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terça-feira, 12 de março de 2019

Peter Pan - Rumo à terra do Nunca.



Continuação da história, clique AQUI capítulo anterior.

— "Moro com os meninos perdidos."
— "Fiquei na mesma. Quem é essa gentinha? Nunca ouvi falar em meninos perdidos."
— "Meninos perdidos são os meninos que caem dos carrinhos nos jardins públicos quando as amas se distraem a namorar os soldados. Se as mães deles não conseguem encontrá-los no prazo de quinze dias, eles são remetidos para a Terra do Nunca, onde quem manda sou eu.”
— "Que engraçado!" — exclamou Wendy. — "Terra do Nunca! Está aí uma terra que eu não sabia que existisse. As geografias não falam dela. E depois? Que ideia a sua, de aparecer por cá esta noite?"
— "Eu costumo vir sempre" — respondeu Peter Pan — "para escutar do lado de fora da janela as histórias tão lindas que sua mãe conta. Tantas vezes vim que sou capaz de repetir uma por uma todas as histórias que vocês já ouviram."
— "Mas como é lá na Terra do Nunca?"
— "Oh, uma terra linda, Wendy! Temos piratas terríveis num grande lago, temos alcateias de lobos famintos que percorrem a floresta e temos uma tribo de índios ferozes, os Peles-Vermelhas, como são chamados. E temos ainda as sereias."
— "Sereias?" repetiu Wendy batendo palmas. — "Com cauda?"
— "Com cauda, escamas e tudo. Sereias iguaizinhas a essas que você vê pintadas nos livros. Uma lindeza, Wendy!"
Wendy não cabia em si de encantamento ante as maravilhas contadas por Peter Pan: Ele, porém, alegou que era tarde e tinha de ir-se embora.
— "Os meninos perdidos já devem estar inquietos com a minha ausência, e ansiosíssimos por ouvir o fim da história que a Senhora Darling contou hoje. Já sabem a primeira parte. Eu venho cá, ouço as histórias ali da janela e depois as conto a eles direitinho."
— "Não vá ainda!" — pediu Wendy. — "Eu sei mais de cem histórias, cada qual mais bonita, e se você ficar eu as contarei todas. Fique."
— "Mais de cem histórias? Oh, que mina!" — exclamou Peter Pan, batendo palmas. — "Nesse caso o melhor seria ir você comigo para a Terra do Nunca. Poderá contar todas essas histórias aos meninos perdidos, poderá ainda remendar a roupa deles, pregar botões e de noite fazê-los dormir — tudo como a
Senhora Darling faz aqui. Oh, Wendy, venha comigo..."
A tentação era enorme. Visitar um país daqueles, com feras e piratas e índios e sereias, e ter ainda toda aquela meninada para brincar! Que bom não
seria... Mas a menina vacilava.
— "Não posso, Peter Pan. Mamãe não o consentiria nunca. E, além disso, deve ser muito longe essa terra."
— "Que importa que seja longe? Iremos voando, e para quem voa não há distâncias."
— "Voando? Mas eu não sei voar, Peter Pan! Que ideia..."
— "Eu ensino, não seja essa a dúvida. Em dois minutos deixo você voando que nem uma andorinha."
Aquilo era demais. Era ainda melhor do que ver sereias. Voar, voar...
Wendy não pôde resistir à tentação: resolveu que iria. Em todo caso, duvidou um pouco.
— "Já disse que ensino" — assegurou Peter Pan com firmeza. — “Eu, quando digo, faço”.
— "E ensina também ao Joãozinho e ao Miguel? Se formos para lá temos de ir todos."
— "Ensino, sim, claro que ensino. Está resolvida? Vai mesmo?"
— "Estou resolvida, vou!" — respondeu Wendy com firmeza — e pulando da cama foi acordar os irmãozinhos.
João Napoleão e Miguel sentaram-se na cama esfregando os olhos, e logo que souberam do caso, deram pulos de contentamento. Gostavam de piratas e sereias ainda mais que Wendy e, portanto ficaram ainda mais assanhados.
Queriam partir incontinenti.
— "Isso, não!" — disse Peter Pan. — "Antes de mais nada vocês precisam tomar umas lições de voo."
— "É fácil voar?" — indagou Miguel.
— "É assim" — e Peter Pan deu uma demonstração, esvoaçando pelo quarto como se fosse uma borboleta.
Vendo a facilidade, os meninos tentaram fazer o mesmo. Subiram às camas, ergueram os braços e atiraram-se. Mas foi só tombo. Esborracharam-se no tapete.
Peter Pan riu-se.
— "Não é assim, meninos. Eu tenho de soprar em vocês um pó mágico que certa fada me deu" — e dizendo isto sacou do bolso uma caixinha do pó mágico e soprou uma pitada no nariz de cada um; depois mandou que experimentassem, que subissem às camas, erguessem os braços e dessem outro pulo para o ar.
Os meninos experimentaram e com grande assombro viram que estavam leves como plumas e que podiam equilibrar-se no ar com a maior facilidade.
— "Estou que nem esses balõezinhos de borracha que mamãe enche de gás" — disse Miguel. — "Estou sem peso nenhum!" — e voou quase tão bem como Peter Pan. Por falta de experiência os três voadores deram algumas cabeçadas no forro, mas alguns minutos depois estavam que nem uma andorinha que havia ficado presa no quarto dois dias antes.
Vendo-os nesse ponto, Peter Pan achou que não era preciso mais.
Podiam partir.
— "Muito bem" — disse ele. — “Podemos partir”. Sininho seguirá na frente, para indicar o caminho. Em segundo lugar vou eu com Wendy. Depois vai João Napoleão e por último, Miguel. Aprontem-se para partir.
Foi uma correria. João Napoleão quis levar uma porção de coisas, mas teve que desistir porque ficaria muito pesado. Miguel correu ao vestíbulo da casa em busca dum gorro e como não o encontrasse veio com uma cartola do Senhor Darling na cabeça. Wendy resolveu ir como estava, de camisola mesmo.
— "Pronto?" — perguntou Peter Pan.
— "Pronto" — responderam todos.
— "Então vamos lá. Um, dois e... três!"
Ouviu-se um prrrrr... E ergueram-se nos ares os quatro meninos, na ordem mareada pelo chefe e com a bola de fogo voando à frente para indicar o caminho. E lá se foram para a maravilhosa Terra do Nunca...
Justamente naquela hora Mrs. Darling estava na sala de jantar contando ao marido a história da sombra. O Senhor Darling sorria.
— "Impossível, querida. Isso há de ser sonho. É um absurdo."
Nisto soou o prrrrr... Julgando que fosse alguma coruja que houvesse entrado na nursery, a Senhora Darling correu para lá. Ao ver a janela aberta e as três camas vazias, deu um grito e desmaiou.
Neste ponto Dona Benta interrompeu a história, deixando o resto para o dia seguinte.


Aguardem a continuação aqui no blog.

Peter Pan por Monteiro Lobato -  Domínio Público.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Peter Pan e o caso da sombra.



