala o nosso coração e então é chamado de amigo namorado.
Esse dá brilho aos nossos olhos, música aos nossos lábios, pulos aos nossos pés.
Mas também há aqueles amigos por um tempo, talvez umas férias ou mesmo um dia ou uma hora.
Esses costumam colocar muitos sorrisos na nossa face, durante o tempo que estamos por perto.
Falando em perto, não podemos esquecer dos amigos distantes.
Aqueles que ficam nas pontas dos galhos, mas que, quando o vento sopra, sempre aparecem novamente entre uma folha e outra.
O tempo passa, o verão se vai, o outono se aproxima, e perdemos algumas de nossas folhas.
Algumas nascem num outro verão e outras permanecem por muitas estações.
Mas o que nos deixa mais feliz é que as que caíram continuam por perto, continuam alimentando a nossa raiz com alegria.
Lembranças de momentos maravilhosos enquanto cruzavam com o nosso caminho.
Desejo a você, folha da minha árvore, paz, amor, saúde, sucesso, prosperidade. Hoje e Sempre… Simplesmente porque cada pessoa que passa em nossa vida é única, sempre deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.
Há os que levaram muito, mas não há os que não deixaram nada.
Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente de que duas almas não se encontram por acaso.


- autor desconhecido-

Atividade:

Imprimir a imagem para que as crianças façam folhas na copa da árvore com as carinhas dos amigos e depois pintar.

Tema: amizade, amor ao próximo, cooperação, respeito.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Alice no País das Maravilhas. Capítulo 12 - O depoimento de Alice. Último capítulo.

"Presente” gritou Alice, esquecendo na excitação do momento o quanto tinha crescido nos últimos minutos. Ela saltou com tamanha pressa que acabou virando o banco do júri com a barra da saia, deixando os jurados de cabeça para baixo, esperneando. Alice lembrou-se muito do aquário de peixinhos dourados que tinha virado acidentalmente na semana anterior.
 “Oh, eu peço mil perdões!”, ela exclamou consternada, e começou a levantá-los o mais rapidamente que podia, pois o acidente com os peixinhos ainda estava em sua mente e ela estava com a sensação de que se não os recolocasse nos seus lugares eles poderiam morrer.
“A audiência não poderá prosseguir”, disse o Rei, com uma voz grave, “até que os jurados estejam de volta a seus lugares... todos”, ele repetiu com grande ênfase, olhando duramente para Alice ao falar.
Alice olhou para o banco dos jurados e percebeu que, em sua pressa, tinha colocado o Lagarto de cabeça para baixo e a pobre coisinha estava lá, agitando melancolicamente a cauda, incapaz de se mover. Ela apanhou-o novamente e colocou o pobre de cabeça para cima. “Não que isso mude alguma coisa”, disse para si mesma, “eu penso que de uma maneira ou de outra ele tem a mesma utilidade.”
Tão logo o júri recuperou-se do choque e que suas lousas e lápis foram encontrados e devolvidos, eles sentaram-se e começaram a trabalhar diligentemente no relato do acidente. Todos, exceto o Lagarto, que parecia muito chocado para fazer outra coisa que ficar com a boca aberta, olhando para o teto da corte com os olhos esgazeados.
“Que você sabe a respeito do caso?”, o Rei perguntou a Alice.
“Nada”, respondeu Alice.
“Nada de nada?”, insistiu o Rei.
“Nada de nada”, disse Alice.
“Isso é muito importante”, disse o Rei, voltando-se para o júri. Os jurados estavam começando a escrever em suas lousas quando o Coelho interrompeu:
“Desimportante, é o que Vossa Majestade quer dizer, claro”, ele disse, em um tom respeitoso, mas franzindo o cenho e fazendo caretas.
“Desimportante, é claro, foi o que eu quis dizer”, o Rei retomou rapidamente, e continuou falando consigo mesmo a meia-voz “importante... desimportante... desimportante... importante...” como se estivesse procurando qual palavra soava melhor.
Alguns dos jurados escreveram “importante” e alguns “desimportante”. Alice pôde ver porque estava perto o suficiente para ver as lousas. “Mas isso não tem a menor importância”, ela pensou consigo mesma.”
 Nesse momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo alguma coisa em um caderno de anotações, gritou: “Silêncio!” e leu o que estava escrito.
“Artigo Quarenta e dois. Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem abandonar o tribunal.”
Todo mundo olhou para Alice.
“Eu não tenho mais de um quilômetro e meio”, disse Alice.
“Tem sim”, disse o Rei.
“Quase três quilômetros”, completou a Rainha.
“Bem, de qualquer jeito, não vou embora”, disse Alice. “Além do mais, esse artigo não é legal, pois vocês acabaram de inventá-lo.”
“É o artigo mais antigo do código”, retrucou o Rei.
“Então deveria ser o Número Um”, argumentou Alice.
O Rei empalideceu, fechando seu livro de notas rapidamente.
“Façam seu veredito”, o Rei ordenou ao júri, com uma voz baixa e trêmula.
“Por favor, Vossa Majestade, ainda há evidências a serem examinadas”, disse o Coelho Branco, levantando-se apressado. “Esse papel acabou de ser descoberto.”




