terça-feira, 9 de abril de 2019
terça-feira, 12 de março de 2019
Mãos Aventureiras : Ernest e Celestine perderam Simão - Historinha em Libras.
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Peter Pan - Rumo à terra do Nunca.
Continuação da história, clique AQUI capítulo anterior.
— "Moro
com os meninos perdidos."
—
"Fiquei na mesma. Quem é essa gentinha? Nunca ouvi falar em meninos
perdidos."
—
"Meninos perdidos são os meninos que caem dos carrinhos nos jardins
públicos quando as amas se distraem a namorar os soldados. Se as mães deles não
conseguem encontrá-los no prazo de quinze dias, eles são remetidos para a Terra
do Nunca, onde quem manda sou eu.”
— "Que
engraçado!" — exclamou Wendy. — "Terra do Nunca! Está aí uma terra
que eu não sabia que existisse. As geografias não falam dela. E depois? Que ideia
a sua, de aparecer por cá esta noite?"
— "Eu
costumo vir sempre" — respondeu Peter Pan — "para escutar do lado de
fora da janela as histórias tão lindas que sua mãe conta. Tantas vezes vim que
sou capaz de repetir uma por uma todas as histórias que vocês já ouviram."
— "Mas
como é lá na Terra do Nunca?"
— "Oh,
uma terra linda, Wendy! Temos piratas terríveis num grande lago, temos alcateias
de lobos famintos que percorrem a floresta e temos uma tribo de índios ferozes,
os Peles-Vermelhas, como são chamados. E temos ainda as sereias."
—
"Sereias?" repetiu Wendy batendo palmas. — "Com cauda?"
— "Com
cauda, escamas e tudo. Sereias iguaizinhas a essas que você vê pintadas nos
livros. Uma lindeza, Wendy!"
Wendy não
cabia em si de encantamento ante as maravilhas contadas por Peter Pan: Ele,
porém, alegou que era tarde e tinha de ir-se embora.
— "Os
meninos perdidos já devem estar inquietos com a minha ausência, e ansiosíssimos
por ouvir o fim da história que a Senhora Darling contou hoje. Já sabem a
primeira parte. Eu venho cá, ouço as histórias ali da janela e depois as conto
a eles direitinho."
— "Não
vá ainda!" — pediu Wendy. — "Eu sei mais de cem histórias, cada qual
mais bonita, e se você ficar eu as contarei todas. Fique."
— "Mais
de cem histórias? Oh, que mina!" — exclamou Peter Pan, batendo palmas. —
"Nesse caso o melhor seria ir você comigo para a Terra do Nunca. Poderá
contar todas essas histórias aos meninos perdidos, poderá ainda remendar a roupa
deles, pregar botões e de noite fazê-los dormir — tudo como a
Senhora Darling
faz aqui. Oh, Wendy, venha comigo..."
A tentação
era enorme. Visitar um país daqueles, com feras e piratas e índios e sereias, e
ter ainda toda aquela meninada para brincar! Que bom não
seria... Mas
a menina vacilava.
— "Não
posso, Peter Pan. Mamãe não o consentiria nunca. E, além disso, deve ser muito
longe essa terra."
— "Que
importa que seja longe? Iremos voando, e para quem voa não há distâncias."
—
"Voando? Mas eu não sei voar, Peter Pan! Que ideia..."
— "Eu
ensino, não seja essa a dúvida. Em dois minutos deixo você voando que nem uma
andorinha."
Aquilo era
demais. Era ainda melhor do que ver sereias. Voar, voar...
Wendy não
pôde resistir à tentação: resolveu que iria. Em todo caso, duvidou um pouco.
— "Já
disse que ensino" — assegurou Peter Pan com firmeza. — “Eu, quando digo,
faço”.
— "E
ensina também ao Joãozinho e ao Miguel? Se formos para lá temos de ir
todos."
—
"Ensino, sim, claro que ensino. Está resolvida? Vai mesmo?"
—
"Estou resolvida, vou!" — respondeu Wendy com firmeza — e pulando da
cama foi acordar os irmãozinhos.
João
Napoleão e Miguel sentaram-se na cama esfregando os olhos, e logo que souberam
do caso, deram pulos de contentamento. Gostavam de piratas e sereias ainda mais
que Wendy e, portanto ficaram ainda mais assanhados.
Queriam
partir incontinenti.
—
"Isso, não!" — disse Peter Pan. — "Antes de mais nada vocês precisam
tomar umas lições de voo."
— "É
fácil voar?" — indagou Miguel.
— "É
assim" — e Peter Pan deu uma demonstração, esvoaçando pelo quarto como se
fosse uma borboleta.
Vendo a
facilidade, os meninos tentaram fazer o mesmo. Subiram às camas, ergueram os
braços e atiraram-se. Mas foi só tombo. Esborracharam-se no tapete.
Peter Pan
riu-se.
— "Não
é assim, meninos. Eu tenho de soprar em vocês um pó mágico que certa fada me
deu" — e dizendo isto sacou do bolso uma caixinha do pó mágico e soprou
uma pitada no nariz de cada um; depois mandou que experimentassem, que subissem
às camas, erguessem os braços e dessem outro pulo para o ar.