Dona Benta sentou-se na sua cadeira de pernas serradas, subiu para a testa os óculos de aro de ouro e começou:
— Era uma vez uma família inglesa...
— Espere Sinhá! Não Comece ainda — gritou lá da copa tia Nastácia. — Eu também faço questão de conhecer a história desse pestinha.
Estou acabando de lavar as panelas e já vou.
Dona Benta esperou que a negra chegasse, apesar do protesto da Emília, que disse: — "Bobagem! Para que uma cozinheira precisa saber a história de Peter Pan?"
Tia Nastácia veio e escarrapachou-se no assoalho, entre o Visconde e a menina. Só então Dona Benta começou de verdade.
— Havia na Inglaterra uma família inglesa composta de pai, mãe e três filhos — uma menina de nome Wendy (pronuncia-se Uêndi), que era a mais velha; um menino de nome João Napoleão, que era o do meio; e outro de nome Miguel, que era o caçulinha. Os três tinham o sobrenome de Darling, porque o pai se chamava não sei quê Darling. Esses meninos ocupavam a mesma nursery numa linda casa de Londres.
— Nursery? — repetiu Pedrinho. — Que vem a ser isso?
— Nursery (pronuncia-se nârseri) quer dizer em inglês, quarto de crianças. Aqui no Brasil, quarto de criança é um quarto como outro qualquer e por isso não tem o nome especial. Mas na Inglaterra é diferente. São uma beleza os quartos das crianças lá, com pinturas engraçadas rodeando as paredes, todos cheios de móveis especiais, e de quanto brinquedo existe.
— Boi de chuchu, tem? — indagou Emília.
— Talvez não tenha, porque boi de chuchu é brinquedo de meninos da roça, e Londres é uma grande cidade, a maior do mundo. As crianças inglesas são muito mimadas e têm os brinquedos que querem. Os brinquedos ingleses são dos melhores.
— E os brinquedos alemães, vovó? Ouvi dizer que há na Alemanha uma cidade que é o centro da fabricação de brinquedos.
— E é verdade, meu filho. Nuremberg: eis o nome da capital dos brinquedos. Fabricam-nos lá de todos os feitios e de todos os preços, e exportam-nos para todos os países do mundo.
— E aqui, vovó?
— Aqui essa indústria está começando: Já temos algumas fábricas de bonecas e outras de carrinhos, cavalinhos de pau, trenzinhos de folha, patinhos de celuloide, gaitas de assoprar, etc. etc.
Pedrinho declarou que quando crescesse ia montar uma grande fábrica de brinquedos da maior variedade possível, e que lançaria no mercado bonecos representando o Visconde de Sabugosa, a Emília, o Rabicó etc. Todos gostaram muito da ideia e Dona Benta voltou ao assunto.
— Pois é isso. Aquela nursery era um encanto. Imaginem que quem tomava conta das crianças era a Nana.
Alguma criada?
Não. Uma cachorra muito inteligente. Era Nana quem dava banho nas crianças, quem as vestia para dormir e tudo mais — e muito direitinho.
Na noite em que a nossa história começa, Nana estava cochilando perto da lareira, com a cabeça entre as patas, enquanto no cômodo pegado o Senhor e a Senhora Darling se preparavam para uma visita a uns parentes.
Quando o casal saía de noite quem ficava tornando conta dos meninos era sempre a cachorra. Nisto o relógio bateu oito horas — bem, bem, bem, bem, bem, bem...
— A senhora errou, Dona Benta! — berrou logo Emília, que não deixava escapar coisa nenhuma. — A senhora só bateu seis bens.
Dona Benta riu-se.
— Não faz mal — disse ela. Os dois que faltam ficam subentendidos.
Mas o relógio bateu oito horas e Nana ergueu-se e espreguiçou-se, porque a ordem da Senhora Darling era fazer a criançada ir para a cama a essa hora justa. Depois Nana acendeu a luz elétrica.
— Como?
— Ela sabia agarrar com a boca a chave da luz e torcer. Estava acostumada a fazer isso. Acendeu a luz e foi ver os pijamas de cada um. E foi ao banheiro abrir a torneira de água quente e fria, experimentando a água com a pata para ver se-estava no ponto.
— Que danada! Por que a senhora não nos arranja uma cachorra assim, vovó?
— Porque vocês só querem saber de onças e rinocerontes e bichos esquisitos. Mas deixem estar que ainda ponho um Cachorrinho aqui em casa.
— E há de chamar-se Japi! — gritou Emília, que sempre fora a botadeira de nomes. — Mas continue Dona Benta. A Nana encheu a banheira e que mais?
— Preparou a água do banho e foi buscar o Miguel, que era o menorzinho, e Miguel veio montado nela, dando esporadas. Nana fê-lo apear-se e entrar n’água, e foi fechar a porta para que não houvesse corrente de ar. Depois de acabado o banho, deu o pijaminha para Miguel vestir e levou-o para a cama.
Nesse momento a mãe dos meninos entrou no quarto para ver se estava tudo em ordem. Animou a todos, um por um, prometeu um passeio ao jardim zoológico, para que vissem a enorme goela vermelha do hipopótamo e o pescoço que não acaba mais da girafa. Depois contou uma história linda.
— Que história ela contava? — quis saber Emília.
— Quantas existem. As mesmas que já contei a vocês e muitas outras. Depois distribuiu beijos, dizendo: — "Agora tratem de dormir." Acendeu uma lamparina de luz muito fraca, apagou a luz elétrica e ia saindo na ponta dos pés, quando notou uma sombra esquisita na parede — uma sombra que vinha da rua. Voltou-se de repente e viu do lado de fora o vulto dum menino.
Assustou-se, está claro, porque as boas mães se assustam por qualquer coisinha e correu a fechar a vidraça. Fez isso tão depressa que a sombra não teve tempo de retirar-se e foi guilhotinada. Por essa e outras é que as tais vidraças de subir e descer, como as nossas aqui do sítio, são chamadas "vidraças de guilhotina".
— E que é guilhotina? — perguntou Emília, que pela primeira vez ouvia essa palavra.
Dona Benta explicou que era uma certa máquina de cortar cabeça de gente, inventada por um médico francês de nome Guillotin. Isso durante o terrível período da Revolução Francesa, um tempo em que cortar cabeça de gente se tornou a preocupação mais séria do governo. E Pedrinho, já lido na História do Mundo, lembrou que o próprio Doutor Guillotin teve a sua cabeça cortada por essa máquina.
