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PETER PAN A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER. Parte 8 - A morada subterrânea.

No outro dia, assim que tia Nastácia acendeu o lampião da sala de jantar, o caso da sombra veio novamente à berlinda. A negra colocou-se entre a luz e a parede e todos puderam ver que sua sombra havia diminuído de mais um bom pedaço.
— Veja Sinhá — dizia ela com o beiço pendurado. — Estou só com um toco de sombra. Neste andar acabo sem sombra nenhuma e vai ser uma grande desgraça...
Dona Benta pôs os óculos e viu que era isso mesmo.
— O Visconde ainda não descobriu coisa nenhuma?
— Estou na pista — respondeu o pequeno Sherlock. — Já examinei cuidadosamente o corte e vi que foi feito com tesoura. Ando agora a examinar o fio de todas as tesouras existentes nesta casa. Pela comparação hei de descobrir com qual delas o "rato" anda cortando esta sombra — e depois...
— E depois o quê? — perguntou Emília com carinha de santa.
— Depois, veremos.
Emília fez um muxoxo e deu uma cuspidinha de desprezo.
— Vamos! Comece vovó — pediu Narizinho. — Estou ansiosa pelo resto da aventura.
Dona Benta sentou-se na sua cadeira de pernas serradas e começou:
— Pois muito que bem. Daquela grande aventura no Lago das Sereias os meninos voltaram com alguns arranhões, que Wendy tratou de curar como pôde, com um ótimo unguento faz-de-conta. Todos sararam e a vidinha continuou muito feliz na casa de Wendy e na caverna subterrânea que a menina arrumara na perfeição.
Essa caverna era uma gruta natural que as águas haviam escavado na pedra, isso há muitos milhares de anos. Tão velha, que tinha barbas brancas no teto — ou estalactites.
— Que vem a ser isso? — perguntou Pedrinho.
Dona Benta explicou que em muitas cavernas as águas das chuvas se coam através da terra que há em cima e pingam do teto. Ao atravessarem a camada de terra essas águas dissolvem certos calcários e, ao pingarem, esses calcários dissolvidos endurecem outra vez. E com o andar do tempo formam-se compridas estalactites, que são penduricalhos que descem do teto das cavernas até o chão.
Acontece também se formarem no chão, nos pontos onde a água pinga endurecimentos do mesmo gênero, que se chamam estalagmites. As estalactites descem do teto para o chão e as estalagmites sobem do chão para o teto, até se encontrarem.
Dada a explicação, Dona Benta continuou:
— Naquelas estalactites os meninos penduravam mil coisas — cestas de apanhar peixe, anzóis, varas, porungas e brinquedos construídos por eles próprios. Bem no centro da caverna existe uma lareira.
— Que é lareira, vovó? — perguntou Narizinho.
— Aqui no Brasil temos o clima quente ou temperado e por isso não se usam lareiras nas casas. Nos países frios, porém, não existe quem não saiba o que é lareira, porque não existe casa sem lareira. É o lugar de fazer fogo para o aquecimento da casa. Entre nós, e em todos os países quentes, fogo só há na cozinha, para cozinhar. Nos países frios, além desse fogo da cozinha há o fogo para aquecer a casa. Mas isso unicamente nos países atrasados. Nos países adiantados, em vez da velha lareira existe um sistema de canos de vapor quente que percorrem todos os quartos e salas por dentro das paredes e os mantém na temperatura que se deseja.
— Basta, vovó — disse a menina. — Continue.
Dona Benta continuou:
— Pois é como eu ia dizendo. A gentilíssima Wendy deixou a caverna um brinco de asseio e ordem. Arranjou para os meninos uma cama larga onde todos se arrumavam muito bem. Também arranjou um berço para o Miguel.
Miguel não estava mais em idade de berço, mas Wendy era de opinião que não pode existir casa sem berço, e como fosse ele o mais criança, teve de representar o papel de bebe. Esse berço não passava duma das cestas de apanhar peixe, arrumada entre duas estalactites.
Wendy não esqueceu nem sequer da sua terrível inimiga Sininho. Arranjou-lhe num canto um quarto de boneca, fechado de cortinas vermelhas e cheio de lindas coisas minúsculas, próprias para uma fada daquele tamanhinho.
Cadeiras não havia na gruta, mas havia bancos feitos de chapéu-de-sapo, um para cada menino. Wendy e Peter Pan usavam uma poltrona especial, feita de duas enormes cabaças recortadas com muito jeito. Ali se sentavam juntinhos, como fazem os papais e as mamães que se querem bem.
Certo sábado à noite estavam todos muito ansiosos à espera de Peter Pan, que saíra pela manhã numa expedição cinegética.
— Pare aí, vovó! — berrou Pedrinho. — Essa palavra esquisita me deixou tonto. Que vem a ser isso?
— Coisa das mais simples, meu filho. Cinegético quer dizer "relativo a caçada". Expedição cinegética significa o mesmo que caçada.
— Mas se é tão simples dizer caçada, por que vem a senhora com essa terrível complicação? — observou Pedrinho, que era inimigo de palavras difíceis.
— Para você perguntar e eu ter ocasião de ensinar uma palavra nova que ninguém aqui sabe. Neste mundo, Pedrinho, precisamos conhecer a linguagem das gentes simples e também a linguagem dos pedantes — se não os pedantes nos embrulham. Você já aprendeu o que é cinegético e se em qualquer tempo algum sábio da Grécia quiser tapear você com um cinegético, em vez de abrir a boca, como um bobo, você já pode dar uma risadinha de sabidão.
