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Do que eu tenho medo. Saci Pererê. Lendas do Folclore brasileiro.

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Bem, o jeito mesmo é começar fazendo uma confissão: a de que sou um pouquinho covarde, tenho meus medos. E você vai rir de mim quando souber de que é que receio tanto. E... bem, é... (Vou tomar uma bruta coragem e dizer de uma vez.)
Tenho tanto medo é do... Saci-Pererê! Mas que alívio em já ter confessado. E que vergonha. Só não juro que o Saci existe porque não se deve ficar jurando à-toa, por aí. Você é provavelmente de cidade e não me acredita. Mas que nas matas tem saci, lá isso tem.
E eu garanto essa verdade que até parece mentira, garanto, porque já vi esse meio-gente e meio-bicho.
E para que você acredite em mim, vou descrevê-lo: ele é um diabinho de uma perna só
(apesar de miraculosamente cruzar a perna). Dou a você como garantia minha palavra de honra. E ele anda sempre com um cachimbozinho.
Devo dizer que ele não é pessoa de fazer grandes maldades. É, mas faz as pequenas e marotas. As vezes quando lhe negam fumo — é melhor ter sempre tabaco numa caixinha porque prevenir é melhor que remediar — como eu ia dizendo, quando lhe negam fumo, ele faz das suas. Pois se até leite fervido ele azeda!
Mosca na sopa? Pois foi ele o pequeno malfeitor.
Brincadeira tem hora, às vezes a gente fica com raiva.
Sem falar que o Saci assusta as galinhas, coitadas, que já são por natureza assustadas. É, mas não é que ele faz com que fiquem completamente espavoridas?
Dona-de-casa? Cuidado porque ele queima o feijão na panela. E o danadinho faz essas coisas ou para se vingar ou para divertir e gostar de atrapalhadas.
Dou minha palavra de que já dei muito fumo ao Saci. Se você não acredita, vou então descrevê-lo: usa na cabecinha sabida uma carapuça vermelhíssima e escandalosíssima, tem a pele mais negra do que carvão em noite escura, uma perna só que sai pulando, e, é claro, um cachimbozinho aceso porque ele tem, como eu, o vício do fumo.
Mas uma vez eu me vinguei. Quando ele me pediu fumo, dei. Mas misturei ao tabaco... um pouco de pólvora (não demais porque eu não queria matá-lo). E quando ele tirou a primeira tragada, foi aquele estrondo. Porque eu também sou um pouquinho Saci-Pererê: foi com ele mesmo que aprendi as manhas.
Aviso ao Saci: por favor não se vingue de mim botando pólvora no meu fumo porque eu me vingarei pondo fogo na mataria toda!
Acho que tenho dito.


Clarice Lispector. 

Comentários

Olá, Jeanne!
Que escolha linda, Clarice Lispector sabia escrever como ninguém.
Obrigada pelo texto, abraços carinhosos
Maria Teresa
lua singular disse…
Oi Jeanne

Adoro lendas: trabalhei com crianças ais 33 anos.
Obrigada pelo carinho
Beijos
Lua Singular

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