sexta-feira, 7 de outubro de 2016

As mil e uma noites. As venturas de Simbad, o marujo.

No reinado do califa Harun ar-Rachid, vivia em Badgá um carregador muito pobre chamado Hindbad. Um dia, sob forte calor, Hindbad transportava uma carga muito pesada de um extremo a outro da cidade. Cansado, parou perto de um grande palácio, de cujas janelas provinham um delicioso perfume e o som harmonioso de instrumentos e de pássaros.
A música e o cheiro apetitoso dos mais requintados pratos levaram Hindbad a concluir que ali acontecia um grande banquete. Querendo saber quem morava naquele lugar luxuoso, perguntou a um dos criados que estavam na entrada do palácio como se chamava seu dono. Esta foi a resposta:
– O quê? Você mora em Bagdá e não sabe que esta é a morada de Simbad, o famoso navegante que percorreu todos os mares iluminados pelo sol?
O carregador que, de fato, tinha ouvido falar em Simbad, sentindo inveja desse homem, disse:
– Ó poderoso criador de todas as coisas, que diferença existe entre a minha situação e a de Simbad! Eu tenho de trabalhar como um condenado e suportar mil males todo dia! Enquanto isso, Simbad gasta suas imensas riquezas numa vida cheia de prazeres. Que foi que ele fez para merecer tanta felicidade? Que eu fiz para merecer um destino tão desgraçado?
O carregador estava entregue a esses pensamentos, quando um criado saiu do palácio e tomou-o pelo braço, dizendo:
– Venha comigo! Meu senhor quer falar com você.
Hindbad quis escapar, temeroso de que o senhor do palácio quisesse castigá-lo pelas palavras que ele tinha dito. Mas o criado não o deixou ir embora e o conduziu a uma grande sala. Ali, em volta de uma mesa repleta de iguarias estavam sentadas muitas pessoas; no lugar de honra, via-se um homem de barbas brancas, cercado de criados. Era Simbad.
O carregador tremia vendo aquelas pessoas e um banquete tão requintado. Simbad o chamou, fez que se sentasse à sua direita e ele próprio o serviu daquela comida deliciosa. Terminada a refeição, Simbad disse ao carregador:
– Ouvi o que você dizia lá fora. Não sou injusto, por isso não guardo rancor contra você. Aliás, lamento a sua sorte. Mas você se engana em achar que eu conquistei o que tenho sem dificuldade e sem muito esforço. Não se iluda: cheguei a esta minha situação
depois de sofrer por muitos anos tudo o que de penoso podem sofrer o corpo e a alma! Corri tantos perigos em minhas viagens pelos mares!
E passou a narrar suas aventuras. Das sete viagens de Simbad, uma das mais espantosas foi a seguinte, contada pelo próprio marujo:
“Depois de minha primeira viagem, eu tinha decidido passar o resto de meus anos tranquilamente em Bagdá, mas um dia comecei a me aborrecer com aquela vida monótona e de novo tive vontade de navegar”. Comprei mercadorias para vender ou trocar e parti com outros mercadores. Embarcamos num bom navio, pedimos a proteção de Deus e soltamos as velas.
Fomos de ilha em ilha, fazendo negócios muito vantajosos. Um dia paramos numa pequena ilha.
Enquanto meus companheiros colhiam flores e frutas, sentei-me perto de um riacho, tomei a minha refeição e depois adormeci. Quando acordei, vi que nosso navio tinha partido, deixando-me sozinho naquele lugar desconhecido! Achei que ia morrer de dor e desespero, arrependendo-me amargamente de não ter me contentado com minha primeira viagem. Finalmente, aceitei conformado, a vontade de Deus e subi numa grande árvore para ver se avistava alguma coisa que pudesse me trazer esperança de salvação.
Lançando a vista ao mar, meus olhos só viram água e céu. Mas de repente enxerguei uma coisa branca em terra e decidi ir até ela. Desci da árvore e caminhei em direção àquilo. Ao chegar a certa distância, pude observar que se tratava de um globo cuja altura e diâmetro eram espantosos. Procurei uma abertura para poder entrar ali, mas não havia nenhuma. Pensei em subir naquele globo, mas era liso demais.
O sol já ia se pondo no horizonte, quando de repente escureceu de uma vez, como se uma nuvem gigantesca cobrisse sua luz. Fiquei mais espantado ainda quando descobri a causa daquela escuridão repentina: um pássaro enorme, que voava na minha direção! Lembrei que os marinheiros costumavam falar de uma ave assim, chamada rukh. Então compreendi que o globo branco era o ovo daquele pássaro.
O rukh pousou sobre o ovo, para chocá-lo. Eu, que estava bem perto, vi que sua pata era do tamanho de uma árvore. Tive então uma ideia para escapar daquela ilha: amarrei meu turbante numa das patas do pássaro na esperança de sair dali quando ele levantasse voo. Passei toda a noite assim. Quando raiou o dia, o rukh voou levando-me com ele.
Subimos tão alto que eu não podia enxergar mais a terra. De repente, o pássaro desceu com a maior rapidez e pousou. Em terra, desprendi meu turbante de sua pata. Mal tinha acabado de soltar-me, quando o pássaro bicou uma serpente incrivelmente comprida
e voou levando-a no bico.
Eu estava num vale cercado de montanhas muito altas. Caminhando por ali, notei que havia diamantes por toda parte, alguns espantosamente grandes. Não houve muito tempo para ficar alegre com aquelas pedras, pois de repente avistei seres monstruosos:
serpentes enormes, capazes de devorar um elefante.
Para tentar escapar dos rukhs, elas se escondiam em cavernas durante o dia e só saíam de noite.
Caminhei pelo vale até o anoitecer. Então, escondi-me numa caverna que me pareceu segura. Fechei a entrada com uma pedra para me proteger das serpentes, dali ouvindo o assobio horripilante que vinha de fora... Assustado, não passei uma noite muito agradável...
Ao nascer do dia, as serpentes foram embora.
Saí da caverna ainda tremendo de medo e caminhei por entre os diamantes sem sentir a menor vontade de pegá-los. Não havia conseguido fechar os olhos dentro da caverna, e, por isso, com muito sono, depois de comer um pouco acabei adormecendo.
Mas de repente algo caiu perto de mim e me acordou.
Era um grande pedaço de carne. Imediatamente notei que outros pedaços caíam das rochas em lugares diferentes do vale.
“– Então era verdade o que me contavam os marinheiros!” – pensei. Aquele vale era um verdadeiro precipício; era impossível descer até ele. Para conseguir pegar alguns diamantes, os marinheiros esperavam a época em que as águias davam crias.
Naquele lugar, as águias eram muito maiores e mais fortes. Os marinheiros jogavam grandes pedaços de carne que, caindo nas pontas dos diamantes, ficavam presos neles. As águias se apoderavam dos pedaços de carne e os levavam aos ninhos no alto das rochas para alimentar seus filhotes. Os mercadores corriam aos ninhos, afugentavam as aves com seus gritos e pegavam os diamantes presos na carne.
Foi então que eu tive uma ideia para escapar daquele precipício e salvar minha vida. Enchi minha bolsa de couro com os maiores diamantes que encontrei, depois peguei um pedaço bem grande de carne e com meu turbante me prendi a ele, amarrando-me bem forte. Deitei-me de bruços e prendi a bolsa na cintura.
Mal tinha terminado quando apareceram as águias. Cada uma pegou um pedaço de carne. Uma das mais fortes apanhou o pedaço em que eu estava e lá fui eu, erguido no ar até chegar ao alto da montanha, dentro de seu ninho. Os mercadores, então, começaram a afugentar as aves com seus gritos.
Depois que elas fugiram, um deles se aproximou do ninho em que eu estava e, quando me viu, teve medo.
Depois, mais calmo, acusou-me de apoderar-me de diamantes que lhe pertenciam. Mas eu lhe respondi:
– Não seja rude. Tenho diamantes para nós dois, e mais do que todos os outros mercadores juntos poderiam conseguir. Eu escolhi pessoalmente as melhores pedras, que trago nesta minha bolsa.
Enquanto dizia isso, mostrava ao homem os diamantes. Os outros me cercaram, maravilhados com a minha história e o modo como eu conseguira salvar minha vida. Levaram-me para o acampamento onde estavam e, vendo os meus diamantes, disseram que nunca tinham visto iguais, nem mesmo nas cortes dos reis mais ricos e poderosos. Insisti com o mercador que me encontrara:
– Por favor, pegue os diamantes que você quiser!
– Não, – respondeu ele, escolhendo apenas uma das pedras – eu me contento com este aqui: é tão precioso que basta para me sustentar para o resto de minha vida.
Passei a noite com aqueles mercadores, alegre por ter escapado de tantos perigos; mal podia acreditar que já não havia mais nada a temer.
Permanecemos muitos dias naquela ilha e, quando todos pareciam contentes com os diamantes que tinham conseguido, partimos. Caminhamos por montanhas muito altas e finalmente chegamos à ilha de Roha, onde nasce a árvore da qual se extrai a cânfora.
Nessa ilha há rinocerontes, animais que lutam com os elefantes. O rinoceronte rasga a barriga do elefante com seu chifre, ergue-o e assim o carrega sobre a cabeça. A gordura e o sangue do elefante caem nos olhos do rinoceronte e o cegam. O animal cai por terra e então aparece o rukh e leva os dois presos nas garras até seu ninho para alimentar os filhotes.
Nessa ilha troquei alguns dos meus diamantes por excelentes mercadorias. Depois, fomos a outras ilhas até chegarmos ao porto de Basra, de onde me dirigi a Bagdá. Assim que cheguei, dei muita esmola aos pobres e vivi decentemente, sustentado pelas imensas riquezas que consegui com tanto esforço.”
Simbad terminou o seu relato e nos dias seguintes contou outras aventuras para seus convidados; entre eles, sempre estava presente o carregador Hindbad, que, encantado com aquelas histórias, até já se esquecera de sua miséria.
Quando terminou de contar tudo o que passara em sua vida agitada, Simbad disse a Hindbad:
– Então, meu caro amigo, já ouviu falar em alguém que tenha sofrido mais do que eu? Não mereço uma vida agradável e tranquila depois de tudo o que eu passei?
Hindbad, em resposta, beijou a mão de Simbad e disse:
– O senhor merece não apenas uma vida tranquila, depois de ter passado por situações tão terríveis, mas todos os bens que é possível imaginar, porque emprega bem as suas riquezas e é muito generoso.
Seja feliz até o fim de seus dias! Simbad deu ao carregador cem moedas, tratando- o como amigo. Depois, pediu-lhe que abandonasse a sua profissão e viesse ao palácio banquetear-se com ele todos os dias.