— Bem feito! — exclamou Emília. — Quem manda...
— Bom, chega de guilhotina — gritou Narizinho. — Continue vovó. A Senhora Darling guilhotinou a cabeça da sombra e que fez depois?
— Ao ver cair no chão a cabeça da sombra, como se fosse um pedaço de gaze negra, ela murmurou: — "Que fato estranho!" — Depois
abaixou-se, pegou a cabeça da sombra e examinou-a a luz da lamparina, com cara de quem diz: — "Nunca ouvi contar dum fato semelhante! São dessas coisas que até parecem invenção". Em seguida dobrou a sombra, bem dobradinha, guardou-a na gaveta de Wendy e retirou-se do quarto, pensativa.
— E os meninos? — indagou Narizinho. — Nada viram?
— Os meninos nada perceberam. Quando a Senhora Darling deu com a sombra na parede, eles já estavam caindo no sono.
O quarto ficou mergulhado em silêncio profundo. Todos dormiam, e até a chama da lamparina parecia cochilar, de tão quietinha. Mas de repente essa luz tremeu três vezes e apagou-se.
— Por quê? — indagou Narizinho.
— Algum besouro — sugeriu Emília.
— Não — disse Dona Benta. — É que havia entrado pela janela uma pequena bola de fogo.
— Como havia entrado pela janela, se a janela estava fechada? — berrou Emília.
— Isso não sei — disse Dona Benta. — O livro nada conta. Mas como fosse uma bola de fogo mágica, o caso se torna possível. Para as bolas de fogo mágicas tanto faz uma janela estar aberta como fechada. Ela acha sempre jeito de entrar. Do contrário não valia a pena ser bola mágica. Entrou e começou a esvoaçar em todas as direções, muito aflitazinha, como quem anda atrás de alguma coisa.
— Já sei — interrompeu Narizinho. — Estava procurando a cabeça da sombra.
— Talvez fosse isso, — concordou Dona Benta — porque depois de várias voltas pelo ar a bola parou defronte do armário de Wendy e entrou na gaveta pelo buraco da fechadura.
— E houve um incêndio, já sei! — gritou Emília. — Bola de fogo em gaveta de armário é incêndio certo. A cidade de Londres vai ser destruída...
— Credo! — exclamou tia Nastácia, que estivera cochilando e acordara naquele ponto. — Não fale assim, Emília, que é mau agouro.
— Não houve incêndio nenhum — disse Dona Benta. — Bola de fogo mágica não pega fogo nas coisas.
— Então que aconteceu?
— Nada. A bola ficou na gaveta, e nesse mesmo instante a janela foi erguida pelo lado de fora. A cabeça dum menino apareceu. Apareceu, espiou de todos os lados e pulou para dentro do quarto sem fazer o menor barulho.
— "Sininho, Sininho! Onde está você, Sininho?" — indagou ele em voz baixa.
— "Tlin, tlin, tlin", — foi a resposta da bola de fogo lá dentro da gaveta.
O menino dirigiu-se pé ante pé na direção dos tlins, abriu a gaveta e remexeu-a toda, até encontrar a cabeça da sombra. Pela cara alegre que fez via-se que era o dono dela.
— Que engraçado! — exclamou Emília. — Só agora noto que todos nós temos a nossa sombra, que é só nossa, mas não de gaze, como a desse menino. É de ar preto.
— E que fez ele, vovó, depois de achar a sombra? — perguntou a menina.
— Que fez? Tirou-a da gaveta, desdobrou-a e tratou de emendá-la no resto, porque desde que a Senhora Darling desceu a janela ele ficou com a sombra sem cabeça — ou decapitada. Mas isso de emendar sombra não é coisa fácil. Exige prática. O menino tentou primeiro grudá-la com cuspe. Não grudou.
Lembrou-se de a colar com sabão. Também não colou. O menino sentiu-se atrapalhado.
— Se fosse eu — disse Emília — experimentava uma bisnaga de Cola-tudo. O que cola tudo deve colar sombra também.
— E onde achar a tal bisnaga de Cola-tudo?
— Todas as nurserys devem ter uma bisnaga de Cola-tudo para colar os brinquedos. Eu se fosse a Senhora Darling...
— Está bem, Emília, mas pare de falar. Não atrapalhe mais. Continue vovó.
Dona Benta continuou:
— A. cabeça não colava de jeito nenhum, de modo que o menino foi tomado de grande desespero. Isso de ter sombra sem cabeça parece ser uma coisa terrível; pelo menos o era para aquele menino, pois escondeu a cara nas mãos e, pôs-se a chorar tão alto que Wendy acordou e sentou-se na cama, muito admirada.
— "Por que está chorando?" — indagou ela.
Em vez de responder, o menino enxugou depressa os olhos com as costas da mão e fez um bonito cumprimento com o gorro vermelho. Depois disse:
— "Há muito tempo que eu ando querendo saber qual é o seu nome."
— "Meu nome é Wendy Darling" — respondeu a menina. — "E o seu?"
— "Peter Pan."
— "E onde mora o Senhor Peter Pan?"
— "Moro na rua das casas, número das portas."
Wendy riu-se daquela molecagem e puxou prosa. Conversa vai, conversa vem, ficou sabendo que Peter Pan era um menino sem pai nem mãe, que vivia solto pelo mundo e agora estava muito atrapalhado por ter perdido a cabeça de sua sombra.
— "Não; gruda nem com sabão" — disse ele fazendo bico.
— "Bobo!" — exclamou Wendy rindo-se. — "Com sabão está claro que não gruda. Sabão só gruda nota velha. Sombra tem que ser costurada com retrós, quer ver?" — e sem esperar pela resposta saltou da cama, foi à sua mesinha de costura e trouxe de lá uma agulha já enfiada. Ajeitou a cabeça da sombra no resto da sombra e num instante alinhavou-a com retrós preto. Ficou que ninguém percebia a emenda.
— "Pronto! Vê como está bem agora?"
Peter Pan pulou de contentamento. Deu várias voltas pela nursery, num verdadeiro namoro com a sua sombra consertada.
— "Eu sou mesmo um danadinho!" — exclamou por fim, todo cheio de si.
Tamanha gabolice espantou Wendy Ela havia consertado a sombra e o prosa chamava para si as honras! Já se viu uma coisa assim?
 "Danado, você?" — disse a menina com ironia. — "Se fui eu quem costurou a sombra, como o danado pode ser você?"
— "Sim" — disse o menino; — "você ajudou um pouco, não nego."
— "Ajudou!..." — repetiu Wendy imitando-lhe o tom de voz. — "Pois nesse caso, passe muito bem! Não gosto de gente gabola."
Disse e pulou para a cama, deitando-se e cobrindo a cabeça com a colcha.