— Vou aplicar este cinegético já e já, — disse o menino, entusiasmado.
Tia Nastácia, que saíra para ferver a água do chá, vinha entrando.
— Sabe tia Nastácia, que amanhã vou fazer uma expedição cinegética?
A palavra tonteou a negra, fazendo-a piscar três vezes.
— Cine, o quê?
— Gética. Ci-ne-gé-ti-ca
Tia Nastácia arregalou os olhos, sem perceber coisa nenhuma. Depois, voltando-se para Dona Benta:
— Não deixe ir, Sinhá. Não sei o que isso é, mas coisa boa não há de ser. Não deixe, Sinhá.
Todos se riram da pobre preta.
— Vê Pedrinho, como é bom saber? Essa mesma cara de espanto você faria, se ouvisse tal palavra antes da minha explicação. Já agora, em vez de ser bobeado, você bobeia os outros. Está compreendendo a grande vantagem de saber?
— Chega de gramática, vovó! — protestou a menina. — Vamos à história. Os meninos estavam à espera de Peter Pan. E depois?
— Pois é. Os meninos estavam à espera de Peter Pan, que saíra à caça, e em cima da morada subterrânea Pantera Branca e seus índios montavam guarda.
Súbito, soou um assobio agudo. Era o sinal de Peter Pan. De longe já ele anunciava a sua chegada com aquele assobio agudíssimo. Pantera Branca foi ao seu encontro, enquanto os meninos subiam às árvores para vê-lo chegar.
Cada vez que Peter Pan vinha duma das suas excursões, era uma festa para a meninada. Como bom pai, trazia sempre novidades gostosas nos bolsos — frutas do mato, doces, mil coisas. Os meninos o rodeavam como ratos rodeiam um saco de milho, e cada qual ia enfiando as mãos nos seus bolsos para pescar o que saísse.
Peter Pan entrou na caverna e dirigiu-se para o lado de Wendy, naquele momento ocupada em remendar as meias de Levemente-Estragado. Estava linda no seu vestido cor de outono, com um galhinho de amora-do-mato nos cabelos.
Narizinho estranhou aquela expressão "cor de outono."
— Que história é essa, vovó? O outono é uma das estações do ano, mas não me consta que tenha cor...
Dona Benta riu-se.
— Minha filha, a língua está cheia de expressões poéticas. São os poetas que inventam essas coisas tão lindinhas para enfeite da linguagem. O outono é a mais linda de todas as estações nos países frios onde cai neve.
Aqui no Brasil ninguém percebe diferença grande entre o outono, o verão e o inverno. Na realidade só temos duas estações — a das águas e a da seca. A vegetação se mostra intensamente verde na estação das águas, e também verde, essas de um verde mais sujo, mais seco, na estação da seca — que vai de maio a outubro. Nos países frios não é assim.
As quatro estações são perfeitamente definidas.
— Eu sei! — gritou Pedrinho. — Há a primavera, o verão, o outono e o inverno...
— Isso mesmo. Na primavera a vegetação desperta do sono do inverno e brota numa grande alegria de verdes esmeraldinos. Sabe o que é o verde esmeraldino?
Pedrinho sabia.
— É o verde cor de esmeralda.
— Sim — um verde de broto novo, delicado, lindo. Nas laranjeiras você vê muito bem o verde-esmeralda nos brotos novos e vê o verde carregado do verão nas folhas velhas. Pois bem: o verde esmeraldino é o verde da primavera; de modo que se um poeta disser "cor de primavera" a gente já sabe que se trata do verde-esmeralda.
— Nesse caso, "cor de verão" deve ser o verde carregado das copas das laranjeiras — ajuntou Narizinho.
— Perfeitamente, minha filha. "Cor de verão" só pode ser verde carregado. "E cor de outono..."
Dona Benta parou. Tinha primeiro de dar uma ideia do que é o outono nos países frios. Pensou um bocado e disse:
— O outono é a mais linda, a mais poética estação do ano nos países frios. A vegetação inteirinha muda de cor.
Tudo que é verde passa a amarelo ou vermelho.
— Então fica lindo...
— Sim, a natureza toda fica como um sonho de beleza.
Tudo amarelo e vermelho. A gama inteira dos amarelos e vermelhos... No começo, amarelos e vermelhos muito vivos, novinhos ainda. Depois, mais murchos; e por fim, uns amarelos e vermelhos mortos, embaçados, sujos, porque toda a folharada das árvores vai caminhando para o tom pardo, que é o tom da morte das folhas diante do inverno que se aproxima. Estão entendendo?
— Estamos vovó — responderam os dois meninos. — Apesar da sua linguagem elevada estamos entendendo muito bem. E já percebemos o que é "cor de outono", — acrescentou Narizinho. — o tom de palha, não é isso mesmo?
Dona Benta abraçou a sua neta.
— Isso mesmo. É o tom da palha, da folha murcha, já quase sem cor.
Emília meteu o bedelho:
— Já sei. É cor de burro quando foge...
Dona Benta riu-se.
— E qual a cor do burro quando foge, Emília?
A diabinha não se atrapalhou:
— É cor de outono... Narizinho, ansiosa pela continuação da história de Peter Pan, pôs fim naquela dança das cores.
— Chega de cor, vovó. Continue...

E a história continua, aguarde o próximo capítulo.

História em Domínio Público

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