Fim.

(Versão de Suely M. Brazão)

Livro do aluno volume II – Domínio Público. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O pássaro da sorte. Uirapuru - Lendas Brasileiras.

Trata-se do uirapuru, pássaro encantado da sorte e que tem como moradia as ricas florestas da Amazônia.
A história é um pouco triste. Mas o canto dessa ave é tão plangente e mavioso que vale a pena contar.
Começa com um índio tocando flauta na selva. E as índias jovens ouviam-no. Daí para procurar ver quem era o guapo índio que a tocava foi um só passo.
O segundo passo foi encontrar o músico e cair para trás com uma bruta decepção. Elas, tolinhas, achavam que coisa bonita só pode vir de gente bonita. E caprichosas, malcriadas, empurraram o índio feio para fora da clareira. Humilhado, ele então fugiu.
Na mesma hora as índias ouviram uma outra flauta tocada com delicadeza e doçura. E pensaram com esperança que talvez o tocador dessa nova flauta fosse um índio bonito. Seguiram pelas sendas da floresta, guiadas pelo cântico que cada vez parecia mais próximo. E não é que depararam, não com um índio, mas com um passarinho pousado num galho de árvore frondosa? Era o pássaro uirapuru. Uma das índias, a mais formosa e esguia, era também a melhor caçadora. E, como as outras, quis ferir o pássaro para que ele não fugisse e só cantasse para ela. Com arco e flecha, preparou-se. E, é claro, a ave caiu do galho.
Agora vem uma surpresa, tanto para as índias como para nós: uma vez por terra, o pássaro transformou-se num rapaz belíssimo.
Este índio, com um sorriso manso, dirigiu-se para a sua caçadora, enquanto todas as outras índias rezavam pela sua atenção e amor.
Estava tudo bem. Mas a primeira flauta começou a soar novamente: era a do índio feio.
As moças sabiam que ele queria se vingar dos maus tratos e procuraram rodear o índio bonito para escondê-lo. Mas o índio feio mandou rápido sua flecha, em direção do peito varonil do rival, só para assustá-lo.
E não é que aconteceu um encantamento milagroso?
Aconteceu, sim: o rapaz bonito se transformou num pássaro invisível, mas presente pelo seu canto. E as índias passaram, mesmo sem ver, a ouvir o trinado feliz.
Como é que se espalhou que o uirapuru dá sorte?
Ah, isso não sei, mas que dá, dá!


COMO NASCERAM AS ESTRELAS - DOZE LENDAS BRASILEIRAS - Clarice Lispector




Comentando a lenda: 

explicar que as lendas são antigas e muitas têm origem desconhecida, mas que não devemos maltratar os animais, ao contrário, cabe ao homem cuidar e preservar a natureza e os animais.