Os meninos
experimentaram e com grande assombro viram que estavam leves como plumas e que
podiam equilibrar-se no ar com a maior facilidade.
—
"Estou que nem esses balõezinhos de borracha que mamãe enche de gás"
— disse Miguel. — "Estou sem peso nenhum!" — e voou quase tão bem como
Peter Pan. Por falta de experiência os três voadores deram algumas cabeçadas no
forro, mas alguns minutos depois estavam que nem uma andorinha que havia ficado
presa no quarto dois dias antes.
Vendo-os
nesse ponto, Peter Pan achou que não era preciso mais.
Podiam
partir.
—
"Muito bem" — disse ele. — “Podemos partir”. Sininho seguirá na frente,
para indicar o caminho. Em segundo lugar vou eu com Wendy. Depois vai João
Napoleão e por último, Miguel. Aprontem-se para partir.
Foi uma
correria. João Napoleão quis levar uma porção de coisas, mas teve que desistir
porque ficaria muito pesado. Miguel correu ao vestíbulo da casa em busca dum
gorro e como não o encontrasse veio com uma cartola do Senhor Darling na
cabeça. Wendy resolveu ir como estava, de camisola mesmo.
—
"Pronto?" — perguntou Peter Pan.
—
"Pronto" — responderam todos.
—
"Então vamos lá. Um, dois e... três!"
Ouviu-se um
prrrrr... E ergueram-se nos ares os quatro meninos, na ordem mareada pelo chefe
e com a bola de fogo voando à frente para indicar o caminho. E lá se foram para
a maravilhosa Terra do Nunca...
Justamente
naquela hora Mrs. Darling estava na sala de jantar contando ao marido a
história da sombra. O Senhor Darling sorria.
—
"Impossível, querida. Isso há de ser sonho. É um absurdo."
Nisto soou o
prrrrr... Julgando que fosse alguma coruja que houvesse entrado na nursery, a
Senhora Darling correu para lá. Ao ver a janela aberta e as três camas vazias,
deu um grito e desmaiou.
Neste ponto
Dona Benta interrompeu a história, deixando o resto para o dia seguinte.
Aguardem a continuação aqui no blog.
Peter Pan por Monteiro Lobato - Domínio Público.
terça-feira, 5 de março de 2019
sábado, 23 de fevereiro de 2019
Peter Pan e o caso da sombra.
Dona Benta
sentou-se na sua cadeira de pernas serradas, subiu para a testa os óculos de
aro de ouro e começou:
— Era uma
vez uma família inglesa...
— Espere
Sinhá! Não Comece ainda — gritou lá da copa tia Nastácia. — Eu também faço
questão de conhecer a história desse pestinha.
Estou
acabando de lavar as panelas e já vou.
Dona Benta
esperou que a negra chegasse, apesar do protesto da Emília, que disse: — "Bobagem!
Para que uma cozinheira precisa saber a história de Peter Pan?"
Tia Nastácia
veio e escarrapachou-se no assoalho, entre o Visconde e a menina. Só então Dona
Benta começou de verdade.
— Havia na
Inglaterra uma família inglesa composta de pai, mãe e três filhos — uma menina
de nome Wendy (pronuncia-se Uêndi), que era a mais velha; um menino de nome
João Napoleão, que era o do meio; e outro de nome Miguel, que era o caçulinha.
Os três tinham o sobrenome de Darling, porque o pai se chamava não sei quê
Darling. Esses meninos ocupavam a mesma nursery numa linda casa de Londres.
— Nursery? —
repetiu Pedrinho. — Que vem a ser isso?
— Nursery
(pronuncia-se nârseri) quer dizer em inglês, quarto de crianças. Aqui no
Brasil, quarto de criança é um quarto como outro qualquer e por isso não tem o
nome especial. Mas na Inglaterra é diferente. São uma beleza os quartos das
crianças lá, com pinturas engraçadas rodeando as paredes, todos cheios de
móveis especiais, e de quanto brinquedo existe.
— Boi de
chuchu, tem? — indagou Emília.
— Talvez não
tenha, porque boi de chuchu é brinquedo de meninos da roça, e Londres é uma
grande cidade, a maior do mundo. As crianças inglesas são muito mimadas e têm
os brinquedos que querem. Os brinquedos ingleses são dos melhores.
— E os
brinquedos alemães, vovó? Ouvi dizer que há na Alemanha uma cidade que é o
centro da fabricação de brinquedos.
— E é
verdade, meu filho. Nuremberg: eis o nome da capital dos brinquedos.
Fabricam-nos lá de todos os feitios e de todos os preços, e exportam-nos para
todos os países do mundo.
— E aqui,
vovó?
— Aqui essa
indústria está começando: Já temos algumas fábricas de bonecas e outras de
carrinhos, cavalinhos de pau, trenzinhos de folha, patinhos de celuloide,
gaitas de assoprar, etc. etc.
Pedrinho
declarou que quando crescesse ia montar uma grande fábrica de brinquedos da
maior variedade possível, e que lançaria no mercado bonecos representando o
Visconde de Sabugosa, a Emília, o Rabicó etc. Todos gostaram muito da ideia e
Dona Benta voltou ao assunto.
— Pois é
isso. Aquela nursery era um encanto. Imaginem que quem tomava conta das
crianças era a Nana.
