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domingo, 28 de agosto de 2022

O linho.

Narrador: O linho estava em flor. Com as mais lindas flores azuis, tão suaves e delicadas quanto asas de uma borboleta; quem sabe até mais.

O sol brilhava sobre o linho e as nuvens de chuva o banhavam; era tão bom para ele quanto para as crianças pequenas serem banhadas e depois ganharem um beijo da mamãe. Elas se sentem muito melhor depois, não é verdade? E assim também se sentia o linho.

Linho: Dizem que estou me saindo muito bem.

Que estou ficando cada vez mais alto e belo. De mim vão tirar um bom corte de tecido. Eu sou muito sortudo! Devo ser o mais sortudo de todos os linhos!

Sou tão sortudo que sei que posso ir longe na vida.

O sol me dá força e como gosto do frescor da chuva!

Sim, sou o mais sortudo. Sou o mais sortudo de todos.

 

Narrador: Mas as estacas da cerca não pensavam bem assim.

Estacas da cerca: Ora, ora, ora. Você não sabe nada da vida, mas nós sabemos. Temos até cicatrizes para comprovar.

Efeito sonoro: Cric, crec, crac (som de madeira rangendo).

Estacas da cerca: Pim, pam, pum, a canção acabou!

 

Linho: Não, ela não acabou. O sol vai brilhar amanhã; a chuva é tão refrescante. Posso ver que estou crescendo; posso sentir que estou florindo. Sim, sou o mais sortudo de todos.

Narrador: Até que um dia, o linho foi arrancado com raiz e tudo – e doeu muito. E ele foi deixado na água, como se quisessem afogá-lo, e depois levado ao fogo, como se quisessem cozinhá-lo. Foi terrível!

Linho: Não dá pra estar sempre por cima; é melhor analisar as coisas antes de julgá-las.

Narrador: E as coisas não poderiam ir de mal a pior. O linho foi machucado, quebrado, queimado, retalhado e sabe lá Deus mais o quê. Foi colocado em uma roda de fiar. Era impossível organizar os pensamentos, sendo jogado de lá para cá.

Linho: Tenho sido sortudo demais. É preciso ser grato por tudo de bom que se tem na vida. Ser grato...

Ah, ser grato.

Narrador: E então ele se transformou em um grande e esplêndido corte de tecido. O linho inteiro, cada pedacinho dele transformou-se num só corte de tecido.

Linho: Ah, nunca pensei que algo assim pudesse acontecer comigo. Com certeza, a sorte está do meu lado. E aquelas estacas de cerca diziam que sabiam de tudo. Não. É verdade que tive momentos difíceis, mas tirei algo de bom de tudo isso: sou o mais sortudo de todos. Sou tão forte e suave, tão alvo e tão grande. Não é que até mesmo a esposa do pastor falou de mim? Disse que eu sou o melhor corte de tecido da paróquia! Não posso ser mais sortudo do que sou.

Narrador: E então o linho foi levado para dentro da casa e caiu na tesoura. Foi cortado, recortado e espetado por agulhas.

Linho: Ah, que tortura! Não foi nada divertido.

Narrador: Então, o linho foi transformado em doze daquelas coisas... Aquelas coisas sobre o que as pessoas não falam muito, mas que são usadas por todos – sim, uma dúzia inteirinha delas.

Linho: Ah, olha só isso! Pelo menos, me tornei alguma coisa importante. É o meu destino... Ah, é tão maravilhoso!

Agora serei útil para o mundo e é assim que tem que ser; é o prazer do dever cumprido. Fomos transformados em doze peças de roupa; e ainda assim, todas nós formamos uma coisa só, formamos uma dúzia. Que sorte, que maravilha!

Narrador: Os anos se passaram – e a última das peças se transformou em farrapos.

Tecido de linho: Um dia, tudo tem um fim. Eu gostaria de ter durado um pouco mais, mas não adianta querer o impossível.

