PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 6.

Em seguida deu uma ordem ao tenente do bando.
— "Olá, Capacete! Diga ao cozinheiro que prepare um pão-de-ló bem grande e bem bonito e que ponha dentro..."
Não pôde terminar. Um tique-taque muito seu conhecido fez-se ouvir perto.
— "O crocodilo!" — berrou o chefe dos piratas, disparando na fuga a todo galope, seguido pelo bando inteiro — e logo se sumiram no horizonte dentro duma nuvem de pó. O crocodilo, tique-taque, os acompanhou sem pressa nenhuma, filosofando que se daquela vez não o havia apanhado, de outra o apanharia.
— A senhora falou em nuvem de poeira, vovó. Mas a floresta não estava coberta de neve? — indagou Narizinho.
— Sim, minha filha. Mas a neve logo que cai, acumula-se solta como farinha. Se dá o vento, voa como poeira. Ora, os piratas fugiram ventando como tia Nastácia diz quando a carreira é séria, e, portanto levantavam nuvens de neve em pó.
— E que aconteceu depois? — quis saber Pedrinho.
— Pelo tropel, os meninos lá embaixo perceberam que os piratas haviam fugido e trataram de sair do subterrâneo. Foram subindo pelos ocos, e ao chegarem à superfície viram que os Peles-Vermelhas estavam na pista dos piratas.
— Que história é essa, vovó? Então os índios eram inimigos dos piratas?
— Eram aliados de Peter Pan e inimigos do Capitão Gancho, contra o qual andavam em guerra feroz.
O modo desses índios fazerem guerra merece ser contado. Eles trepavam às árvores para espiar ao longe, com a mão sobre os olhos em forma de viseira e aplicavam o ouvido sobre a terra para ouvirem os rumores distantes.
Caminhavam de rastos, como cobras, escondendo-se atrás de cada toco de pau ou moita. Levavam arcos e flechas e também um tantã, que entre os índios é o tambor da vitória.
Infelizmente era muito raro ouvir-se o som do tantã, porque os Peles-Vermelhas sempre saíam derrotados e fugiam como lebres.
Mas os meninos, ao porem as cabecinhas fora dos ocos só viram o fim da correria. Em minutos a poeira levantada pelos piratas em fuga e pelos índios perseguidores desapareceu no horizonte.
— Que expressão bonita! — exclamou Emília. — Desapareceu no horizonte!... Acho uma beleza em tudo quanto desaparece no horizonte. Inda hei de escrever uma história cheia de desaparecimentos no horizonte, com três pontinhos no fim...
E a boneca ficou absorta, de olhos pendurados no horizonte, enquanto Dona Benta, a rir-se, continuava a história.
— Passaram os piratas — disse ela. — Depois passaram os índios. Só faltava passar o bando de lobos famintos, que habitualmente acompanham os guerreiros para comer os mortos.
— E vieram os lobos nesse dia?
— Como não? Logo depois surgiram os lobos no horizonte; mas farejando a gentinha de Peter Pan fora do subterrâneo, desistiram de seguir os guerreiros e vieram como flechas devorar os meninos.
Peter Pan, entretanto, já havia descoberto o melhor meio de assustar lobo faminto. Consiste em sair ao encontro deles de costas, com a cabeça entre as pernas. Os lobos entreparam, desnorteados, não podendo compreender que espécie de animal é aquele, e depois fogem com velocidade maior ainda que a do Capitão Gancho ao ouvir o tique-taque do crocodilo.
Assim que os lobos famintos chegaram a uma certa distância, os seis meninos, guiados por Bicudo, correram-lhes ao encontro de costas, com a cabeça entre as pernas.
Foi uma beleza! Os lobos entrepararam uns segundos e em seguida voltaram-se nos pés e sumiram-se dentro da floresta.
Ora graças! Os meninos perdidos podiam enfim brincar sossegadamente de pegador ou chicote-queimado à luz do lindo luar que fazia. Mas não brincaram, porque Cachimbo lhes chamou a atenção para qualquer coisa no céu.
— "Olhem! Lá vem voando para o nosso lado uma espécie de pássaro branco bem grande..."
Todos ergueram o nariz e arregalaram os olhos. Não podiam compreender que pássaro fosse aquele. Não parecia garça, nem outra qualquer ave conhecida. Súbito, uma bola de fogo riscou o ar, vindo descer bem no meio deles. Era a fada Sininho.
— "Peter Pan manda dizer" — declarou ela nervosamente na sua linguagem do tlin, tlin, tlin — "que é preciso matar quanto antes essa ave que vem vindo."
Cachimbo, o melhor atirador do grupo, desceu imediatamente ao subterrâneo, de onde voltou com um arco e uma flecha. Ajustou a flecha ao arco, fez pontaria, esticou a corda e — zuct! — A flecha lá se foi assobiando e deu certinho no alvo. A ave branca vacilou no voo, cambaleou, descrevendo um parafuso e veio cair junto ao grupo. Todos correram para apanhá-la.
— "Não é ave!" — exclamaram cheios de surpresa. — "É uma linda menina de camisola branca. Talvez seja a tal mãezinha que Peter Pan vive prometendo trazer-nos."
Era Wendy, que se tinha adiantado dos demais durante o voo. A fada Sininho havia cometido aquela traição porque estava a roer-se de ciúmes: Gostava de Peter Pan e não podia suportar as atenções e requebrados do menino para com a sua nova conhecida. Daí lhe veio a ideia de fazê-la flechar por um dos meninos.
Nisto chegou Peter Pan, seguido de João Napoleão e Miguel. Assim que pôs o pé em terra, foi logo indagando:
— "Onde está Wendy?" — Ao saber que Wendy havia sido flechada, teve um grande acesso de cólera e passou mão do arco para também flechar Cachimbo no coração. E flechava mesmo, se não fosse Wendy despertar do desmaio ainda a tempo de impedir tamanho crime.
Wendy não havia sido ferida, porque a flecha batera justamente no botão-beijo que Peter Pan lhe havia dado. Só sentiu o choque da flecha; e como já estivesse cansada e tonta de tanto voar, bastou isso para fazê-la perder os sentidos e cair.
Vendo que ela estava vivinha, os meninos a rodearam na maior alegria, embora sem saber o que fazer. Levar Wendy para a morada subterrânea não lhes parecia bem.
Deixá-la por ali ao relento, era pior. O único remédio seria construir-lhe uma casinha bem ajeitada. Estavam a discutir esse ponto quando Wendy começou a cantar uma cantiga em verso por ela mesma inventada, assim:

Uma casinha quero ter,
Que menor não haja no mundo;
Terreiro bem limpo na frente,
Jardim de mil flores no fundo.

— "Pronto! Já sabemos o que ela quer!" — exclamaram os meninos em coro. — "Vamos fazer a casinha de Wendy, com jardim de mil flores ao fundo."
E foi uma lufa-lufa. Bicudo correu a cortar paus na floresta; Cachimbo desceu ao subterrâneo em procura duma velha grade muito ajeitada para a armação do teto; Assobio foi em busca dum pedaço de tapete velho e dum rolo de encerado.
Num instante ficou pronta a casinha. Peter Pan observou que haviam esquecido a chaminé. Onde já se viu casa sem chaminé? Correu os olhos em torno, em procura, e deteve-os no Miguel, que tinha na cabeça a cartola de seu pai.
— "Ótimo!" — gritou Peter Pan tomando a cartola. — "Melhor chaminé do que esta não é possível" — e arrumou-a em cima do teto.
E tudo mais foi assim. O material de construção mais empregado era o "faz-de-conta". Não tem fechadura na porta? Faz de conta que esta fivela é fechadura. Não tem cadeira? Faz de conta que esta pedra é cadeira.
Wendy não precisou entrar na casinha, porque a casinha havia sido construída em redor dela — e foi a primeira vez no mundo que semelhante coisa aconteceu.
Pronta a casa com a dona dentro, Peter Pan veio e bateu na porta — toque, toque, toque. Wendy surgiu à janela e perguntou quem era.
— "São os meninos perdidos que desejam saber se a menina está disposta a ser a mãezinha deles. Nunca tiveram mãe e querem experimentar se é bom."
— "Com muito gosto" — respondeu Wendy. — "Serei mãe de todos, contarei histórias à noite, remendarei as roupas de dia, agradarei aos que chorarem e ralharei com os que fizerem coisas inconvenientes — tudo igualzinho como mamãe faz lá em casa. Mas só serei mãe se Peter Pan quiser ser o pai."
Todos bateram palmas, numa grande alegria. Iam ter mãe afinal. Iam ter quem lhes contasse histórias — que maravilha!
— "História! História!" — exclamaram. — "Para começar, conte já uma linda história" — e os meninos foram entrando para a casinha, em atropelo. Era incrível que lá coubessem todos, mas couberam. Para isso foi preciso que se arrumassem com a habilidade e o jeito com que as sardinhas se arrumam dentro das latas.
Logo que todos se acomodaram, Wendy começou assim:
— "Era uma vez uma pobre menina chamada Cinderela" — e foi por aí além até que o sono tomasse conta de toda a sua filharada.
Tudo dormiu. Dormiu a floresta o seu sono agitado de morcegos, pios de coruja e uivos de lobo. Dormiu o crocodilo, lá longe. Dormiram os piratas; e os índios, vendo o inimigo a dormir, deixaram a perseguição para o dia seguinte e dormiram também.
Só não dormiu Peter Pan. Passou toda, a noite fora, de espada na mão, montando guarda à casinha da jovem mãe que havia arranjado para os meninos perdidos.
Dona Benta parou nesse ponto, achando que o melhor era também irem dormir.
— Chega por hoje. O resto fica para amanhã. Agora é cada um ir para sua cama sonhar com o Capitão Gancho e o crocodilo
— Credo! — exclamou tia Nastácia, erguendo-se. — Eu quero sonhar com Dona Wendy, que é tão galantinha. Mas com esse canhoto malvado, Deus me livre!
Pedrinho deu um suspiro. Estava lamentado não haver fugido para a Terra do Nunca tio dia em que nasceu.
Narizinho também suspirou. Quanto não daria para ser Wendy Darling?
Só Emília não suspirou, nem disse nada. Saiu dali muito quieta e foi mexer na caixa de ferramentas de Pedrinho.
Dona Benta encontrou-a lá, lidando para entortar um prego.
— Que é que está fazendo, Emília?
— Estou vendo se faço uma munheca de gancho como a do Capitão.
— E para que, bobinha?
— Para assustar tia Nastácia. Quero ganchar aquele beição dela...

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