“O que há nele?”, perguntou a Rainha.
“Eu ainda não abri”, respondeu o Coelho Branco, “mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para... para alguém.”
“Para quem ela é endereçada?”, perguntou alguém do júri.
“Não está endereçada a ninguém”, disse o Coelho Branco. “Na verdade, não tem nada escrito do lado de fora.” Ele foi abrindo o papel enquanto falava e completou: “Não é uma carta, afinal, são apenas versos.”
“E é a letra do prisioneiro?”, perguntou outro jurado.
“Não, não é”, respondeu o Coelho Branco, “e isso é o mais estranho.” (Os jurados pareciam confusos.)
“Talvez ele tenha imitado a letra de outra pessoa”, disse o Rei. (O júri ficou alegre novamente.)
“Por favor, Vossa Majestade”, pediu o Valete. “Eu não escrevi isso e ninguém pode provar que fui eu: não há nenhum nome assinado no final.”
“Se você não assinou”, disse o Rei, “apenas torna a situação pior para você. Com certeza você estava fazendo alguma coisa errada, senão teria assinado seu nome como um homem honesto.”
Houve um aplauso geral: aquilo fora a primeira coisa inteligente que o Rei tinha falado naquele dia.
“Isso prova sua culpa, logicamente”, continuou a Rainha, “portanto, cortem-lhe a...”
“Isso não prova coisa alguma”, gritou Alice. “Vocês nem ao menos sabem o que dizem os versos!”
“Leia-os”, ordenou o Rei.
O Coelho Branco colocou seus óculos. “Por onde devo começar, se Vossa Majestade permite?”, ele perguntou.
“Comece pelo começo”, disse o Rei com muita gravidade, “e siga até o fim: daí pare.”
Fez-se um silêncio mortal na corte enquanto o Coelho Branco lia estes versos:

Eles falaram que você chegou perto dela
E de mim para ela falou
Ela achou que eu era um bom caráter
Mas não me deixou nadar ainda assim.

Ele deu sua palavra que não tinha sido eu
(E todos sabemos isso é verdade)
Se ela quisesse mesmo saber
O que aconteceria com você?

Eu dei para ele um, eles lhe deram então dois,
Você para nós deu três ou mais
Eles todos devolveram os seus
Mas todos eram meus antes

Se houvesse chance de ela ou eu
Estarmos envolvidos nesse problema
Ele pediria a vocês para libertá-los
E fomos libertados.

Eu achava que era o que tinha sido
(Antes de ela dar seu estrilo)
Um obstáculo que apareceu
Entre ele, nós e aquilo.

Não o deixe ver que ela a eles tem amado
Para sempre deve ser
Um segredo, de todos mantido a parte
Entre você e eu.