Narrador: Foram transformadas em trapos e retalhos, aí, acharam que tudo tinha terminado, mas então, foram rasgadas, esmagadas, fervidas e sabe-se lá mais o quê – e lá estavam elas, transformadas no mais delicado papel branco!

Papel: Ora, que surpresa! – que surpresa maravilhosa! Agora estou melhor do que nunca, agora vão escrever em mim. Não há limites para o que podem escrever em mim. É uma sorte que eu não esperava.

Narrador: E nele foram escritas as mais encantadoras histórias que as pessoas liam. Boas histórias que tornavam os homens melhores e mais sábios.

As palavras colocadas no papel foram uma bênção para muitos.

Papel: É muito mais do que eu sonhei quando era uma florzinha azul no campo. Como eu poderia imaginar que um dia levaria tanto conhecimento e tanta alegria para a humanidade. Eu ainda não consigo entender. Vejam só! Realmente aconteceu! Só Deus sabe que a única coisa que eu fiz foi existir.

Ainda assim, suportei tudo para a felicidade de uns e para a glória de outros. Toda vez que penso a canção acabou, simplesmente acontece algo maior e muito melhor. Tenho certeza de que agora vou viajar, que serei mandado para todos os cantos do mundo para que toda a humanidade possa ler o que está em mim. Eu tinha apenas uma flor azul e agora tenho as mais maravilhosas ideias do mundo. Eu sou o mais sortudo de todos!

Narrador: O papel não seguiu viagem. Foi mandado para a gráfica e transformado em livro; na verdade, em milhares de livros, pois dessa maneira, muito mais pessoas poderiam se beneficiar dele do que se fosse só um papel escrito viajando pelo mundo, e que, quando chegasse no meio do caminho, já estaria gasto.

Papel: Sim. No final das contas, é o melhor que poderia ter me acontecido. Devo ficar em casa e ser respeitado como nosso vovô. Foi em mim que escreveram; foi para mim que as palavras fluíram diretamente da caneta. Fico aqui enquanto os livros viajam pelo mundo. Agora tenho a chance de fazer alguma coisa mais importante. Ah, estou tão feliz, sou tão sortudo!

Narrador: O papel foi então amarrado, empacotado e deixado em uma prateleira.

Papel: O repouso é doce depois que o trabalho foi feito. É bem verdade que devemos nos aceitar como somos e pensar seriamente no que somos. Só agora é que realmente consigo me entender. ‘Conhece-te a ti mesmo’ – é o verdadeiro passo para o autoconhecimento. O que vai acontecer depois, eu me pergunto?

 

Algum outro tipo de progresso? Sempre em frente!

Narrador: O papel foi colocado no fogo para ser queimado, já que não poderia ser vendido na mercearia para embrulhar manteiga e açúcar.

Foi então que todas as crianças da casa ficaram à sua volta para vê-lo queimar; elas queriam ver as chamas soltarem todas aquelas faíscas vermelhas, que pareciam rodopiar no ar antes de sumirem, uma após a outra, tão rápido. Eram como crianças correndo da escola e a última de todas as faíscas era o diretor. Às vezes, parece que ele já foi embora; mas aí, lá vem ele, um pouco depois de todos os outros. Todos os papéis estavam em um maço no fogo.

A chama ardia mais alto, no ar, mais alto do que o linho havia sido capaz de erguer a sua florzinha azul, e brilhava mais do que fora capaz de brilhar; todas as letras que estavam escritas nele ficaram completamente vermelhas em instantes; e as palavras e os pensamentos subiram em labaredas.

Papel: Agora, alcançarei o sol.

Narrador: Foi o grito vindo da chama, como se milhares de vozes gritassem ao mesmo tempo.

 

Então, a chama saiu pela chaminé... E, mais delicados do que a chama, completamente invisíveis a olho nu, pairavam no ar seres minúsculos, tantos seres quantas tinham sido as flores do linho. Eram ainda mais leves do que a chama de onde vieram e quando a chama se foi, tudo o que restou do papel foram as cinzas escuras.