Alguma
criada?
Não. Uma
cachorra muito inteligente. Era Nana quem dava banho nas crianças, quem as
vestia para dormir e tudo mais — e muito direitinho.
Na noite em
que a nossa história começa, Nana estava cochilando perto da lareira, com a
cabeça entre as patas, enquanto no cômodo pegado o Senhor e a Senhora Darling
se preparavam para uma visita a uns parentes.
Quando o
casal saía de noite quem ficava tornando conta dos meninos era sempre a
cachorra. Nisto o relógio bateu oito horas — bem, bem, bem, bem, bem, bem...
— A senhora
errou, Dona Benta! — berrou logo Emília, que não deixava escapar coisa nenhuma.
— A senhora só bateu seis bens.
Dona Benta
riu-se.
— Não faz
mal — disse ela. Os dois que faltam ficam subentendidos.
Mas o
relógio bateu oito horas e Nana ergueu-se e espreguiçou-se, porque a ordem da
Senhora Darling era fazer a criançada ir para a cama a essa hora justa. Depois
Nana acendeu a luz elétrica.
— Como?
— Ela sabia
agarrar com a boca a chave da luz e torcer. Estava acostumada a fazer isso.
Acendeu a luz e foi ver os pijamas de cada um. E foi ao banheiro abrir a
torneira de água quente e fria, experimentando a água com a pata para ver
se-estava no ponto.
— Que
danada! Por que a senhora não nos arranja uma cachorra assim, vovó?
— Porque
vocês só querem saber de onças e rinocerontes e bichos esquisitos. Mas deixem
estar que ainda ponho um Cachorrinho aqui em casa.
— E há de
chamar-se Japi! — gritou Emília, que sempre fora a botadeira de nomes. — Mas
continue Dona Benta. A Nana encheu a banheira e que mais?
— Preparou a
água do banho e foi buscar o Miguel, que era o menorzinho, e Miguel veio
montado nela, dando esporadas. Nana fê-lo apear-se e entrar n’água, e foi
fechar a porta para que não houvesse corrente de ar. Depois de acabado o banho,
deu o pijaminha para Miguel vestir e levou-o para a cama.
Nesse
momento a mãe dos meninos entrou no quarto para ver se estava tudo em ordem.
Animou a todos, um por um, prometeu um passeio ao jardim zoológico, para que
vissem a enorme goela vermelha do hipopótamo e o pescoço que não acaba mais da
girafa. Depois contou uma história linda.
— Que
história ela contava? — quis saber Emília.
— Quantas
existem. As mesmas que já contei a vocês e muitas outras. Depois distribuiu
beijos, dizendo: — "Agora tratem de dormir." Acendeu uma lamparina de
luz muito fraca, apagou a luz elétrica e ia saindo na ponta dos pés, quando
notou uma sombra esquisita na parede — uma sombra que vinha da rua. Voltou-se
de repente e viu do lado de fora o vulto dum menino.
Assustou-se,
está claro, porque as boas mães se assustam por qualquer coisinha e correu a
fechar a vidraça. Fez isso tão depressa que a sombra não teve tempo de
retirar-se e foi guilhotinada. Por essa e outras é que as tais vidraças de
subir e descer, como as nossas aqui do sítio, são chamadas "vidraças de
guilhotina".
— E que é
guilhotina? — perguntou Emília, que pela primeira vez ouvia essa palavra.
Dona Benta
explicou que era uma certa máquina de cortar cabeça de gente, inventada por um
médico francês de nome Guillotin. Isso durante o terrível período da Revolução
Francesa, um tempo em que cortar cabeça de gente se tornou a preocupação mais
séria do governo. E Pedrinho, já lido na História do Mundo, lembrou que o
próprio Doutor Guillotin teve a sua cabeça cortada por essa máquina.
— Bem feito!
— exclamou Emília. — Quem manda...
— Bom, chega
de guilhotina — gritou Narizinho. — Continue vovó. A Senhora Darling
guilhotinou a cabeça da sombra e que fez depois?
— Ao ver
cair no chão a cabeça da sombra, como se fosse um pedaço de gaze negra, ela
murmurou: — "Que fato estranho!" — Depois
abaixou-se,
pegou a cabeça da sombra e examinou-a a luz da lamparina, com cara de quem diz:
— "Nunca ouvi contar dum fato semelhante! São dessas coisas que até
parecem invenção". Em seguida dobrou a sombra, bem dobradinha, guardou-a
na gaveta de Wendy e retirou-se do quarto, pensativa.
— E os
meninos? — indagou Narizinho. — Nada viram?
— Os meninos
nada perceberam. Quando a Senhora Darling deu com a sombra na parede, eles já
estavam caindo no sono.
O quarto
ficou mergulhado em silêncio profundo. Todos dormiam, e até a chama da
lamparina parecia cochilar, de tão quietinha. Mas de repente essa luz tremeu
três vezes e apagou-se.
— Por quê? —
indagou Narizinho.
— Algum
besouro — sugeriu Emília.
— Não —
disse Dona Benta. — É que havia entrado pela janela uma pequena bola de fogo.
— Como havia
entrado pela janela, se a janela estava fechada? — berrou Emília.