“Esta é a prova mais importante que já ouvimos aqui”, disse o Rei esfregando as mãos, “portanto, vamos agora aos jurados...”
“Se algum deles for capaz de entender os versos”, disse Alice (a menina tinha crescido tanto nos últimos minutos que não estava com medo nenhum de interromper o Rei), “eu lhe darei seis pence. Eu acho que não há um mínimo de sentido em nada.”
Todo o júri escreveu, em suas lousas. “Ela acha que não há um mínimo de sentido em nada”. Mas nenhum deles se habilitou a explicar os versos.
“Se não há sentido neles”, disse o Rei, “isso livra o mundo de um incômodo, você sabe, não precisamos procurar um. E eu não sei não”, ele continuou desdobrando o papel sobre os joelhos, olhando para ele de rabo de olho, “eu até diria que há algum sentido neles, afinal de contas ‘... Mas disse que eu não sei nadar...’ Você não sabe nadar, sabe?”, ele perguntou virando-se para o Valete.
O Valete balançou a cabeça tristemente. “Eu pareço com alguém que sabe nadar?”, ele respondeu (Certamente que não, pois ele era uma carta de baralho feita de papelão.)
“Tudo bem por enquanto”, disse o Rei, que continuou a falar sobre os versos para si mesmo: “E isso, nós sabemos, é verdade... isso é o júri, claro... Porém, se ela quisesse ir ao fim... isso deve ser a Rainha... Que seria de ti, saber quem há de?... O quê, afinal?... Deram duas a ele, a ela dei uma... ora, isso deve ser o que ele fez com as tortas, certo?”
“Mas os versos continuam com Todas voltaram, não faltou nenhuma”, disse Alice.
“Certo, lá estão elas!”, disse o Rei com ar de triunfo, apontando para as tortas sobre a mesa. Nada poderia ser mais claro que isso. Depois vem... Antes dela dar seu estrilo... você nunca deu estrilo algum, não é, minha querida?“, ele disse para a Rainha.
“Nunca!”, respondeu a Rainha furiosamente, jogando um tinteiro em cima do Lagarto enquanto falava. (O infeliz pequeno Bill tinha parado de escrever na lousa com o dedo, pois percebera que de nada adiantava; mas depois do ataque começou a escrever novamente usando a tinta que lhe escorria pela cara, enquanto não secava.)
“Então suas palavras têm estilo”, disse o Rei olhando para o tribunal com um sorriso. Havia um silêncio de morte.
“É um trocadilho!”, o Rei completou com raiva, e então todo mundo começou a rir. “Deixemos o júri considerar seu veredito”, disse o Rei, mais ou menos pela vigésima vez no dia.
“Não, não!”, disse a Rainha. “A sentença primeiro... depois o veredito.”
“Que disparate!”, disse Alice em voz alta. “Que ideia imbecil esta da sentença antes!”
“Dobre sua língua”, gritou a Rainha, vermelha de raiva.
“Não dobro não!”, respondeu Alice.
“Cortem-lhe a cabeça!”, a Rainha berrou o mais alto que pôde. Ninguém se mexeu.
“Quem se importa com você?”, disse Alice (que acabara de voltar ao seu tamanho normal). Vocês não passam de um baralho de cartas!”
Nesse instante todo o baralho voou no ar, começando depois a cair sobre Alice; ela deu um gritinho, meio com medo, meio com raiva, tentando rebatê-las. A menina achou-se então deitada no barranco com a cabeça no colo da irmã, que gentilmente afastava algumas folhas secas que tinham caído da árvore sobre elas.
“Acorde, Alice querida!”, disse a irmã. “Nossa, que sono pesado você teve!”
“Puxa, que sonho estranho que eu tive!”, disse Alice. Então ela contou para a irmã, tão bem quanto pôde lembrar as estranhas Aventuras que vocês acabaram de ler. Então, depois que terminou, sua irmã deu-lhe um beijo e disse “Foi um sonho curioso, querida, certamente; mas agora se apresse, é hora do chá: está ficando tarde.”
Alice levantou-se e saiu correndo, pensando enquanto corria que aquele tinha mesmo sido um sonho maravilhoso.
Mas sua irmã ficou lá mesmo, com a cabeça entre as mãos, pensando na pequena Alice e em suas maravilhosas Aventuras, até que ela mesma começou a sonhar e este foi seu sonho...
Primeiro, ela sonhou com a pequena Alice: mais uma vez suas mãozinhas estavam pousadas nos joelhos e seus olhos brilhantes olhavam para ela... ela podia até mesmo ouvir os diferentes tons da sua vozinha e ver aquele jeito só dela de atirar a cabeça para trás e afastar as mechas de cabelo que sempre teimavam em lhe cair sobre os olhos...e enquanto escutava, ou parecia que escutava, todo o espaço envolta dela ia ficando repleto daquelas estranhas criaturinhas do sonho da irmãzinha.
A grama farfalhava sob os pés do apressado Coelho Branco... o Rato assustado espalhava água para fora da lagoa...ela podia ouvir o tilintar das xícaras de chá enquanto a Lebre de Março e seus amigos partilhavam da sua refeição que nunca acabava, e a vozinha aguda da Rainha ordenando a execução dos seus infelizes convidados...mais uma vez o bebê-porco estava espirrando no colo da Duquesa, enquanto pratos e travessas se espatifavam em volta...e mais uma vez o guincho do Grifo, o ranger do giz do Lagarto e os tais aplausos sufocados dos porcos-da-índia enchiam o ar, misturados com os soluços distantes da miserável Falsa Tartaruga.
Sentada, com os olhos fechados, quase acreditou estar ela mesma no País das Maravilhas, mesmo sabendo que quando abrisse os olhos novamente tudo voltaria a ser a chata realidade de sempre... a grama se mexeria apenas com o vento e a lagoa estaria se movimentando apenas com os juncos...o tilintar da xícaras novamente seria o badalar dos sinos pendurados nos pescoços dos carneiros...os gritos agudos da Rainha seriam apenas os berros do pastor...o espirro do bebê, o guincho do grifo, e todas as outras coisas esquisitas iriam transformar-se (ela sabia) no confuso clamor da vida no campo...assim como o mugir do gado à distância iria tomar lugar dos pesados soluços da Falsa Tartaruga.
Finalmente, ela imaginou como sua irmãzinha, no futuro, transformar-se-ia em uma mulher adulta: e como ela iria manter através da sua maturidade o mesmo coração simples e afetuoso da sua infância: como também ela sempre estaria cercada de criancinhas e faria os olhos delas brilharem com muitas histórias estranhas, talvez até mesmo com o sonho do País das Maravilhas de há muito tempo atrás; como ela adoraria compartilhar com suas tristezas simples e alegrar-se com suas brincadeiras ingênuas, lembrando-se da sua própria infância e daqueles felizes dias de verão.
FIM.


Alice no País das Maravilhas.
Lewis Carroll.

Ilustrações de John Tenniel.


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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Tanta tinta.

Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=96482&picture=pintura
da-crianca

Ah! Menina tonta,
toda suja de tinta
mal o sol desponta!

(Sentou-se na ponte,
muito desatenta...
E agora se espanta:
Quem é que a ponte pinta
com tanta tinta?...)

A ponte aponta
e se desaponta.
A tontinha tenta
limpar a tinta,
ponto por ponto
e pinta por pinta...
Ah! A menina tonta!
Não viu a tinta da ponte!

Cecília Meireles.