Os pequenos seres dançavam ao redor das cinzas e toda vez que as tocavam, era possível ver suas pegadas. As faíscas vermelhas eram como crianças correndo da escola. A última de todas as faíscas era o diretor. E que divertido observar tudo aquilo: as crianças da casa cantando sobre as cinzas.

Crianças: Pim pam pum a canção acabou!

Narrador: Mas as faíscas diziam:

Faíscas: Não, não, a música nunca acaba! E é o mais fascinante de tudo. Eu sei e é por isso que sou o mais sortudo de todos.

Narrador: As crianças não poderiam entender, talvez nem mesmo conseguissem ouvir as faíscas.

Na verdade, nem deveriam, pois as crianças não precisam saber de tudo.

Tradução de “O Linho”, “The flax”, de Hans Christian Andersen; obra em domínio público.

domingo, 21 de agosto de 2022

CONTO DE FADAS – “O REI ESTÁ NU!”

Fonte: Google.
 

CONTO DE FADAS – “O REI ESTÁ NU!”, COMEÇARAM A GRITAR HOMENS E MULHERES


Na primeira metade do século XIX, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu um conto que por valor simbólico ficou conhecido no mundo todo. Então… Era uma vez um bandido espertalhão e um rei muito vaidoso.

O falsário se apresentou dizendo-se alfaiate que viera de terras distantes e ao perceber uma fraqueza do monarca disse que poderia fazer uma roupa de extraordinária beleza, cara e bonita, e que somente as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la. O rei já se imaginou todo formoso diante da corte e na hora propôs que o “alfaiate” executasse essa preciosidade que adornaria seu corpo.

O bandido espertalhão [em algumas versões conta-se que eram dois] logo recebeu materiais exóticos e raros, exigidos para a confecção das roupas, incluindo fios e botões de ouro, seda, e um tear. Mas, havia um porém.

As roupas somente seriam vistas por pessoas de indiscutível inteligência, não por pessoas comuns. E para se manterem dentro dessa qualificação todos os nobres que iam ver a fabricação elogiavam o trabalho de um prodígio do corte e costura, mas na realidade nada existia de fato. Ninguém queria ser tachado de estúpido, pois pegaria mal dentro do palácio.

Um dia, cansado de esperar, o rei convidou seus ministros para ver as obras de arte feitas para vestir. Quando o “alfaiate” mostrou a mesa de trabalho vazia, o rei exclamou: Que lindas roupas! Que trabalho magnífico!”, embora não visse nada além de uma simples mesa, pois dizer que nada via seria admitir na frente de seus súditos que não tinha a capacidade necessária para ser rei. Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido.  Nenhum deles, por certo, querendo passar por medíocre ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas e o rei resolveu marcar uma grande parada na cidade para que ele exibisse suas novas vestes reais.

Ao desfilar, porém, o povo estranhou algo, mas não se encorajou a esboçar nenhuma reação. Um menino, porém, [em outras versões dizem que era uma menina] gritou:

“Coitado do rei, está nu! O rei está nu!”

Os homens e mulheres conhecendo o menino e sabendo que ele não era nem tolo nem falso, começou a murmurar e, em pouco tempo, a bradar:

“O rei está nu!”, “O rei está nu!”

O desfile deveria continuar de qualquer forma, com as pagens segurando a cauda invisível da capa do rei. Após terminado o cortejo, o rei retornou ao castelo de onde, comentou-se na época, não queria mais sair. Grande fora o vexame! Mas, pouco tempo depois, os súditos já haviam esquecido o escândalo e os funcionários do reino tocavam sua rotina, como se nada tivesse ocorrido.

Todos ocupavam seus cargos monótonos distribuídos a algumas poucas famílias e amigos privilegiados. Da mesma forma continuavam sonegando impostos, desviando verbas, indicando que tudo havia voltado ao normal.