— Isso não
sei — disse Dona Benta. — O livro nada conta. Mas como fosse uma bola de fogo
mágica, o caso se torna possível. Para as bolas de fogo mágicas tanto faz uma
janela estar aberta como fechada. Ela acha sempre jeito de entrar. Do contrário
não valia a pena ser bola mágica. Entrou e começou a esvoaçar em todas as
direções, muito aflitazinha, como quem anda atrás de alguma coisa.
— Já sei —
interrompeu Narizinho. — Estava procurando a cabeça da sombra.
— Talvez
fosse isso, — concordou Dona Benta — porque depois de várias voltas pelo ar a
bola parou defronte do armário de Wendy e entrou na gaveta pelo buraco da
fechadura.
— E houve um
incêndio, já sei! — gritou Emília. — Bola de fogo em gaveta de armário é
incêndio certo. A cidade de Londres vai ser destruída...
— Credo! —
exclamou tia Nastácia, que estivera cochilando e acordara naquele ponto. — Não
fale assim, Emília, que é mau agouro.
— Não houve
incêndio nenhum — disse Dona Benta. — Bola de fogo mágica não pega fogo nas
coisas.
— Então que
aconteceu?
— Nada. A
bola ficou na gaveta, e nesse mesmo instante a janela foi erguida pelo lado de
fora. A cabeça dum menino apareceu. Apareceu, espiou de todos os lados e pulou
para dentro do quarto sem fazer o menor barulho.
—
"Sininho, Sininho! Onde está você, Sininho?" — indagou ele em voz
baixa.
—
"Tlin, tlin, tlin", — foi a resposta da bola de fogo lá dentro da
gaveta.
O menino
dirigiu-se pé ante pé na direção dos tlins, abriu a gaveta e remexeu-a toda,
até encontrar a cabeça da sombra. Pela cara alegre que fez via-se que era o
dono dela.
— Que
engraçado! — exclamou Emília. — Só agora noto que todos nós temos a nossa
sombra, que é só nossa, mas não de gaze, como a desse menino. É de ar preto.
— E que fez
ele, vovó, depois de achar a sombra? — perguntou a menina.
— Que fez?
Tirou-a da gaveta, desdobrou-a e tratou de emendá-la no resto, porque desde que
a Senhora Darling desceu a janela ele ficou com a sombra sem cabeça — ou
decapitada. Mas isso de emendar sombra não é coisa fácil. Exige prática. O
menino tentou primeiro grudá-la com cuspe. Não grudou.
Lembrou-se
de a colar com sabão. Também não colou. O menino sentiu-se atrapalhado.
— Se fosse
eu — disse Emília — experimentava uma bisnaga de Cola-tudo. O que cola tudo
deve colar sombra também.
— E onde
achar a tal bisnaga de Cola-tudo?
— Todas as
nurserys devem ter uma bisnaga de Cola-tudo para colar os brinquedos. Eu se
fosse a Senhora Darling...
— Está bem,
Emília, mas pare de falar. Não atrapalhe mais. Continue vovó.
Dona Benta
continuou:
— A. cabeça
não colava de jeito nenhum, de modo que o menino foi tomado de grande
desespero. Isso de ter sombra sem cabeça parece ser uma coisa terrível; pelo
menos o era para aquele menino, pois escondeu a cara nas mãos e, pôs-se a
chorar tão alto que Wendy acordou e sentou-se na cama, muito admirada.
— "Por
que está chorando?" — indagou ela.
Em vez de
responder, o menino enxugou depressa os olhos com as costas da mão e fez um
bonito cumprimento com o gorro vermelho. Depois disse:
— "Há
muito tempo que eu ando querendo saber qual é o seu nome."
— "Meu
nome é Wendy Darling" — respondeu a menina. — "E o seu?"
—
"Peter Pan."
— "E
onde mora o Senhor Peter Pan?"
— "Moro
na rua das casas, número das portas."
Wendy riu-se
daquela molecagem e puxou prosa. Conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que
Peter Pan era um menino sem pai nem mãe, que vivia solto pelo mundo e agora
estava muito atrapalhado por ter perdido a cabeça de sua sombra.
— "Não;
gruda nem com sabão" — disse ele fazendo bico.
— "Bobo!"
— exclamou Wendy rindo-se. — "Com sabão está claro que não gruda. Sabão só
gruda nota velha. Sombra tem que ser costurada com retrós, quer ver?" — e
sem esperar pela resposta saltou da cama, foi à sua mesinha de costura e trouxe
de lá uma agulha já enfiada. Ajeitou a cabeça da sombra no resto da sombra e
num instante alinhavou-a com retrós preto. Ficou que ninguém percebia a emenda.
—
"Pronto! Vê como está bem agora?"
Peter Pan
pulou de contentamento. Deu várias voltas pela nursery, num verdadeiro namoro
com a sua sombra consertada.
— "Eu
sou mesmo um danadinho!" — exclamou por fim, todo cheio de si.
Tamanha
gabolice espantou Wendy Ela havia consertado a sombra e o prosa chamava para si
as honras! Já se viu uma coisa assim?
"Danado, você?" — disse a menina com
ironia. — "Se fui eu quem costurou a sombra, como o danado pode ser
você?"
—
"Sim" — disse o menino; — "você ajudou um pouco, não nego."