Serve como tema para o dia do Índio ou cuidados com a natureza, ecologia.

Atividade:

Pinte e reconte a história com tuas palavras:

Fonte da imagem: http://www.lipitipi.org/2012/04/producao-de-texto-dia-do-indio-lenda-do.html

domingo, 2 de outubro de 2016

A boneca e o crocodilo.

Era uma vez um menino que morava numa casa muito grande. Ele tinha uma irmã que colecionava bonecas chamada Desígnia. Essa coleção enfeitava uma prateleira enorme no quarto que os dois dividiam. Certo dia o menino descobriu na prateleira algo singular - um brinquedo simples, feito de tecido – boneca de pano. Não era bonita como as belas companhias que tinha na prateleira, que traziam cabelos bem cuidados, peles de porcelana e vestidos de luxo. Era uma bonequinha bastante pequena, engraçadinha e resistente. Sem maiores atrativos. E por esse motivo destoava completamente no ambiente.
Por um a razão que me é desconhecida, inesperada e repentinamente esse menino se apaixonou pela boneca. A irmã, que observava os acontecimentos da vida do irmão, permitiu certo dia, que ele cuidasse da pequena de pano.
Nos primeiros tempos se dedicava constantemente à boneca, que de maneira mágica, percebia nascer emoções humanas em seu coração. Por vezes o menino pensou se poderia estar equivocado ao ver alterações no semblante do brinquedo. Ao encostar o ouvido no peito do objeto de seu divertimento, podia escutar, bem baixinho, o pulsar de um coração.
Secretamente, a boneca sempre soube da existência do cérebro, que possibilitava o entendimento do mundo. Mas a conexão cérebro – coração nunca existiu.
Muitos verões chegaram e se foram e um dia ela percebeu que só restaram invernos em sua vida. O tempo cuidou de estragar o tecido e emaranhar os cabelos. O menino, aos poucos, perdeu o encanto por aquele brinquedo, relegando a ele um canto escuro na prateleira – para não sentir a culpa daqueles que jogam fora um objeto que teve serventia num passado remoto.
Esse foi o momento exato no qual o inverno se instalou no coração da pequena - definitivamente. Nessa ocasião, principiou-se um rompimento de um remendo que não era – até então - perceptível. E de dentro daquela ‘descostura’ saiu um coração, que ficou preso apenas por um fio dourado. Coração de pano, muito delicado e pequeno, ainda morno e pulsando lentamente.
A boneca, que durante muitas estações conseguia ver cores e sentir os cheiros e texturas do mundo, passou a perceber apenas gradações de negro e cinza. Deixou de ser portadora das sensações humanas que teimavam animá-la.
O menino, assustado, escondeu ainda mais o artefato, o banindo para uma caixa escura para que ninguém soubesse daquele segredo. Desde esse dia nunca mais houveram notícias dele, que simplesmente desapareceu.
Numa noite inesperada, enquanto a boneca, através da janela, via as estrelas e não as sentia, dois pontos luminosos apareceram na floreira. Após muitos anos sem emoções, se apavorou e teve medo. O medo do perigo do sentir.
Nos dias subsequentes as luzes misteriosas reapareceram e por um instante ela ouviu um sussurrar musical que se confundia com o vento frio que viajava mundo afora. Eram acordes semelhantes àqueles das caixinhas de música antigas.
Se arrastando como pode, pulou da caixa e tentou ver o que acontecia, mas a imobilidade imposta há tanto tempo não permitiu. Estatelada no chão, sentindo solidão e tristeza, ela derramou suas lágrimas. Chorou a dor do mundo e o coração voltou a bater gradualmente, respeitando o ritmo natural da vida.
Intimidada, decidiu esperar. Enquanto aguardava percebeu que as cores, aos poucos, voltaram. Reconhecia novamente o desejo, que há muito havia se perdido, de pensar e elaborar emocionalmente.
Após alguns meses apreciando aquela música, já habituada àquela rotina que havia enfraquecido a dor da solidão, sua vida mudou. Imprevistamente e com apenas um pulo, adentrou no quarto um crocodilo enorme, verde e marrom com mandíbulas imensas. Tinha aproximadamente 1,80m da ponta do rabo até a cabeça.
A boneca nunca havia sentido tanto medo na vida, até que percebeu, como por encanto, o objeto trazido pelo réptil – a caixinha de música que havia preenchido de esperança cada noite em seu coração.
Relembrou as inúmeras vezes em que foi rechaçada por ser apenas uma boneca de pano e decidiu que deveria ser gentil com aquele animal um tanto assustador. Percebeu, ao olhar mais atentamente, que era um tanto desengonçado – principalmente nas tentativas frustradas de acostumar suas patas ao carpete espesso do quarto. Compreendendo o sobressalto nos olhos da boneca, começou a dançar desordenadamente pelo cômodo. Ela começou a rir gostosamente. O crocodilo, surpreso com as reações observadas no semblante da pequena de pano, dançou ainda mais. Os dois sorriram. Nunca houve sorriso mais verdadeiro que aquele.
Quando a música terminou contou toda sua história. Morava num pântano não muito longe dali. Nadava trinta minutos e caminhava por mais trinta até chegar àquela casa. E era muito difícil para um animal daquele tamanho caminhar!
Tinha uma família enorme – crocodilo sempre mora junto. Mas o lodo que cobria o pântano e os ajudavam a viver, tornou-se rançoso e escasso e ele fugia, uma vez por semana, para o mundo que circundava sua habitação.
Segundo o animal, havia uma senhora crocodila que tinha muitos anos – tantos que ninguém sabia ao certo a data de nascimento dela. Era muito respeitada e sua palavra era lei. Considerada a detentora da sabedoria, sempre alertava os descendentes da impossibilidade de viver longe do pântano por mais de quatro horas. Essa crença privava toda a família de um conhecimento externo, mas os mantinha unidos. Explicou que crocodilo que fica fora do pântano tem o couro ressecado e morre aos poucos. Portanto, ele precisava voltar para casa depressa, para não desidratar.