Peter Pan desapontou e fez cara de arrependido.
— "Oh, não se ofenda, Wendy! Eu tenho este defeito. Sou gabola de nascença. Quando qualquer coisa de bom me acontece, ponho-me sem querer a contar prosa. Seja boa. Perdoe-me. Reconheço que uma menina vale mais do que vinte meninos."
— Isso também não! — protestou Pedrinho. — Só se é lá na Inglaterra. Aqui no Brasil um menino vale pelo menos duas meninas.
— Olhem o outro gabola! — exclamou Narizinho. — Vovó já disse que louvor em boca própria é vitupério.
Wendy — continuou Dona Benta — enterneceu-se com o tom daquelas palavras e sentou-se de novo na cama, descobrindo a cabeça. Estava risonha e contente.
— "Peter Pan" — disse ela — "você bem que merece um beijo.
Quer?"
O menino ficou no ar, sem compreender. Menino sem mãe é assim, nem beijo sabe o que é. Beijo! pensou consigo. Que seria isso de beijo? Com certeza era aquele copinho de prata que Wendy tinha posto no dedo quando tomou a agulha para coser a sua sombra. Não podia ser outra coisa.
— "Quero" — respondeu ele, e foi logo tirando o dedal do dedo de Wendy e colocando-o no seu, certo de que beijo queria dizer dedal. Depois, para retribuir a gentileza, perguntou à menina se ela aceitava um beijo dele.
— "Aceito, sim" — respondeu Wendy, que estava achando muito curioso aquilo.
— "Pois tome este" — disse Peter Pan, arrancando um dos botões de seu casaco e apresentando-o com toda a seriedade.
— Já sei — gritou Emília. — Beijo para ele significava presente, um presente qualquer. Que bobíssimo!
— Wendy — continuou Dona Benta — recebeu o botão e ficou de olhos postos em Peter Pan. Súbito, perguntou:
— "Que idade você tem, Peter Pan?"
— "Não sei. Só sei que sou bastante criança. Fugi de casa no mesmo dia em que nasci."
— "No mesmo dia em que nasceu? Que ideia! E por que, meu caro?"
— "Porque ouvi uma conversa entre meu pai e minha mãe sobre o que eu havia de ser quando crescesse. Ora, eu não queria crescer. Não queria, nem quero nunca virar homem grande, de bigodeira na cara feito taturana. Muito melhor ficar sempre menino, não acha? Por isso fugi e fui viver com as fadas."
Wendy quase perdeu a fala de tanto gosto, ao saber que estava diante dum menino conhecedor de fadas. Ela ouvia sua mãe contar histórias de fadas, mas não havia nunca falado com alguém que as conhecesse pessoalmente.
— "É verdade isso, Peter? Há mesmo fadas ou você está a mangar comigo?"
— "Verdade, sim, Wendy. Não muitas, mas há."
— "E de onde vêm elas?"
— "Então não sabe, Wendy? Parece incrível! Não há quem não saiba disso..."
— "Pois eu não sei. Conte."
— "Foi assim. A primeira fada apareceu no mundo do dia em que a primeira criança nascida deu a primeira risadinha."
— "Oh, nesse caso deve haver uma fada para cada criança no mundo, porque todas as crianças dão uma primeira risadinha" — observou Wendy.
— "Assim devia ser" — confirmou Peter Pan, — "se as fadas não fossem as criaturas mais fáceis de morrer que existem. Morrem como
passarinhos. Cada vez, por exemplo, que uma criança diz que não acredita em fadas, morre uma."
Aqui tia Nastácia interrompeu a narrativa para dizer:
— Para mim esse menino estava empulhando Dona Wendy. Estou velha e só vi fada nas histórias.
— Cale a boca! — berrou Emília. — Você só entende de cebolas e alhos e vinagres e toicinhos. Está claro que não poderia nunca ter visto fada porque elas não aparecem para gente preta. Eu se fosse Peter Pan, enganava Wendy dizendo que uma fada morre sempre que vê uma negra beiçuda...
— Mais respeito com os velhos, Emília! — advertiu Dona Benta. —
Não quero que trate Nastácia desse modo. Todos aqui sabem que ela é preta só por fora.
— É o pigmento — disse o Visconde. — Isso de brancuras e preturas não passa de maior ou menor quantidade de pigmentos nas células da pele.
Emília, que não sabia o significado de pigmento, veio logo com a sua célebre respostinha: — "Pigmento é o seu nariz" — mas Dona Benta apoiou o
Visconde, dizendo que era aquilo mesmo, que os pretos são pretos porque têm muitos pigmentos na pele.
— Mas que é esse tal pigmento, vovó?
— Pigmento é como os sábios chamam qualquer substância colorida que tinge os tecidos duma planta ou dum organismo animal. A rosa vermelha é
vermelha por causa dos pigmentos vermelhos que tem nas pétalas e os negros são negros por causa dos pigmentos negros que possuem na pele.
— Quer dizer — observou Emília — que se os pigmentos de tia Nastácia fossem cor de burro quando foge, ela não seria negra e sim uma burra fugida...
— Chi, meu Deus do Céu! — exclamou Narizinho. — Como a Emília está asneirenta hoje...
— É a lua — disse tia Nastácia. — Já reparei que em tempo de lua cheia Emília dá para espirrar bobagem que nem torneira aberta que a gente quer tapar com a mão.
Emílio botou-lhe a língua e Dona Benta prosseguiu:
— Mas vamos ao caso. Vocês me interrompem tanto que a história não pode chegar ao fim. Peter Pan contou a Wendy como as fadas nascem, e ao falar em fada lembrou-se da bola de fogo que havia entrado na gaveta. Era uma fada, essa bolinha, e muito sua amiga. Uma fada que fazia tudo que as outras
fadas fazem, menos falar. Sua fala não passava daquele tlin, tlin, tlin, de campainha de prata.
Assim que Peter Pan se lembrou da bola de fogo, ou Sininho, como era o seu nome, um tlin, tlin zangado se fez ouvir dentro da gaveta.
— "A pobre!" — exclamou Peter Pan. — "Deve estar furiosa comigo por ter-me distraído com você e esquecido dela. Sininho é ciumentíssima."
De fato. Sininho saiu da gaveta furiosa. Esvoaçou pelo quarto por uns instantes, indo afinal esconder-se num canto, emburrada. Eram ciúmes de Wendy. Mas a menina não deu nenhuma importância àqueles maus modos; continuou a conversar com Peter Pan como se não houvesse visto nada.
— "Vamos, Peter Pan!" — disse ela. "Conte-me mais alguma coisa da sua vida. Conte onde mora, mas de verdade."