—
"Ajudou!..." — repetiu Wendy imitando-lhe o tom de voz. — "Pois
nesse caso, passe muito bem! Não gosto de gente gabola."
Disse e
pulou para a cama, deitando-se e cobrindo a cabeça com a colcha.
Peter Pan
desapontou e fez cara de arrependido.
— "Oh,
não se ofenda, Wendy! Eu tenho este defeito. Sou gabola de nascença. Quando
qualquer coisa de bom me acontece, ponho-me sem querer a contar prosa. Seja
boa. Perdoe-me. Reconheço que uma menina vale mais do que vinte meninos."
— Isso
também não! — protestou Pedrinho. — Só se é lá na Inglaterra. Aqui no Brasil um
menino vale pelo menos duas meninas.
— Olhem o
outro gabola! — exclamou Narizinho. — Vovó já disse que louvor em boca própria
é vitupério.
Wendy —
continuou Dona Benta — enterneceu-se com o tom daquelas palavras e sentou-se de
novo na cama, descobrindo a cabeça. Estava risonha e contente.
—
"Peter Pan" — disse ela — "você bem que merece um beijo.
Quer?"
O menino
ficou no ar, sem compreender. Menino sem mãe é assim, nem beijo sabe o que é.
Beijo! pensou consigo. Que seria isso de beijo? Com certeza era aquele copinho
de prata que Wendy tinha posto no dedo quando tomou a agulha para coser a sua
sombra. Não podia ser outra coisa.
—
"Quero" — respondeu ele, e foi logo tirando o dedal do dedo de Wendy
e colocando-o no seu, certo de que beijo queria dizer dedal. Depois, para
retribuir a gentileza, perguntou à menina se ela aceitava um beijo dele.
—
"Aceito, sim" — respondeu Wendy, que estava achando muito curioso
aquilo.
— "Pois
tome este" — disse Peter Pan, arrancando um dos botões de seu casaco e
apresentando-o com toda a seriedade.
— Já sei —
gritou Emília. — Beijo para ele significava presente, um presente qualquer. Que
bobíssimo!
— Wendy —
continuou Dona Benta — recebeu o botão e ficou de olhos postos em Peter Pan.
Súbito, perguntou:
— "Que
idade você tem, Peter Pan?"
— "Não
sei. Só sei que sou bastante criança. Fugi de casa no mesmo dia em que
nasci."
— "No
mesmo dia em que nasceu? Que ideia! E por que, meu caro?"
—
"Porque ouvi uma conversa entre meu pai e minha mãe sobre o que eu havia
de ser quando crescesse. Ora, eu não queria crescer. Não queria, nem quero
nunca virar homem grande, de bigodeira na cara feito taturana. Muito melhor
ficar sempre menino, não acha? Por isso fugi e fui viver com as fadas."
Wendy quase
perdeu a fala de tanto gosto, ao saber que estava diante dum menino conhecedor
de fadas. Ela ouvia sua mãe contar histórias de fadas, mas não havia nunca
falado com alguém que as conhecesse pessoalmente.
— "É
verdade isso, Peter? Há mesmo fadas ou você está a mangar comigo?"
—
"Verdade, sim, Wendy. Não muitas, mas há."
— "E de
onde vêm elas?"
—
"Então não sabe, Wendy? Parece incrível! Não há quem não saiba
disso..."
— "Pois
eu não sei. Conte."
— "Foi
assim. A primeira fada apareceu no mundo do dia em que a primeira criança
nascida deu a primeira risadinha."
— "Oh,
nesse caso deve haver uma fada para cada criança no mundo, porque todas as
crianças dão uma primeira risadinha" — observou Wendy.
—
"Assim devia ser" — confirmou Peter Pan, — "se as fadas não
fossem as criaturas mais fáceis de morrer que existem. Morrem como
passarinhos.
Cada vez, por exemplo, que uma criança diz que não acredita em fadas, morre
uma."
Aqui tia
Nastácia interrompeu a narrativa para dizer:
— Para mim
esse menino estava empulhando Dona Wendy. Estou velha e só vi fada nas
histórias.
— Cale a
boca! — berrou Emília. — Você só entende de cebolas e alhos e vinagres e
toicinhos. Está claro que não poderia nunca ter visto fada porque elas não
aparecem para gente preta. Eu se fosse Peter Pan, enganava Wendy dizendo que
uma fada morre sempre que vê uma negra beiçuda...
— Mais
respeito com os velhos, Emília! — advertiu Dona Benta. —
Não quero
que trate Nastácia desse modo. Todos aqui sabem que ela é preta só por fora.
— É o
pigmento — disse o Visconde. — Isso de brancuras e preturas não passa de maior
ou menor quantidade de pigmentos nas células da pele.
Emília, que
não sabia o significado de pigmento, veio logo com a sua célebre respostinha: —
"Pigmento é o seu nariz" — mas Dona Benta apoiou o
Visconde,
dizendo que era aquilo mesmo, que os pretos são pretos porque têm muitos
pigmentos na pele.
— Mas que é
esse tal pigmento, vovó?