A boneca entendeu a lei máxima que regia a vida do pobre crocodilo e se satisfez com as poucas horas semanais que eram apenas dos dois.
Aquelas noites foram memoráveis. Eles dançaram, comeram, tomaram suco de melão, se abraçaram e o crocodilo conseguia fazer a boneca rir cada vez mais e renascer. Discutiam juntos os problemas dos crocodilos e das bonecas.
Ela contou a ele sua história. Que não tinha família. Da perda do coração. Das tristezas. Ele prometeu a ela que nunca mais sentiria solidão.
O crocodilo era muito discreto e já havia percebido o fio dourado que segurava o coração da pequena. Tinha medo que parasse de bater, pois ele crescia a cada dia.
Resolveu pedir para fazer uma costura – cirurgia simples. Arrumaria carinhosamente o coração e o fio dentro do peito e coseria o remendo. A boneca não sentiu medo algum, confiava nele. No encontro seguinte, com uma linha quase invisível e pontos delicados, o crocodilo consertou sua menina.
Sim, ela era dele, pensava. E ao mesmo tempo, não era.
Os pontos foram cicatrizando e a menina a cada dia ganhava cores e vida. Fascinado, o crocodilo dispensava a ela todo o tempo que podia e muitas vezes chegou ao pântano num horário limite, à beira da morte por desidratação.
Como podia um artefato viver com um animal? No pântano ela não podia viver, pois a família do jacaré a expulsaria de lá, certamente. E ele não poderia viver longe do lodo que hidratava seu couro.
Mas os dois não sabiam, dentro de sua limitação, que havia lodo fora do pântano e aceitação dentro de um cômodo.
No começo, pensava o crocodilo, era movido apenas pela curiosidade – queria inteirar-se da história daquela bonequinha rota que estava fora do lugar. Era gasta. Comparada às bonecas da estante do outro lado do quarto, era feia. Mas agora, tornara-se indispensável à vida dele. Ela havia ensinado a ele que as patas servem para fazer carinho e que os tecidos rotos podem se reconstituir através das palavras que modificam a percepção da vida. E ele ensinou a ela o valor do otimismo e da fé.
Quando estavam juntos, as horas eram preenchidas pela harmonia. Misteriosamente, a boneca começou a criar e ficou mais bela que todas as outras, pois tinha vida quase humana.
Como podia um humano viver com um animal?
Os verões passaram e um dia o inverno tornou-se insuportável novamente. O crocodilo decidiu que não podia ter duas vidas. Resolveu estabelecer sua vida no lodo do pântano.
Deliberadamente, esperava a boneca adormecer e retirava um ponto por vez daquele remendo. Acreditava que se o coração fosse extraído ela poderia novamente voltar à caixa e viver artefatamente insensível.
Mas o crocodilo não sabia que pontos quase cicatrizados doem mais que os recentes. A cada tesourada retirava não apenas parte da linha, mas matava a boneca e a fazia sofrer imensamente. A pequena suportava as dores sem pestanejar. Não mexia um músculo sequer. E fingia não perceber o que acontecia. Chorava as dores copiosamente quando o crocodilo a abandonava.
Quando a dor ficou insuportável, a boneca, num ato de coragem, arrancou o coração com as próprias mãos e o plantou na floreira que enfeitava a janela do quarto. Nessa época, o crocodilo havia espaçado suas visitas e resolveu que iria morrer no pântano. Não sabia ao certo porque fazia aquilo, apesar de perceber que o sentido da vida se esvaía. Não conseguia mudar aquele hábito. Condenou-se a uma vida apenas. Uma vida de crocodilo eterno.
A boneca voltou a ser um artefato usado, mas seu cérebro não parou de funcionar. Foi condenada a pensar e trabalhar sem sentir emoção alguma. Seus olhos perderam todo o viço. Dedicou seus dias à escrita das lembranças de sua vida dentro daquele quarto.
Após plantar seu coração, algo mágico aconteceu - ele se desfaz em raízes e uma esperança em forma de folha verde brotou daquela terra ressequida. Era verão. E ela entendeu – mas não pode sentir - que os verões também podiam ser cruéis.
Aquela folhinha transformou-se numa planta que se espalhou por toda a casa, cobrindo muros, as janelas e portas. A escuridão habitava aquela moradia e a boneca não se importava mais. Como um autômato, escrevia e escrevia sem parar.
Não suportando a separação, o crocodilo resolveu visitar a boneca e se deparou com aquele emaranhado verde que obstruía as entradas da casa. Oculto pela vegetação deu cordas na caixinha de música e a melodia ecoou pela barreira verde, mas não obteve penetração alguma.
Naquela ocasião o réptil chorou todas as suas lágrimas. A boneca, ao longe, podia ouvir - mas não sentia. O cérebro trabalhava compulsivamente e só restaram histórias em páginas amarelecidas pelo tempo.
O crocodilo todas as noites visitava aquele local para derramar suas lágrimas de arrependimento, sem ao menos saber que o coração de sua amada, desfeito em raízes, nunca poderia ser recomposto.
Dizem que na primeira primavera brotaram flores vermelhas e douradas. Resultado dos sentimentos bons que a boneca havia plantado esperançosamente, durante anos, em seu coração. Mas ao simples toque essas flores se desfaziam.
Dizem também que o crocodilo tentou, em vão, colher essas flores que proporcionavam a ele átimos de segundo de sentimentos de amor, antes de sumirem.
Essa história chegou até nós por concessão da irmã do menino desaparecido. Desígnia, num dia de outono, autorizou a queda de algumas folhas. Um forte vento soprou dentro daquele mausoléu desabitado e por um pequenino vão deixado pelas folhas caídas, uma das páginas escritas pela boneca foi levada diretamente às patas do crocodilo, que semanalmente visitava aquele santuário.
O que havia naquela página? A história dos dois.