A história continua, vamos descobrir onde Peter Pan mora?

Monteiro Lobato - Domínio Público

segunda-feira, 20 de março de 2017

PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 8 - A morada subterrânea.

No outro dia, assim que tia Nastácia acendeu o lampião da sala de jantar, o caso da sombra veio novamente à berlinda. A negra colocou-se entre a luz e a parede e todos puderam ver que sua sombra havia diminuído de mais um bom pedaço.
— Veja Sinhá — dizia ela com o beiço pendurado. — Estou só com um toco de sombra. Neste andar acabo sem sombra nenhuma e vai ser uma grande desgraça...
Dona Benta pôs os óculos e viu que era isso mesmo.
— O Visconde ainda não descobriu coisa nenhuma?
— Estou na pista — respondeu o pequeno Sherlock. — Já examinei cuidadosamente o corte e vi que foi feito com tesoura. Ando agora a examinar o fio de todas as tesouras existentes nesta casa. Pela comparação hei de descobrir com qual delas o "rato" anda cortando esta sombra — e depois...
— E depois o quê? — perguntou Emília com carinha de santa.
— Depois, veremos.
Emília fez um muxoxo e deu uma cuspidinha de desprezo.
— Vamos! Comece vovó — pediu Narizinho. — Estou ansiosa pelo resto da aventura.
Dona Benta sentou-se na sua cadeira de pernas serradas e começou:
— Pois muito que bem. Daquela grande aventura no Lago das Sereias os meninos voltaram com alguns arranhões, que Wendy tratou de curar como pôde, com um ótimo unguento faz-de-conta. Todos sararam e a vidinha continuou muito feliz na casa de Wendy e na caverna subterrânea que a menina arrumara na perfeição.
Essa caverna era uma gruta natural que as águas haviam escavado na pedra, isso há muitos milhares de anos. Tão velha, que tinha barbas brancas no teto — ou estalactites.
— Que vem a ser isso? — perguntou Pedrinho.
Dona Benta explicou que em muitas cavernas as águas das chuvas se coam através da terra que há em cima e pingam do teto. Ao atravessarem a camada de terra essas águas dissolvem certos calcários e, ao pingarem, esses calcários dissolvidos endurecem outra vez. E com o andar do tempo formam-se compridas estalactites, que são penduricalhos que descem do teto das cavernas até o chão.
Acontece também se formarem no chão, nos pontos onde a água pinga endurecimentos do mesmo gênero, que se chamam estalagmites. As estalactites descem do teto para o chão e as estalagmites sobem do chão para o teto, até se encontrarem.
Dada a explicação, Dona Benta continuou:
— Naquelas estalactites os meninos penduravam mil coisas — cestas de apanhar peixe, anzóis, varas, porungas e brinquedos construídos por eles próprios. Bem no centro da caverna existe uma lareira.
— Que é lareira, vovó? — perguntou Narizinho.
— Aqui no Brasil temos o clima quente ou temperado e por isso não se usam lareiras nas casas. Nos países frios, porém, não existe quem não saiba o que é lareira, porque não existe casa sem lareira. É o lugar de fazer fogo para o aquecimento da casa. Entre nós, e em todos os países quentes, fogo só há na cozinha, para cozinhar. Nos países frios, além desse fogo da cozinha há o fogo para aquecer a casa. Mas isso unicamente nos países atrasados. Nos países adiantados, em vez da velha lareira existe um sistema de canos de vapor quente que percorrem todos os quartos e salas por dentro das paredes e os mantém na temperatura que se deseja.
— Basta, vovó — disse a menina. — Continue.
Dona Benta continuou:
— Pois é como eu ia dizendo. A gentilíssima Wendy deixou a caverna um brinco de asseio e ordem. Arranjou para os meninos uma cama larga onde todos se arrumavam muito bem. Também arranjou um berço para o Miguel.
Miguel não estava mais em idade de berço, mas Wendy era de opinião que não pode existir casa sem berço, e como fosse ele o mais criança, teve de representar o papel de bebe. Esse berço não passava duma das cestas de apanhar peixe, arrumada entre duas estalactites.
Wendy não esqueceu nem sequer da sua terrível inimiga Sininho. Arranjou-lhe num canto um quarto de boneca, fechado de cortinas vermelhas e cheio de lindas coisas minúsculas, próprias para uma fada daquele tamanhinho.
Cadeiras não havia na gruta, mas havia bancos feitos de chapéu-de-sapo, um para cada menino. Wendy e Peter Pan usavam uma poltrona especial, feita de duas enormes cabaças recortadas com muito jeito. Ali se sentavam juntinhos, como fazem os papais e as mamães que se querem bem.
Certo sábado à noite estavam todos muito ansiosos à espera de Peter Pan, que saíra pela manhã numa expedição cinegética.
— Pare aí, vovó! — berrou Pedrinho. — Essa palavra esquisita me deixou tonto. Que vem a ser isso?
— Coisa das mais simples, meu filho. Cinegético quer dizer "relativo a caçada". Expedição cinegética significa o mesmo que caçada.
— Mas se é tão simples dizer caçada, por que vem a senhora com essa terrível complicação? — observou Pedrinho, que era inimigo de palavras difíceis.
— Para você perguntar e eu ter ocasião de ensinar uma palavra nova que ninguém aqui sabe. Neste mundo, Pedrinho, precisamos conhecer a linguagem das gentes simples e também a linguagem dos pedantes — se não os pedantes nos embrulham. Você já aprendeu o que é cinegético e se em qualquer tempo algum sábio da Grécia quiser tapear você com um cinegético, em vez de abrir a boca, como um bobo, você já pode dar uma risadinha de sabidão.
— Vou aplicar este cinegético já e já, — disse o menino, entusiasmado.
Tia Nastácia, que saíra para ferver a água do chá, vinha entrando.
— Sabe tia Nastácia, que amanhã vou fazer uma expedição cinegética?
A palavra tonteou a negra, fazendo-a piscar três vezes.
— Cine, o quê?
— Gética. Ci-ne-gé-ti-ca
Tia Nastácia arregalou os olhos, sem perceber coisa nenhuma. Depois, voltando-se para Dona Benta:
— Não deixe ir, Sinhá. Não sei o que isso é, mas coisa boa não há de ser. Não deixe, Sinhá.
Todos se riram da pobre preta.
— Vê Pedrinho, como é bom saber? Essa mesma cara de espanto você faria, se ouvisse tal palavra antes da minha explicação. Já agora, em vez de ser bobeado, você bobeia os outros. Está compreendendo a grande vantagem de saber?
— Chega de gramática, vovó! — protestou a menina. — Vamos à história. Os meninos estavam à espera de Peter Pan. E depois?
— Pois é. Os meninos estavam à espera de Peter Pan, que saíra à caça, e em cima da morada subterrânea Pantera Branca e seus índios montavam guarda.
Súbito, soou um assobio agudo. Era o sinal de Peter Pan. De longe já ele anunciava a sua chegada com aquele assobio agudíssimo. Pantera Branca foi ao seu encontro, enquanto os meninos subiam às árvores para vê-lo chegar.
Cada vez que Peter Pan vinha duma das suas excursões, era uma festa para a meninada. Como bom pai, trazia sempre novidades gostosas nos bolsos — frutas do mato, doces, mil coisas. Os meninos o rodeavam como ratos rodeiam um saco de milho, e cada qual ia enfiando as mãos nos seus bolsos para pescar o que saísse.
Peter Pan entrou na caverna e dirigiu-se para o lado de Wendy, naquele momento ocupada em remendar as meias de Levemente-Estragado. Estava linda no seu vestido cor de outono, com um galhinho de amora-do-mato nos cabelos.
Narizinho estranhou aquela expressão "cor de outono."
— Que história é essa, vovó? O outono é uma das estações do ano, mas não me consta que tenha cor...
Dona Benta riu-se.
— Minha filha, a língua está cheia de expressões poéticas. São os poetas que inventam essas coisas tão lindinhas para enfeite da linguagem. O outono é a mais linda de todas as estações nos países frios onde cai neve.
Aqui no Brasil ninguém percebe diferença grande entre o outono, o verão e o inverno. Na realidade só temos duas estações — a das águas e a da seca. A vegetação se mostra intensamente verde na estação das águas, e também verde, essas de um verde mais sujo, mais seco, na estação da seca — que vai de maio a outubro. Nos países frios não é assim.
As quatro estações são perfeitamente definidas.
— Eu sei! — gritou Pedrinho. — Há a primavera, o verão, o outono e o inverno...
— Isso mesmo. Na primavera a vegetação desperta do sono do inverno e brota numa grande alegria de verdes esmeraldinos. Sabe o que é o verde esmeraldino?
Pedrinho sabia.
— É o verde cor de esmeralda.
— Sim — um verde de broto novo, delicado, lindo. Nas laranjeiras você vê muito bem o verde-esmeralda nos brotos novos e vê o verde carregado do verão nas folhas velhas. Pois bem: o verde esmeraldino é o verde da primavera; de modo que se um poeta disser "cor de primavera" a gente já sabe que se trata do verde-esmeralda.
— Nesse caso, "cor de verão" deve ser o verde carregado das copas das laranjeiras — ajuntou Narizinho.
— Perfeitamente, minha filha. "Cor de verão" só pode ser verde carregado. "E cor de outono..."
Dona Benta parou. Tinha primeiro de dar uma ideia do que é o outono nos países frios. Pensou um bocado e disse:
— O outono é a mais linda, a mais poética estação do ano nos países frios. A vegetação inteirinha muda de cor.
Tudo que é verde passa a amarelo ou vermelho.
— Então fica lindo...
— Sim, a natureza toda fica como um sonho de beleza.
Tudo amarelo e vermelho. A gama inteira dos amarelos e vermelhos... No começo, amarelos e vermelhos muito vivos, novinhos ainda. Depois, mais murchos; e por fim, uns amarelos e vermelhos mortos, embaçados, sujos, porque toda a folharada das árvores vai caminhando para o tom pardo, que é o tom da morte das folhas diante do inverno que se aproxima. Estão entendendo?
— Estamos vovó — responderam os dois meninos. — Apesar da sua linguagem elevada estamos entendendo muito bem. E já percebemos o que é "cor de outono", — acrescentou Narizinho. — o tom de palha, não é isso mesmo?
Dona Benta abraçou a sua neta.
— Isso mesmo. É o tom da palha, da folha murcha, já quase sem cor.
Emília meteu o bedelho:
— Já sei. É cor de burro quando foge...
Dona Benta riu-se.
— E qual a cor do burro quando foge, Emília?
A diabinha não se atrapalhou:
— É cor de outono... Narizinho, ansiosa pela continuação da história de Peter Pan, pôs fim naquela dança das cores.
— Chega de cor, vovó. Continue...