— Pigmento é
como os sábios chamam qualquer substância colorida que tinge os tecidos duma
planta ou dum organismo animal. A rosa vermelha é
vermelha por
causa dos pigmentos vermelhos que tem nas pétalas e os negros são negros por
causa dos pigmentos negros que possuem na pele.
— Quer dizer
— observou Emília — que se os pigmentos de tia Nastácia fossem cor de burro
quando foge, ela não seria negra e sim uma burra fugida...
— Chi, meu
Deus do Céu! — exclamou Narizinho. — Como a Emília está asneirenta hoje...
— É a lua —
disse tia Nastácia. — Já reparei que em tempo de lua cheia Emília dá para
espirrar bobagem que nem torneira aberta que a gente quer tapar com a mão.
Emílio
botou-lhe a língua e Dona Benta prosseguiu:
— Mas vamos
ao caso. Vocês me interrompem tanto que a história não pode chegar ao fim.
Peter Pan contou a Wendy como as fadas nascem, e ao falar em fada lembrou-se da
bola de fogo que havia entrado na gaveta. Era uma fada, essa bolinha, e muito
sua amiga. Uma fada que fazia tudo que as outras
fadas fazem,
menos falar. Sua fala não passava daquele tlin, tlin, tlin, de campainha de
prata.
Assim que
Peter Pan se lembrou da bola de fogo, ou Sininho, como era o seu nome, um tlin,
tlin zangado se fez ouvir dentro da gaveta.
— "A
pobre!" — exclamou Peter Pan. — "Deve estar furiosa comigo por ter-me
distraído com você e esquecido dela. Sininho é ciumentíssima."
De fato.
Sininho saiu da gaveta furiosa. Esvoaçou pelo quarto por uns instantes, indo
afinal esconder-se num canto, emburrada. Eram ciúmes de Wendy. Mas a menina não
deu nenhuma importância àqueles maus modos; continuou a conversar com Peter Pan
como se não houvesse visto nada.
—
"Vamos, Peter Pan!" — disse ela. "Conte-me mais alguma coisa da
sua vida. Conte onde mora, mas de verdade."
A história continua, vamos descobrir onde Peter Pan mora?
Monteiro Lobato - Domínio Público
Monteiro Lobato - Domínio Público
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
Primeiro desenho animado totalmente em Libras é lançado no Youtube
Vá no canal e inscreva-se. Todo o projeto inclusivo deve ser compartilhado e incentivado.
sábado, 9 de fevereiro de 2019
O bicho Manjaléu. - Histórias de Tia Nastácia - Monteiro Lobato
Pedrinho, na
varanda, lia um jornal. De repente parou, e disse a Emília, que andava rondando
por ali:
— Vá
perguntar a vovó o que quer dizer folclore.
— Vá? Dobre
a língua. Eu só faço coisas quando me pedem por favor.
Pedrinho,
que estava com preguiça de levantar-se, cedeu à exigência da ex-boneca.
— Emilinha
do coração — disse ele — faça-me o maravilhoso favor de ir perguntar à vovó que
coisa significa a palavra folclore, sim, teteia?
Emília foi e
voltou com a resposta.
— Dona Benta
disse que folk quer dizer gente, povo; e lore quer dizer sabedoria, ciência.
Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro, de
pais a filhos — os contos, as histórias, as anedotas, as superstições, as
bobagens, a sabedoria popular, etc. e tal. Por que pergunta isso, Pedrinho?
O menino
calou-se. Estava pensativo, com os olhos lá longe. Depois disse:
— Uma ideia
que eu tive. Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando, de um
para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer tia Nastácia para
tirar o leite do folclore que há nela.
Emília
arregalou os olhos.
— Não está
má a ideia, não, Pedrinho! Às vezes a gente tem uma coisa muito interessante em
casa e nem percebe.
— As negras
velhas — disse Pedrinho — são sempre muito sabidas.
Mamãe conta
de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome
Esméria, que foi escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda
e desfiava histórias e mais histórias. Quem sabe se tia Nastácia não é uma
segunda tia Esméria?
Foi assim
que nasceram as Histórias de Tia Nastácia.
O bicho Manjaléu.
Era uma vez
um velho que tinha três filhas muito bonitas, mas um velho muito pobre, que
vivia de fazer gamelas. Uma vez passou pela sua casa um lindo moço a cavalo;
parou e declarou que queria comprar uma das moças. O velho se ofendeu; disse
que por ser pobre não era nenhum malvado que andasse vendendo as filhas; mas
diante das ameaças do moço teve que aceitar o negócio.
Lá se foi a
sua primeira filha na garupa do cavaleiro, e o velho ficou olhando para o ouro
recebido.
No dia
seguinte apareceu outro moço, ainda mais lindo, montado num cavalo ainda mais
bonito e propôs-se a comprar a filha do meio. O velho, bastante aborrecido,
contou o que se tinha passado com a primeira, e não quis aceitar o negócio. O
moço ameaçou matá-lo, e também lá se foi com a segunda moça na garupa, deixando
com o velho dois sacos de dinheiro.
No dia
imediato apareceu terceiro moço e depois da mesma discussão lá se foi com a
derradeira moça na garupa, deixando em troca três sacos de dinheiro.