Fernanda Macahiba.


Fonte: http://contosencantar.blogspot.com.br/2012/01/boneca-e-o-crocodilo.html

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 6.

Em seguida deu uma ordem ao tenente do bando.
— "Olá, Capacete! Diga ao cozinheiro que prepare um pão-de-ló bem grande e bem bonito e que ponha dentro..."
Não pôde terminar. Um tique-taque muito seu conhecido fez-se ouvir perto.
— "O crocodilo!" — berrou o chefe dos piratas, disparando na fuga a todo galope, seguido pelo bando inteiro — e logo se sumiram no horizonte dentro duma nuvem de pó. O crocodilo, tique-taque, os acompanhou sem pressa nenhuma, filosofando que se daquela vez não o havia apanhado, de outra o apanharia.
— A senhora falou em nuvem de poeira, vovó. Mas a floresta não estava coberta de neve? — indagou Narizinho.
— Sim, minha filha. Mas a neve logo que cai, acumula-se solta como farinha. Se dá o vento, voa como poeira. Ora, os piratas fugiram ventando como tia Nastácia diz quando a carreira é séria, e, portanto levantavam nuvens de neve em pó.
— E que aconteceu depois? — quis saber Pedrinho.
— Pelo tropel, os meninos lá embaixo perceberam que os piratas haviam fugido e trataram de sair do subterrâneo. Foram subindo pelos ocos, e ao chegarem à superfície viram que os Peles-Vermelhas estavam na pista dos piratas.
— Que história é essa, vovó? Então os índios eram inimigos dos piratas?
— Eram aliados de Peter Pan e inimigos do Capitão Gancho, contra o qual andavam em guerra feroz.
O modo desses índios fazerem guerra merece ser contado. Eles trepavam às árvores para espiar ao longe, com a mão sobre os olhos em forma de viseira e aplicavam o ouvido sobre a terra para ouvirem os rumores distantes.
Caminhavam de rastos, como cobras, escondendo-se atrás de cada toco de pau ou moita. Levavam arcos e flechas e também um tantã, que entre os índios é o tambor da vitória.
Infelizmente era muito raro ouvir-se o som do tantã, porque os Peles-Vermelhas sempre saíam derrotados e fugiam como lebres.
Mas os meninos, ao porem as cabecinhas fora dos ocos só viram o fim da correria. Em minutos a poeira levantada pelos piratas em fuga e pelos índios perseguidores desapareceu no horizonte.
— Que expressão bonita! — exclamou Emília. — Desapareceu no horizonte!... Acho uma beleza em tudo quanto desaparece no horizonte. Inda hei de escrever uma história cheia de desaparecimentos no horizonte, com três pontinhos no fim...
E a boneca ficou absorta, de olhos pendurados no horizonte, enquanto Dona Benta, a rir-se, continuava a história.
— Passaram os piratas — disse ela. — Depois passaram os índios. Só faltava passar o bando de lobos famintos, que habitualmente acompanham os guerreiros para comer os mortos.
— E vieram os lobos nesse dia?
— Como não? Logo depois surgiram os lobos no horizonte; mas farejando a gentinha de Peter Pan fora do subterrâneo, desistiram de seguir os guerreiros e vieram como flechas devorar os meninos.
Peter Pan, entretanto, já havia descoberto o melhor meio de assustar lobo faminto. Consiste em sair ao encontro deles de costas, com a cabeça entre as pernas. Os lobos entreparam, desnorteados, não podendo compreender que espécie de animal é aquele, e depois fogem com velocidade maior ainda que a do Capitão Gancho ao ouvir o tique-taque do crocodilo.
Assim que os lobos famintos chegaram a uma certa distância, os seis meninos, guiados por Bicudo, correram-lhes ao encontro de costas, com a cabeça entre as pernas.
Foi uma beleza! Os lobos entrepararam uns segundos e em seguida voltaram-se nos pés e sumiram-se dentro da floresta.
Ora graças! Os meninos perdidos podiam enfim brincar sossegadamente de pegador ou chicote-queimado à luz do lindo luar que fazia. Mas não brincaram, porque Cachimbo lhes chamou a atenção para qualquer coisa no céu.
— "Olhem! Lá vem voando para o nosso lado uma espécie de pássaro branco bem grande..."
Todos ergueram o nariz e arregalaram os olhos. Não podiam compreender que pássaro fosse aquele. Não parecia garça, nem outra qualquer ave conhecida. Súbito, uma bola de fogo riscou o ar, vindo descer bem no meio deles. Era a fada Sininho.
— "Peter Pan manda dizer" — declarou ela nervosamente na sua linguagem do tlin, tlin, tlin — "que é preciso matar quanto antes essa ave que vem vindo."
Cachimbo, o melhor atirador do grupo, desceu imediatamente ao subterrâneo, de onde voltou com um arco e uma flecha. Ajustou a flecha ao arco, fez pontaria, esticou a corda e — zuct! — A flecha lá se foi assobiando e deu certinho no alvo. A ave branca vacilou no voo, cambaleou, descrevendo um parafuso e veio cair junto ao grupo. Todos correram para apanhá-la.
— "Não é ave!" — exclamaram cheios de surpresa. — "É uma linda menina de camisola branca. Talvez seja a tal mãezinha que Peter Pan vive prometendo trazer-nos."
Era Wendy, que se tinha adiantado dos demais durante o voo. A fada Sininho havia cometido aquela traição porque estava a roer-se de ciúmes: Gostava de Peter Pan e não podia suportar as atenções e requebrados do menino para com a sua nova conhecida. Daí lhe veio a ideia de fazê-la flechar por um dos meninos.
Nisto chegou Peter Pan, seguido de João Napoleão e Miguel. Assim que pôs o pé em terra, foi logo indagando:
— "Onde está Wendy?" — Ao saber que Wendy havia sido flechada, teve um grande acesso de cólera e passou mão do arco para também flechar Cachimbo no coração. E flechava mesmo, se não fosse Wendy despertar do desmaio ainda a tempo de impedir tamanho crime.
Wendy não havia sido ferida, porque a flecha batera justamente no botão-beijo que Peter Pan lhe havia dado. Só sentiu o choque da flecha; e como já estivesse cansada e tonta de tanto voar, bastou isso para fazê-la perder os sentidos e cair.
Vendo que ela estava vivinha, os meninos a rodearam na maior alegria, embora sem saber o que fazer. Levar Wendy para a morada subterrânea não lhes parecia bem.
Deixá-la por ali ao relento, era pior. O único remédio seria construir-lhe uma casinha bem ajeitada. Estavam a discutir esse ponto quando Wendy começou a cantar uma cantiga em verso por ela mesma inventada, assim:

Uma casinha quero ter,
Que menor não haja no mundo;
Terreiro bem limpo na frente,
Jardim de mil flores no fundo.