E a história continua, aguarde o próximo capítulo.

História em Domínio Público

domingo, 23 de outubro de 2016

PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 7. A Lagoa das Sereias.

Fonte da imagem:https://pixabay.com/pt/sereia-fantasia-recados-p%C3%A1gina-1301877/

Na terceira noite tia Nastácia apareceu na sala ainda mais desapontada do que na véspera. O que estava acontecendo com a sua pobre sombra era simplesmente monstruoso.
— Veja Sinhá — disse ela paxá Dona Benta, colocando-se entre a parede e o lampião de modo a tornar a sombra bem visível.
— Veja Sinhá, como está toda rendada a minha sombra. O ladrão, que ontem me cortou a cabeça dela e um pedaço do ombro, acaba hoje de cortar uma porção de outros pedacinhos.
Realmente assim era. O resto da sombra da pobre negra estava todo picado de buracos feitos à tesoura.
— É um mistério que não consigo decifrar — disse Dona Benta sacudindo a. cabeça. — O Visconde, o nosso grande detetive, bem que podia tomar conta deste caso. Fale com ele.
Tia Nastácia conferenciou com o Visconde, obtendo do grande detetive a promessa de "investigar."
— Deixe a coisa comigo — disse ele. — Já resolvi aquele célebre caso do falso gato Félix e posso muito bem resolver este do ladrão de sombras. Deixe a coisa comigo.
Liquidado o incidente, Dona Benta retomou a história de Peter Pan no ponto em que a tinha deixado na véspera.
— Onde estávamos mesmo? — perguntou ao sentar-se em sua cadeira de pernas serradas.
— Os meninos perdidos haviam construído a casinha de Wendy e todos dormiram dentro dela, menos Peter Pan, que ficou de guarda — lembrou Narizinho.
— Sim, é isso mesmo — confirmou Dona Benta. —
Dormiram na casinha a primeira noite e depois outras.
Durante toda uma semana os meninos não se afastaram dali. Estavam encantados com a mãezinha que Peter Pan lhes arranjara e Wendy estava igualmente encantada com os seus seis filhos. A felicidade naquele acampamento seria completa, se não fosse a tristeza em que havia caído a fada Sininho. Vivia sempre emburrada, escondida pelos cantos, sem coragem de falar com Peter Pan.
Mas tudo cansa. Ao fim da primeira semana. Wendy mostrou vontade de sair a passeio pela floresta, ou algum outro lugar.
— "Podemos ir à Lagoa das Sereias" — propôs Peter Pan.
— "A nossa Terra do Nunca não possui unicamente coisas terríveis, como os piratas e os lobos famintos. Esse Lago das Sereias é lindo, lindo!"
A ideia foi recebida com entusiasmo. Wendy e seus irmãozinhos só conheciam as sereias dos livros de figura.
Sereias de verdade, com cauda de peixe e escamas, bem vivas e perigosas, nunca haviam visto nenhuma, por não serem criaturas encontráveis no jardim zoológico de Londres. Havia lá de tudo — hipopótamos, rinocerontes, leões, tigres, girafas, serpentes, ursos, focas — mas sereia, nenhuma.
— "Vamos, vamos ver as sereias!" — gritaram todos no maior assanhamento.
Num minuto fizeram-se os necessários preparativos e lá se foram todos. Depois de longa viagem avistaram o grande lago verde-mar, em cujo fundo se erguia o palácio encantado das sereias. Às vezes todas elas vinham à tona para se pentearem ao sol, espalhadas pelos rochedos. Outras vezes só se via por ali uma ou outra.
Quando os meninos chegaram à beira d’água, só encontraram uma.
— "Que beleza!" — exclamou Wendy, enlevada. — "Tal qual uma que vem pintada no meu livro de capa azul.
Vejam como as escamas brilham ao sol! Parecem de prata..."
Era na verdade uma das mais lindas sereias do bando.
Tinha os cabelos cor de ouro e bronze misturados, com reflexos verdes. Estava reclinada sobre um rochedo e enquanto cantava corria um pente de ouro pelos cabelos maravilhosos.
— E era lindo esse canto? — indagou Narizinho.
— Oh, nem queira saber! — disse Dona Benta. Ninguém pode dar ideia da beleza do canto das sereias. Só ouvindo.
Tão diferente do canto das criaturas humanas que é até perigoso para nós. Grandes desgraças têm acontecido no mar aos marinheiros que ouviram tais cantos.
— É verdade, vovó, que os marinheiros antigamente entupiam os ouvidos com chumaços de algodão sempre que avistavam uma sereia? — perguntou Pedrinho.
— Deve ser. Não fazendo isso, esse canto maravilhoso deixa os marinheiros embriagados e eles erram todas as manobras do navio, puxam esta corda em vez daquela, botam garrafas de vinho no anzol em vez de iscas — atrapalham tudo, tudo. Resultado: o navio perde o rumo, dá com o bico numa pedra e afunda.
Os meninos perdidos tinham muita vontade de apanhar uma sereia viva, coisa quase impossível por serem espertas demais. Não há lambari arisco que tenha a ligeireza duma sereia. Eles já haviam tentado várias vezes e agora iam tentar novamente.
— Como?
— O meio era um só — meterem-se n’água de jeito que a sereia não os visse e fecharem o cerco. Assim fizeram.
Meteram-se todos n’água e foram nadando sem fazer o menor barulhinho, até que...
— Pegaram? — indagou Narizinho, ansiosa.
— Pegaram nada! A sereia os percebeu e soltou um grito agudo: Mortais! Mergulhando em seguida.
Ficaram todos desapontadíssimos e Miguel chegou a fazer cara de choro. Se não chorou de verdade foi porque Bicudo avistou outra sereia numa rocha mais adiante.
— "Lá está uma sereia-menina, das fáceis de pegar!" — cochichou ele, apontando. — "Temos que ir com muitas cautelas."
Era uma sereiazinha das mais lindas que a gente possa imaginar. Teria aí seus sete anos de idade, já sabia pentear-se com o seu pentinho de ouro e já começava a cantar as primeiras cantigas. Tão distraída estava a seguir os movimentos dum caranguejo na pedra, que deixou os meninos se aproximarem até bem perto. Miguel, que vinha na frente, não se conteve e — zás! — deu um pulo em cima dela.
— Pegou? — quis saber Narizinho, ansiosíssima.
— Desta vez pegou — respondeu Dona Benta — mas não a segurou bem. As sereias são as criaturas mais lisas que existem, dez vezes mais que o sabão, de modo que a sereiazinha escorregou das unhas de Miguel e lá se foi para o fundo, tal qual a primeira.
— Que pena vovó! — exclamou Narizinho. — Todas as histórias de sereias acabam sempre assim. Quando chega a hora de agarrar uma, acontece isto ou aquilo e elas escapam...
— Hei de fazer uma história diferente — declarou Emília. Uma história onde todas as sereias sejam agarradas e amarradas e trazidas para a cidade dentro dum caminhão.
— Pois você errará Emília, se escrever uma história assim — disse Dona Benta. — Além de ser uma judiação arrancar do seu elemento criaturas tão lindas, essa pesca e essa trazida para a cidade em caminhão viria destruir a beleza e o mistério das sereias. Sabe o que acontecia? Os jornais davam o retrato delas impresso em tinta preta (nos livros elas aparecem em lindas pinturas de cores macias); os sábios de óculos vinham estudá-las, isto é, abri-las com as suas facas chamadas bisturis para ver o que tinham dentro, e mil outros horrores. Não, Emília. É melhor que ninguém nunca pegue uma sereia — nem você tampouco.
Na sua historinha, agarre a sereia, mas faça que ela escape no momento de entrar para o caminhão. Ficará muito mais poética a sua historinha, eu garanto.
— Credo! Disse tia Nastácia. — Os homens são tão malvados que até eram capazes de picar as coitadas em pedaços, para vender nos açougues lombo de sereia, entrecosto de sereia, rabo de sereia, miolo de sereia...
— Continue vovó — pediu Pedrinho. — A sereiazinha escapou e...
— E sumiu-se no fundo d’água, indo avisar as outras, de modo que naquele dia não houve mais sereias na superfície do lago.
— E os meninos voltaram para a casinha de Wendy...
— Não. Em vez de sereia apareceu ao longe um bote.
Os piratas do Capitão Gancho, que haviam ancorado o seu navio a uns dez ou doze quilômetros daquele ponto, lá vinham vindo de bote para o lado dos pegadores de sereias.
Como fosse grande o perigo, a meninada tratou de voltar para a praia quanto antes. O meio era um só — nadar, e lançaram-se à água e nadaram para terra sem sequer volver os olhos para trás. Só Peter Pan se animou a fazer isso. Olhou e viu que Pantera Branca, a chefa dos índios Peles-Vermelhas, vinha de pé à proa do bote, amarrada com cordas.
Peter Pan franziu a testa. Fazia assim sempre que tinha de resolver um problema urgente. Parece que com o tal franzimento de testa ele espremia o cérebro para que espirrasse alguma boa ideia. — "Já sei" — murmurou para si mesmo logo depois. — "Os terríveis piratas derrotaram os índios e aprisionaram Pantera Branca, e agora vão abandoná-la num rochedo para que morra afogada pela
maré."
Peter Pan tinha adivinhado. O bote dirigia-se para o rochedo onde estivera a sereia grande, com ordem do Capitão Gancho para largar lá a índia, bem amarrada com grossas cordas.
"Mas isso não pode ser!" — pensou consigo Peter Pan.
"Preciso salvar a pobre criatura, custe o que custar. Pantera Branca é nossa aliada e nossa amiga." — Franziu de novo a
testa e imediatamente espirrou de dentro do seu cérebro outra ideia muito boa.
— Qual foi? — quis saber Pedrinho.