O velho
ficou muito rico, mas sem as filhas, e começou a criar com grandes mimos um
filhinho que havia nascido fora de tempo. Quando já estava na escola esse
menino teve uma briga com um companheiro, o qual lhe disse: "Você está
prosa por ter pai rico, mas saiba que ele já foi um pobre diabo que vivia de
fazer gamelas. Está rico porque vendeu as filhas."
O menino
voltou pensativo para casa, mas nada disse. Só quando ficou moço é que pediu ao
pai que lhe contasse a história das três irmãs vendidas. O pai contou tudo e
ele resolveu sair pelo mundo em procura das irmãs.
No meio do
caminho encontrou três marmanjos brigando por causa duma bota, duma carapuça e
duma chave. Indagando do valor daquilo, soube que eram uma bota, uma carapuça e
uma chave mágicas. Quando alguém dizia à bota: "Bota, bote-me em tal parte!"
a bota botava. E se diziam à carapuça: "Carapuça, encarapuce-me!" a
carapuça encarapuçava, isto é, escondia a pessoa. E se diziam à chave:
"Chave, abre!" a chave abria qualquer porta.
O moço
ofereceu pelos três objetos o dinheiro que trazia e lá se foi com eles.
Logo adiante
parou e disse: "Bota, bote-me em casa de minha primeira irmã." Mal
acabou de pronunciar tais palavras, já se achou na porta de um palácio
maravilhoso. Falou com o porteiro. Pediu para entrar, dizendo que a dona do
palácio era sua irmã. A irmã soube da sua chegada, acreditou em suas palavras e
o recebeu muito bem.
— Mas como
conseguiu chegar até aqui, meu irmão?
— Por meio
da bota mágica — respondeu ele.
E contou
toda a história da sua partida e do encontro dos três objetos mágicos.
Tudo correu
bem, mas assim que começou a entardecer a irmã pôs-se a chorar.
— Por que
chora, minha irmã?
— Ah —
respondeu ela — choro porque sou casada com o rei dos Peixes, um príncipe muito
bravo que não quer que eu receba ninguém neste palácio. Ele não tarda a chegar,
e mata você, se enxergar você aqui...
O moço deu
uma risadinha, dizendo:
—Não tenha
medo de nada. Com a carapuça mágica saberei esconder-me.
O rei chegou
e logo levantou o nariz para o ar, farejando: — "Sinto cheiro de gente de
fora!" mas a rainha mostrou que não havia por ali ninguém e ele sossegou.
Tomou um banho e se desencantou num lindo moço.
Durante o
jantar a rainha fez esta pergunta:
— Se
aparecesse por cá um irmão meu, que faria Vossa Majestade?
— Recebia-o
muito bem — disse o rei — porque o irmão da rainha, cunhado do rei é. E se ele
está por aqui, que apareça.
O irmão
encarapuçado apresentou-se, sendo muito bem recebido.
Contou toda
a sua história, mas não aceitou o convite de ficar morando ali por ter de
continuar pelo mundo em procura das outras irmãs. O rei olhou com inveja para
as botas mágicas, dizendo: "Se eu as pilhasse, iria ver a rainha de
Castela."
Na hora da
partida o rei deu-lhe uma escama. "Quando estiver em apuros, pegue nesta
escama e diga: Valha-me, rei dos Peixes!"
O moço
agradeceu o presente e lá se foi depois de dizer à bota: "Bota, bote-me na
casa de minha segunda irmã", e imediatamente se achou defronte de outro
palácio, onde foi recebido pela segunda irmã, que era a esposa do rei dos
Carneiros. "Meu marido logo chega por aí, a dar marradas a torto e a
direito, e você não escapa."
— Com a
minha carapuça escapo — respondeu o rapaz, rindo-se. E contou a virtude da
carapuça encantada. E de fato foi assim, correndo tudo direitinho como lá no
palácio do rei dos Peixes. Na hora da partida o rei dos Carneiros disse:
"Tome este fio de lã. Quando estiver em apuros, basta que pegue nele e
diga: Valha-me, rei dos Carneiros." Em seguida olhou com inveja para as
botas mágicas. "Se as pilhasse, iria ver a rainha de Castela."
Logo que o
moço se viu na estrada, parou e disse à bota. "Bota, bote-me em casa da
minha terceira irmã", e a bota botou-o no portão dum terceiro palácio
ainda mais belo que os outros. Era ali o reino do rei dos Pombos, onde tudo
aconteceu como no reino do rei dos Peixes e no reino do rei dos Carneiros. Foi
muito bem recebido e festejado, até que na hora da partida o rei dos Pombos
suspirou olhando para as botas, e disse: "Se eu pilhasse essas botas, iria
ver a rainha de Castela." Em seguida deu ao moço uma pena, dizendo:
"Quando
estiver em apuros, pegue nesta pena e diga: Valha-me, rei dos Pombos."
Logo que o
moço se viu na estrada, pôs-se a pensar na tal rainha de Castela que os três
príncipes queriam visitar, e disse à bota mágica: "Bota, bote-me no reino
da rainha de Castela!" E num instante a bota o botou lá.
Soube que
era uma princesa solteira, tão linda que ninguém passava pela frente do seu
palácio sem erguer os olhos, na esperança de vê-la à janela — mas a princesa
tinha jurado só se casar com quem passasse pelo palácio sem erguer os olhos.