— "Pronto! Já sabemos o que ela quer!" — exclamaram os meninos em coro. — "Vamos fazer a casinha de Wendy, com jardim de mil flores ao fundo."
E foi uma lufa-lufa. Bicudo correu a cortar paus na floresta; Cachimbo desceu ao subterrâneo em procura duma velha grade muito ajeitada para a armação do teto; Assobio foi em busca dum pedaço de tapete velho e dum rolo de encerado.
Num instante ficou pronta a casinha. Peter Pan observou que haviam esquecido a chaminé. Onde já se viu casa sem chaminé? Correu os olhos em torno, em procura, e deteve-os no Miguel, que tinha na cabeça a cartola de seu pai.
— "Ótimo!" — gritou Peter Pan tomando a cartola. — "Melhor chaminé do que esta não é possível" — e arrumou-a em cima do teto.
E tudo mais foi assim. O material de construção mais empregado era o "faz-de-conta". Não tem fechadura na porta? Faz de conta que esta fivela é fechadura. Não tem cadeira? Faz de conta que esta pedra é cadeira.
Wendy não precisou entrar na casinha, porque a casinha havia sido construída em redor dela — e foi a primeira vez no mundo que semelhante coisa aconteceu.
Pronta a casa com a dona dentro, Peter Pan veio e bateu na porta — toque, toque, toque. Wendy surgiu à janela e perguntou quem era.
— "São os meninos perdidos que desejam saber se a menina está disposta a ser a mãezinha deles. Nunca tiveram mãe e querem experimentar se é bom."
— "Com muito gosto" — respondeu Wendy. — "Serei mãe de todos, contarei histórias à noite, remendarei as roupas de dia, agradarei aos que chorarem e ralharei com os que fizerem coisas inconvenientes — tudo igualzinho como mamãe faz lá em casa. Mas só serei mãe se Peter Pan quiser ser o pai."
Todos bateram palmas, numa grande alegria. Iam ter mãe afinal. Iam ter quem lhes contasse histórias — que maravilha!
— "História! História!" — exclamaram. — "Para começar, conte já uma linda história" — e os meninos foram entrando para a casinha, em atropelo. Era incrível que lá coubessem todos, mas couberam. Para isso foi preciso que se arrumassem com a habilidade e o jeito com que as sardinhas se arrumam dentro das latas.
Logo que todos se acomodaram, Wendy começou assim:
— "Era uma vez uma pobre menina chamada Cinderela" — e foi por aí além até que o sono tomasse conta de toda a sua filharada.
Tudo dormiu. Dormiu a floresta o seu sono agitado de morcegos, pios de coruja e uivos de lobo. Dormiu o crocodilo, lá longe. Dormiram os piratas; e os índios, vendo o inimigo a dormir, deixaram a perseguição para o dia seguinte e dormiram também.
Só não dormiu Peter Pan. Passou toda, a noite fora, de espada na mão, montando guarda à casinha da jovem mãe que havia arranjado para os meninos perdidos.
Dona Benta parou nesse ponto, achando que o melhor era também irem dormir.
— Chega por hoje. O resto fica para amanhã. Agora é cada um ir para sua cama sonhar com o Capitão Gancho e o crocodilo
— Credo! — exclamou tia Nastácia, erguendo-se. — Eu quero sonhar com Dona Wendy, que é tão galantinha. Mas com esse canhoto malvado, Deus me livre!
Pedrinho deu um suspiro. Estava lamentado não haver fugido para a Terra do Nunca tio dia em que nasceu.
Narizinho também suspirou. Quanto não daria para ser Wendy Darling?
Só Emília não suspirou, nem disse nada. Saiu dali muito quieta e foi mexer na caixa de ferramentas de Pedrinho.
Dona Benta encontrou-a lá, lidando para entortar um prego.
— Que é que está fazendo, Emília?
— Estou vendo se faço uma munheca de gancho como a do Capitão.
— E para que, bobinha?
— Para assustar tia Nastácia. Quero ganchar aquele beição dela...

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domingo, 18 de setembro de 2016

Sim, não, espera.

Outro dia, levei por escrito para minha mãe a lista de presentes que desejava ganhar no Natal: uma bola de futebol, um jogo de videogame e um celular.
A resposta também veio por escrito e dizia: Sim, não, espera.
Sem entender o bilhete, fui pedir explicações. Ela disse que cada palavra era a resposta para um dos meus pedidos. Logo:

Bola = Sim
Jogo de videogame = Não
Celular = Espera

Assim, entendi que vou ganhar a bola, mas ela não vai me dar o jogo de videogame que pedi porque é um jogo de guerra.
- Filho, não é bom e educativo ficar “fazendo guerra”, dando tiros, jogando bombas, destruindo cidades e matando pessoas, mesmo que seja de brincadeira. Esse jogo de videogame é igual a uma arma de brinquedo. Não quero que você cresça achando que matar é divertido ou correto.
Ela também explicou que a terceira resposta é espera porque ainda não é o momento certo para eu ganhar um celular:
- Tudo tem seu tempo, filho. Em um futuro próximo, dependendo da sua maturidade e responsabilidade, poderá ganhar um celular. Agora ainda é cedo, tenha um pouco de paciência.
Apesar de não concordar, afinal, já tenho onze anos, sei que por enquanto não vou ganhar o celular. Para completar mamãe explicou que Deus também usa sim, não, espera para responder ao que nós pedimos a Ele.
- Deus nos atende quando pedimos algo que merecemos ou que vai auxiliar na nossa evolução espiritual. Quando não somos atendidos, depois de um tempo, percebemos que nosso pedido não era legal para nós e que não foi a melhor resposta.
Como percebeu que eu ouvia atentamente, ela completou:
- Quando Deus responde espera, temos que confiar Nele. Também devemos orar, ter fé e paciência porque Ele sabe o que é melhor para nós.
Pensando bem, não vou brigar, nem ficar emburrado porque não vou ganhar tudo o que pedi. Sei que reclamar não vai adiantar e que o melhor a fazer é esperar e não discutir. Afinal, minha mãe sabe muito e, assim como Deus, também usa sim, não, espera...

Claudia Schmidt.


Fonte: http://www.searadomestre.com.br/evangelizacao/estoria.htm#simnaoespera

Atividade:

Colorir:


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Árvore de Amigos.

Existem pessoas em nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples fato de terem cruzado o nosso caminho.
Algumas o percorrem ao nosso lado, vendo muitas luas passarem, mas outras apenas vemos entre um passo e outro.
A todas elas chamamos de amigo.
Há muitos tipos de amigo.
Talvez cada folha de uma árvore caracterize um deles.
O primeiro que nasce do broto é o amigo pai e o amigo mãe.
Mostram o que é ter vida.
Depois vem o amigo irmão, com quem dividimos o nosso espaço para que ele floresça como nós.
Passamos a conhecer toda a família de folhas, a qual respeitamos e desejamos o bem.
Mas o destino nos apresenta outros amigos, os quais não sabíamos que iam cruzar o nosso caminho.
Muitos desses denominados amigos do peito, do coração.
São sinceros, são verdadeiros.
Sabem quando não estamos bem, sabem o que nos faz feliz…
Às vezes, um desses amigos do peito estala o nosso coração e então é chamado de amigo namorado.
Esse dá brilho aos nossos olhos, música aos nossos lábios, pulos aos nossos pés.
Mas também há aqueles amigos por um tempo, talvez umas férias ou mesmo um dia ou uma hora.
Esses costumam colocar muitos sorrisos na nossa face, durante o tempo que estamos por perto.
Falando em perto, não podemos esquecer dos amigos distantes.
Aqueles que ficam nas pontas dos galhos, mas que, quando o vento sopra, sempre aparecem novamente entre uma folha e outra.
O tempo passa, o verão se vai, o outono se aproxima, e perdemos algumas de nossas folhas.
Algumas nascem num outro verão e outras permanecem por muitas estações.
Mas o que nos deixa mais feliz é que as que caíram continuam por perto, continuam alimentando a nossa raiz com alegria.
Lembranças de momentos maravilhosos enquanto cruzavam com o nosso caminho.
Desejo a você, folha da minha árvore, paz, amor, saúde, sucesso, prosperidade. Hoje e Sempre… Simplesmente porque cada pessoa que passa em nossa vida é única, sempre deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.
Há os que levaram muito, mas não há os que não deixaram nada.
Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente de que duas almas não se encontram por acaso.