Você quer saber a ideia de Peter Pan? Vamos aguardar o próximo episódio.

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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 6.

Em seguida deu uma ordem ao tenente do bando.
— "Olá, Capacete! Diga ao cozinheiro que prepare um pão-de-ló bem grande e bem bonito e que ponha dentro..."
Não pôde terminar. Um tique-taque muito seu conhecido fez-se ouvir perto.
— "O crocodilo!" — berrou o chefe dos piratas, disparando na fuga a todo galope, seguido pelo bando inteiro — e logo se sumiram no horizonte dentro duma nuvem de pó. O crocodilo, tique-taque, os acompanhou sem pressa nenhuma, filosofando que se daquela vez não o havia apanhado, de outra o apanharia.
— A senhora falou em nuvem de poeira, vovó. Mas a floresta não estava coberta de neve? — indagou Narizinho.
— Sim, minha filha. Mas a neve logo que cai, acumula-se solta como farinha. Se dá o vento, voa como poeira. Ora, os piratas fugiram ventando como tia Nastácia diz quando a carreira é séria, e, portanto levantavam nuvens de neve em pó.
— E que aconteceu depois? — quis saber Pedrinho.
— Pelo tropel, os meninos lá embaixo perceberam que os piratas haviam fugido e trataram de sair do subterrâneo. Foram subindo pelos ocos, e ao chegarem à superfície viram que os Peles-Vermelhas estavam na pista dos piratas.
— Que história é essa, vovó? Então os índios eram inimigos dos piratas?
— Eram aliados de Peter Pan e inimigos do Capitão Gancho, contra o qual andavam em guerra feroz.
O modo desses índios fazerem guerra merece ser contado. Eles trepavam às árvores para espiar ao longe, com a mão sobre os olhos em forma de viseira e aplicavam o ouvido sobre a terra para ouvirem os rumores distantes.
Caminhavam de rastos, como cobras, escondendo-se atrás de cada toco de pau ou moita. Levavam arcos e flechas e também um tantã, que entre os índios é o tambor da vitória.
Infelizmente era muito raro ouvir-se o som do tantã, porque os Peles-Vermelhas sempre saíam derrotados e fugiam como lebres.
Mas os meninos, ao porem as cabecinhas fora dos ocos só viram o fim da correria. Em minutos a poeira levantada pelos piratas em fuga e pelos índios perseguidores desapareceu no horizonte.
— Que expressão bonita! — exclamou Emília. — Desapareceu no horizonte!... Acho uma beleza em tudo quanto desaparece no horizonte. Inda hei de escrever uma história cheia de desaparecimentos no horizonte, com três pontinhos no fim...
E a boneca ficou absorta, de olhos pendurados no horizonte, enquanto Dona Benta, a rir-se, continuava a história.
— Passaram os piratas — disse ela. — Depois passaram os índios. Só faltava passar o bando de lobos famintos, que habitualmente acompanham os guerreiros para comer os mortos.
— E vieram os lobos nesse dia?
— Como não? Logo depois surgiram os lobos no horizonte; mas farejando a gentinha de Peter Pan fora do subterrâneo, desistiram de seguir os guerreiros e vieram como flechas devorar os meninos.
Peter Pan, entretanto, já havia descoberto o melhor meio de assustar lobo faminto. Consiste em sair ao encontro deles de costas, com a cabeça entre as pernas. Os lobos entreparam, desnorteados, não podendo compreender que espécie de animal é aquele, e depois fogem com velocidade maior ainda que a do Capitão Gancho ao ouvir o tique-taque do crocodilo.
Assim que os lobos famintos chegaram a uma certa distância, os seis meninos, guiados por Bicudo, correram-lhes ao encontro de costas, com a cabeça entre as pernas.
Foi uma beleza! Os lobos entrepararam uns segundos e em seguida voltaram-se nos pés e sumiram-se dentro da floresta.
Ora graças! Os meninos perdidos podiam enfim brincar sossegadamente de pegador ou chicote-queimado à luz do lindo luar que fazia. Mas não brincaram, porque Cachimbo lhes chamou a atenção para qualquer coisa no céu.
— "Olhem! Lá vem voando para o nosso lado uma espécie de pássaro branco bem grande..."
Todos ergueram o nariz e arregalaram os olhos. Não podiam compreender que pássaro fosse aquele. Não parecia garça, nem outra qualquer ave conhecida. Súbito, uma bola de fogo riscou o ar, vindo descer bem no meio deles. Era a fada Sininho.
— "Peter Pan manda dizer" — declarou ela nervosamente na sua linguagem do tlin, tlin, tlin — "que é preciso matar quanto antes essa ave que vem vindo."
Cachimbo, o melhor atirador do grupo, desceu imediatamente ao subterrâneo, de onde voltou com um arco e uma flecha. Ajustou a flecha ao arco, fez pontaria, esticou a corda e — zuct! — A flecha lá se foi assobiando e deu certinho no alvo. A ave branca vacilou no voo, cambaleou, descrevendo um parafuso e veio cair junto ao grupo. Todos correram para apanhá-la.
— "Não é ave!" — exclamaram cheios de surpresa. — "É uma linda menina de camisola branca. Talvez seja a tal mãezinha que Peter Pan vive prometendo trazer-nos."
Era Wendy, que se tinha adiantado dos demais durante o voo. A fada Sininho havia cometido aquela traição porque estava a roer-se de ciúmes: Gostava de Peter Pan e não podia suportar as atenções e requebrados do menino para com a sua nova conhecida. Daí lhe veio a ideia de fazê-la flechar por um dos meninos.
Nisto chegou Peter Pan, seguido de João Napoleão e Miguel. Assim que pôs o pé em terra, foi logo indagando:
— "Onde está Wendy?" — Ao saber que Wendy havia sido flechada, teve um grande acesso de cólera e passou mão do arco para também flechar Cachimbo no coração. E flechava mesmo, se não fosse Wendy despertar do desmaio ainda a tempo de impedir tamanho crime.
Wendy não havia sido ferida, porque a flecha batera justamente no botão-beijo que Peter Pan lhe havia dado. Só sentiu o choque da flecha; e como já estivesse cansada e tonta de tanto voar, bastou isso para fazê-la perder os sentidos e cair.
Vendo que ela estava vivinha, os meninos a rodearam na maior alegria, embora sem saber o que fazer. Levar Wendy para a morada subterrânea não lhes parecia bem.
Deixá-la por ali ao relento, era pior. O único remédio seria construir-lhe uma casinha bem ajeitada. Estavam a discutir esse ponto quando Wendy começou a cantar uma cantiga em verso por ela mesma inventada, assim:

Uma casinha quero ter,
Que menor não haja no mundo;
Terreiro bem limpo na frente,
Jardim de mil flores no fundo.

— "Pronto! Já sabemos o que ela quer!" — exclamaram os meninos em coro. — "Vamos fazer a casinha de Wendy, com jardim de mil flores ao fundo."
E foi uma lufa-lufa. Bicudo correu a cortar paus na floresta; Cachimbo desceu ao subterrâneo em procura duma velha grade muito ajeitada para a armação do teto; Assobio foi em busca dum pedaço de tapete velho e dum rolo de encerado.
Num instante ficou pronta a casinha. Peter Pan observou que haviam esquecido a chaminé. Onde já se viu casa sem chaminé? Correu os olhos em torno, em procura, e deteve-os no Miguel, que tinha na cabeça a cartola de seu pai.
— "Ótimo!" — gritou Peter Pan tomando a cartola. — "Melhor chaminé do que esta não é possível" — e arrumou-a em cima do teto.
E tudo mais foi assim. O material de construção mais empregado era o "faz-de-conta". Não tem fechadura na porta? Faz de conta que esta fivela é fechadura. Não tem cadeira? Faz de conta que esta pedra é cadeira.
Wendy não precisou entrar na casinha, porque a casinha havia sido construída em redor dela — e foi a primeira vez no mundo que semelhante coisa aconteceu.
Pronta a casa com a dona dentro, Peter Pan veio e bateu na porta — toque, toque, toque. Wendy surgiu à janela e perguntou quem era.
— "São os meninos perdidos que desejam saber se a menina está disposta a ser a mãezinha deles. Nunca tiveram mãe e querem experimentar se é bom."
— "Com muito gosto" — respondeu Wendy. — "Serei mãe de todos, contarei histórias à noite, remendarei as roupas de dia, agradarei aos que chorarem e ralharei com os que fizerem coisas inconvenientes — tudo igualzinho como mamãe faz lá em casa. Mas só serei mãe se Peter Pan quiser ser o pai."
Todos bateram palmas, numa grande alegria. Iam ter mãe afinal. Iam ter quem lhes contasse histórias — que maravilha!
— "História! História!" — exclamaram. — "Para começar, conte já uma linda história" — e os meninos foram entrando para a casinha, em atropelo. Era incrível que lá coubessem todos, mas couberam. Para isso foi preciso que se arrumassem com a habilidade e o jeito com que as sardinhas se arrumam dentro das latas.
Logo que todos se acomodaram, Wendy começou assim:
— "Era uma vez uma pobre menina chamada Cinderela" — e foi por aí além até que o sono tomasse conta de toda a sua filharada.
Tudo dormiu. Dormiu a floresta o seu sono agitado de morcegos, pios de coruja e uivos de lobo. Dormiu o crocodilo, lá longe. Dormiram os piratas; e os índios, vendo o inimigo a dormir, deixaram a perseguição para o dia seguinte e dormiram também.
Só não dormiu Peter Pan. Passou toda, a noite fora, de espada na mão, montando guarda à casinha da jovem mãe que havia arranjado para os meninos perdidos.
Dona Benta parou nesse ponto, achando que o melhor era também irem dormir.
— Chega por hoje. O resto fica para amanhã. Agora é cada um ir para sua cama sonhar com o Capitão Gancho e o crocodilo
— Credo! — exclamou tia Nastácia, erguendo-se. — Eu quero sonhar com Dona Wendy, que é tão galantinha. Mas com esse canhoto malvado, Deus me livre!
Pedrinho deu um suspiro. Estava lamentado não haver fugido para a Terra do Nunca tio dia em que nasceu.
Narizinho também suspirou. Quanto não daria para ser Wendy Darling?
Só Emília não suspirou, nem disse nada. Saiu dali muito quieta e foi mexer na caixa de ferramentas de Pedrinho.
Dona Benta encontrou-a lá, lidando para entortar um prego.
— Que é que está fazendo, Emília?
— Estou vendo se faço uma munheca de gancho como a do Capitão.
— E para que, bobinha?
— Para assustar tia Nastácia. Quero ganchar aquele beição dela...

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