O moço então
passou pela frente do palácio sem erguer os olhos e a princesa imediatamente
casou com ele. Depois do casamento a princesa quis saber para que serviam
aqueles objetos que ele sempre trazia consigo— e o que mais a interessou foi a
chave de abrir todas as portas.
A razão
disso era haver no palácio uma sala sempre fechada, onde o rei não permitia que
ninguém entrasse. Nela morava o Manjaléu — um bicho feroz, que por mais que o
matassem revivia sempre. A princesa andava ardendo de curiosidade de ver o bicho
Manjaléu, e certa vez, em que o rei e o marido foram à caça, pegou a chave e
abriu a porta da sala do mistério. Mas o bicho feroz pulou e agarrou-a,
dizendo: "Era você mesma que eu queria!" E lá se foi para a floresta
com a pobre moça ao ombro Quando o rei e o marido da princesa voltaram da caça
e souberam do acontecido, ficaram desesperados. Mas o dono das botas mágicas
prometeu consertar tudo. Agarrou-as e disse: "Bota, bote-me onde está
minha esposa".
E a bota
botou-o.
O moço
encontrou a princesa sozinha, pois que o Manjaléu andava pelo mato caçando.
— Minha querida
esposa — disse ele — precisamos dar cabo desse monstro feroz, mas para isso é
necessário que eu saiba onde é que ele tem a vida. A vida do Manjaléu está tão
bem oculta que todas as tentativas para matá-lo têm falhado. Trate de saber
onde ele tem a vida.
A princesa
prometeu que assim faria, e quando o Manjaléu voltou deu jeito da conversa
recair naquele ponto.
Manjaléu
desconfiou.
— Ahn! Quer
saber onde eu tenho a vida para me matar, não é? Não conto, não.
Mas a
princesa, teimosa, tanto insistiu durante dias e dias que o bicho Manjaléu
resolveu contar tudo. Antes disso ele amolou bem amolado, um alfanje, dizendo:
"Vou contar onde está minha vida, mas se perceber que alguém quer dar cabo
de mim corto sua cabeça com este alfanje, está ouvindo?"
A princesa
aceitou a proposta. Ele que contasse tudo que ela ficaria com o pescoço às
ordens do alfanje, no caso de alguém atentar contra vida do monstro. E o bicho
Manjaléu então contou: "Minha vida está no mar. Lá no fundo há um caixão;
nesse caixão há uma pedra; dentro da pedra há uma pomba; dentro da pomba há um
ovo; dentro do ovo há uma velinha, que é a minha vida. Quando essa vela
apagar-se, eu morrerei".
No dia
seguinte, quando o bicho Manjaléu saiu novamente a caçar, o marido da princesa,
que estivera escondido pela carapuça, apresentou-se.
"E
então?" — perguntou. A princesa contou-lhe direitinho tudo que ouvira ao
monstro.
O moço
dirigiu-se à praia do mar e pegou na escama, dizendo:
"Valha-me,
rei dos Peixes!" E imediatamente o mar se coalhou de peixes que indagavam
do que ele queria.
— Quero
saber em que ponto do fundo do mar há um caixão assim e assim.
— Eu sei —
respondeu um enorme baiacu.
— Ainda há
pouquinho esbarrei nele. Esse caixão está em tal e tal parte.
— Pois quero
que me tragam aqui esse caixão.
Os peixes
saíram na volada; logo depois apareceram empurrando um caixão para a praia. O
príncipe abriu-o e encontrou a pedra. Como quebra-la?
Lembrou--se
do fio de lã. Pegou no fio de lã e disse: "Valha-me, rei dos Carneiros!"
Imediatamente apareceram inúmeros carneiros, que deram tantas marradas na pedra
que a partiram.
Enquanto
isso, lá longe, o Manjaléu, com a cabeça no colo da princesa e o alfanje na
mão, ia sentindo coisas esquisitas.
— Minha
princesa — disse ele — estou me sentindo doente. Alguém está mexendo na minha
vida.
E sua mão
apertou o cabo do alfanje.
A princesa
engambelou-o como pôde, para ganhar tempo. Ela sabia que seu marido estava em
procura da vida do monstro.
Assim que os
carneiros quebraram a pedra, uma pombinha voou de dentro e lá se foi pelos
ares. O moço lembrou-se da pena, pegou-a e disse:
"Valha-me,
rei dos Pombos!" Imediatamente o ar se encheu de pombos, que o moço mandou
voarem em perseguição da pombinha. Os pombos foram atrás dela e a pegaram. O
moço tomou-a, espremeu-a e fez sair um ovo.
Lá longe o
Manjaléu se sentia cada vez pior. Começava a desfalecer; e como não tivesse
dúvidas sobre o que era aquilo, foi levantando o alfanje para degolar a
princesa. Mas não teve tempo. O moço havia quebrado o ovo e assoprado a
velinha. A mão do Manjaléu moleou — e seus olhos fecharam-se para sempre.
Estava o
reino de Castela livre daquele horrendo monstro. O moço levou a princesa para o
palácio, onde o rei a recebeu com lágrimas nos olhos. E para comemorar o grande
acontecimento decretou uma semana inteira de festas. E acabou-se a história.
Histórias de
Tia Nastácia – Monteiro Lobato.
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