- autor desconhecido-

Atividade:

Imprimir a imagem para que as crianças façam folhas na copa da árvore com as carinhas dos amigos e depois pintar.

Tema: amizade, amor ao próximo, cooperação, respeito.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Alice no País das Maravilhas. Capítulo 12 - O depoimento de Alice. Último capítulo.

"Presente” gritou Alice, esquecendo na excitação do momento o quanto tinha crescido nos últimos minutos. Ela saltou com tamanha pressa que acabou virando o banco do júri com a barra da saia, deixando os jurados de cabeça para baixo, esperneando. Alice lembrou-se muito do aquário de peixinhos dourados que tinha virado acidentalmente na semana anterior.
 “Oh, eu peço mil perdões!”, ela exclamou consternada, e começou a levantá-los o mais rapidamente que podia, pois o acidente com os peixinhos ainda estava em sua mente e ela estava com a sensação de que se não os recolocasse nos seus lugares eles poderiam morrer.
“A audiência não poderá prosseguir”, disse o Rei, com uma voz grave, “até que os jurados estejam de volta a seus lugares... todos”, ele repetiu com grande ênfase, olhando duramente para Alice ao falar.
Alice olhou para o banco dos jurados e percebeu que, em sua pressa, tinha colocado o Lagarto de cabeça para baixo e a pobre coisinha estava lá, agitando melancolicamente a cauda, incapaz de se mover. Ela apanhou-o novamente e colocou o pobre de cabeça para cima. “Não que isso mude alguma coisa”, disse para si mesma, “eu penso que de uma maneira ou de outra ele tem a mesma utilidade.”
Tão logo o júri recuperou-se do choque e que suas lousas e lápis foram encontrados e devolvidos, eles sentaram-se e começaram a trabalhar diligentemente no relato do acidente. Todos, exceto o Lagarto, que parecia muito chocado para fazer outra coisa que ficar com a boca aberta, olhando para o teto da corte com os olhos esgazeados.
“Que você sabe a respeito do caso?”, o Rei perguntou a Alice.
“Nada”, respondeu Alice.
“Nada de nada?”, insistiu o Rei.
“Nada de nada”, disse Alice.
“Isso é muito importante”, disse o Rei, voltando-se para o júri. Os jurados estavam começando a escrever em suas lousas quando o Coelho interrompeu:
“Desimportante, é o que Vossa Majestade quer dizer, claro”, ele disse, em um tom respeitoso, mas franzindo o cenho e fazendo caretas.
“Desimportante, é claro, foi o que eu quis dizer”, o Rei retomou rapidamente, e continuou falando consigo mesmo a meia-voz “importante... desimportante... desimportante... importante...” como se estivesse procurando qual palavra soava melhor.
Alguns dos jurados escreveram “importante” e alguns “desimportante”. Alice pôde ver porque estava perto o suficiente para ver as lousas. “Mas isso não tem a menor importância”, ela pensou consigo mesma.”
 Nesse momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo alguma coisa em um caderno de anotações, gritou: “Silêncio!” e leu o que estava escrito.
“Artigo Quarenta e dois. Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem abandonar o tribunal.”
Todo mundo olhou para Alice.
“Eu não tenho mais de um quilômetro e meio”, disse Alice.
“Tem sim”, disse o Rei.
“Quase três quilômetros”, completou a Rainha.
“Bem, de qualquer jeito, não vou embora”, disse Alice. “Além do mais, esse artigo não é legal, pois vocês acabaram de inventá-lo.”
“É o artigo mais antigo do código”, retrucou o Rei.
“Então deveria ser o Número Um”, argumentou Alice.
O Rei empalideceu, fechando seu livro de notas rapidamente.
“Façam seu veredito”, o Rei ordenou ao júri, com uma voz baixa e trêmula.
“Por favor, Vossa Majestade, ainda há evidências a serem examinadas”, disse o Coelho Branco, levantando-se apressado. “Esse papel acabou de ser descoberto.”




“O que há nele?”, perguntou a Rainha.
“Eu ainda não abri”, respondeu o Coelho Branco, “mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para... para alguém.”
“Para quem ela é endereçada?”, perguntou alguém do júri.
“Não está endereçada a ninguém”, disse o Coelho Branco. “Na verdade, não tem nada escrito do lado de fora.” Ele foi abrindo o papel enquanto falava e completou: “Não é uma carta, afinal, são apenas versos.”
“E é a letra do prisioneiro?”, perguntou outro jurado.
“Não, não é”, respondeu o Coelho Branco, “e isso é o mais estranho.” (Os jurados pareciam confusos.)
“Talvez ele tenha imitado a letra de outra pessoa”, disse o Rei. (O júri ficou alegre novamente.)
“Por favor, Vossa Majestade”, pediu o Valete. “Eu não escrevi isso e ninguém pode provar que fui eu: não há nenhum nome assinado no final.”
“Se você não assinou”, disse o Rei, “apenas torna a situação pior para você. Com certeza você estava fazendo alguma coisa errada, senão teria assinado seu nome como um homem honesto.”
Houve um aplauso geral: aquilo fora a primeira coisa inteligente que o Rei tinha falado naquele dia.
“Isso prova sua culpa, logicamente”, continuou a Rainha, “portanto, cortem-lhe a...”
“Isso não prova coisa alguma”, gritou Alice. “Vocês nem ao menos sabem o que dizem os versos!”
“Leia-os”, ordenou o Rei.
O Coelho Branco colocou seus óculos. “Por onde devo começar, se Vossa Majestade permite?”, ele perguntou.
“Comece pelo começo”, disse o Rei com muita gravidade, “e siga até o fim: daí pare.”
Fez-se um silêncio mortal na corte enquanto o Coelho Branco lia estes versos:

Eles falaram que você chegou perto dela
E de mim para ela falou
Ela achou que eu era um bom caráter
Mas não me deixou nadar ainda assim.

Ele deu sua palavra que não tinha sido eu
(E todos sabemos isso é verdade)
Se ela quisesse mesmo saber
O que aconteceria com você?

Eu dei para ele um, eles lhe deram então dois,
Você para nós deu três ou mais
Eles todos devolveram os seus
Mas todos eram meus antes

Se houvesse chance de ela ou eu
Estarmos envolvidos nesse problema
Ele pediria a vocês para libertá-los
E fomos libertados.

Eu achava que era o que tinha sido
(Antes de ela dar seu estrilo)
Um obstáculo que apareceu
Entre ele, nós e aquilo.

Não o deixe ver que ela a eles tem amado
Para sempre deve ser
Um segredo, de todos mantido a parte
Entre você e eu.

“Esta é a prova mais importante que já ouvimos aqui”, disse o Rei esfregando as mãos, “portanto, vamos agora aos jurados...”
“Se algum deles for capaz de entender os versos”, disse Alice (a menina tinha crescido tanto nos últimos minutos que não estava com medo nenhum de interromper o Rei), “eu lhe darei seis pence. Eu acho que não há um mínimo de sentido em nada.”
Todo o júri escreveu, em suas lousas. “Ela acha que não há um mínimo de sentido em nada”. Mas nenhum deles se habilitou a explicar os versos.
“Se não há sentido neles”, disse o Rei, “isso livra o mundo de um incômodo, você sabe, não precisamos procurar um. E eu não sei não”, ele continuou desdobrando o papel sobre os joelhos, olhando para ele de rabo de olho, “eu até diria que há algum sentido neles, afinal de contas ‘... Mas disse que eu não sei nadar...’ Você não sabe nadar, sabe?”, ele perguntou virando-se para o Valete.
O Valete balançou a cabeça tristemente. “Eu pareço com alguém que sabe nadar?”, ele respondeu (Certamente que não, pois ele era uma carta de baralho feita de papelão.)
“Tudo bem por enquanto”, disse o Rei, que continuou a falar sobre os versos para si mesmo: “E isso, nós sabemos, é verdade... isso é o júri, claro... Porém, se ela quisesse ir ao fim... isso deve ser a Rainha... Que seria de ti, saber quem há de?... O quê, afinal?... Deram duas a ele, a ela dei uma... ora, isso deve ser o que ele fez com as tortas, certo?”
“Mas os versos continuam com Todas voltaram, não faltou nenhuma”, disse Alice.
“Certo, lá estão elas!”, disse o Rei com ar de triunfo, apontando para as tortas sobre a mesa. Nada poderia ser mais claro que isso. Depois vem... Antes dela dar seu estrilo... você nunca deu estrilo algum, não é, minha querida?“, ele disse para a Rainha.
“Nunca!”, respondeu a Rainha furiosamente, jogando um tinteiro em cima do Lagarto enquanto falava. (O infeliz pequeno Bill tinha parado de escrever na lousa com o dedo, pois percebera que de nada adiantava; mas depois do ataque começou a escrever novamente usando a tinta que lhe escorria pela cara, enquanto não secava.)
“Então suas palavras têm estilo”, disse o Rei olhando para o tribunal com um sorriso. Havia um silêncio de morte.
“É um trocadilho!”, o Rei completou com raiva, e então todo mundo começou a rir. “Deixemos o júri considerar seu veredito”, disse o Rei, mais ou menos pela vigésima vez no dia.
“Não, não!”, disse a Rainha. “A sentença primeiro... depois o veredito.”
“Que disparate!”, disse Alice em voz alta. “Que ideia imbecil esta da sentença antes!”
“Dobre sua língua”, gritou a Rainha, vermelha de raiva.
“Não dobro não!”, respondeu Alice.
“Cortem-lhe a cabeça!”, a Rainha berrou o mais alto que pôde. Ninguém se mexeu.
“Quem se importa com você?”, disse Alice (que acabara de voltar ao seu tamanho normal). Vocês não passam de um baralho de cartas!”
Nesse instante todo o baralho voou no ar, começando depois a cair sobre Alice; ela deu um gritinho, meio com medo, meio com raiva, tentando rebatê-las. A menina achou-se então deitada no barranco com a cabeça no colo da irmã, que gentilmente afastava algumas folhas secas que tinham caído da árvore sobre elas.
“Acorde, Alice querida!”, disse a irmã. “Nossa, que sono pesado você teve!”
“Puxa, que sonho estranho que eu tive!”, disse Alice. Então ela contou para a irmã, tão bem quanto pôde lembrar as estranhas Aventuras que vocês acabaram de ler. Então, depois que terminou, sua irmã deu-lhe um beijo e disse “Foi um sonho curioso, querida, certamente; mas agora se apresse, é hora do chá: está ficando tarde.”
Alice levantou-se e saiu correndo, pensando enquanto corria que aquele tinha mesmo sido um sonho maravilhoso.
Mas sua irmã ficou lá mesmo, com a cabeça entre as mãos, pensando na pequena Alice e em suas maravilhosas Aventuras, até que ela mesma começou a sonhar e este foi seu sonho...
Primeiro, ela sonhou com a pequena Alice: mais uma vez suas mãozinhas estavam pousadas nos joelhos e seus olhos brilhantes olhavam para ela... ela podia até mesmo ouvir os diferentes tons da sua vozinha e ver aquele jeito só dela de atirar a cabeça para trás e afastar as mechas de cabelo que sempre teimavam em lhe cair sobre os olhos...e enquanto escutava, ou parecia que escutava, todo o espaço envolta dela ia ficando repleto daquelas estranhas criaturinhas do sonho da irmãzinha.
A grama farfalhava sob os pés do apressado Coelho Branco... o Rato assustado espalhava água para fora da lagoa...ela podia ouvir o tilintar das xícaras de chá enquanto a Lebre de Março e seus amigos partilhavam da sua refeição que nunca acabava, e a vozinha aguda da Rainha ordenando a execução dos seus infelizes convidados...mais uma vez o bebê-porco estava espirrando no colo da Duquesa, enquanto pratos e travessas se espatifavam em volta...e mais uma vez o guincho do Grifo, o ranger do giz do Lagarto e os tais aplausos sufocados dos porcos-da-índia enchiam o ar, misturados com os soluços distantes da miserável Falsa Tartaruga.
Sentada, com os olhos fechados, quase acreditou estar ela mesma no País das Maravilhas, mesmo sabendo que quando abrisse os olhos novamente tudo voltaria a ser a chata realidade de sempre... a grama se mexeria apenas com o vento e a lagoa estaria se movimentando apenas com os juncos...o tilintar da xícaras novamente seria o badalar dos sinos pendurados nos pescoços dos carneiros...os gritos agudos da Rainha seriam apenas os berros do pastor...o espirro do bebê, o guincho do grifo, e todas as outras coisas esquisitas iriam transformar-se (ela sabia) no confuso clamor da vida no campo...assim como o mugir do gado à distância iria tomar lugar dos pesados soluços da Falsa Tartaruga.
Finalmente, ela imaginou como sua irmãzinha, no futuro, transformar-se-ia em uma mulher adulta: e como ela iria manter através da sua maturidade o mesmo coração simples e afetuoso da sua infância: como também ela sempre estaria cercada de criancinhas e faria os olhos delas brilharem com muitas histórias estranhas, talvez até mesmo com o sonho do País das Maravilhas de há muito tempo atrás; como ela adoraria compartilhar com suas tristezas simples e alegrar-se com suas brincadeiras ingênuas, lembrando-se da sua própria infância e daqueles felizes dias de verão.
FIM.


Alice no País das Maravilhas.
Lewis Carroll.

Ilustrações de John Tenniel.


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