O falso tecelão desapareceu, levando consigo muita grana, fios de seda, ouro. Meses depois, um viajante chegou à terra do rei vaidoso e, sabendo da história, informou que o mesmo golpe havia sido aplicado em outro pequeno reino. Dizem que ali se andava de nariz empinado e que eram grandes as hipocrisias.

Moral da história: O conto fala sobre a vaidade humana, mostra como vaidade em excesso pode ser prejudicial. 

Gosto demais desse conto e o autor é excelente! 

domingo, 5 de agosto de 2018

O que nos conta o vento.


Fonte da imagem:https://pixabay.com/pt/veleiro-navio-mar-barco-oceano-312417/

O vento é tão alegre como uma criança. Já o viram correr, pelos campos, movendo o trigo, como as ondas do mar? É isto a dança do vento; mas ele não só dança, também canta. Vão ouvir como ele canta.
- Zum!... Zu!... Zê, ss... Ss... Ss!... - está ele dizendo.
Se não houvesse uns senhores muito graves, que usam chapéus que rodam pelas ruas, a vida na cidade seria para mim grande aborrecimento. Todas as distrações fugiram das cidades. Há cem anos não havia nada de que eu mais gostasse do que ir soprando pelas ruas abaixo. Mas, então, as ruas eram uma exposição de quadros divertidos, mais que lugares de comércio.
Todas as casas tinham sua vitrina ou tabuleta. Havia a vitrina do alfaiate, cheia de figurinos de várias cores, querendo mostrar que o alfaiate era capaz de transformar o homem mais esfarrapado num elegante senhor.
O barbeiro tinha por cima da porta um grande pau com uma navalha de madeira pendurada; peixes, chapéus, queijos, bolas, enfim, todas as coisas que se vendiam na cidade, eram representadas nas tabuletas; e quando eu as fazia oscilar e as punha a bater umas contra as outras, produziam um barulho ensurdecedor.
Que momentos tão alegres e divertidos passei eu numa noite em que me meti pelos mostradores! Tinha jurado que me havia de divertir.
O vento calou-se, dando em seguida um grito que estremeceu a casa.
- Oh! Como me lembro bem! - continuou ele a gritar pela varanda. - Era num dia em que os sapateiros se mudavam do antigo estabelecimento para o novo, levando consigo todas as tabuletas. Naqueles tempos, que já vão bem longe, os sapateiros eram ricos e poderosos e valia a pena ver a procissão que eles formavam. Havia um palhaço que abria a marcha, uma figura grotesca com a cara negra e uma roupa feita de retalhos. Todos riam. Hoje já não se divertem desta maneira. Atrás do palhaço ia a música, seguida dos homens que levavam os estandartes, e a grande bandeira de seda do grêmio dos sapateiros, enfeitada com uma grande bota preta. Subiu a um andaime, no qual tinha que fixar uma tabuleta, o sapateiro que presidia a associação e começou a discursar; mas o palhaço, que subiu atrás dele, fazia rir às gargalhadas o público, com os seus trejeitos. Eu quis também tomar parte na brincadeira e comecei a bater com as tabuletas umas nas outras e o orador desceu dizendo:
"Não é possível fazer-me ouvir por causa do vento, mas vamos fixar a tabuleta."
Mas eu havia resolvido - continuou o vento - que a tabuleta não se fixasse. Soprei até que o avental do sapateiro lhe tapasse os olhos; fiz cair a escada e levei-lhe o chapéu e a cabeleira. Por fim cansaram-se de lutar comigo e foram-se todos para a sua nova casa para celebrarem o banquete.
O vento deu um salto e prosseguiu:
- Eu estava naquele dia disposto a fazer mal. Tenho conseguido divertir-me com os sapateiros, andava pelas ruas tentando novas proezas. Comecei a tirar os tetos das casas velhas, mas ainda sentia vontade de fazer pior. Continuei a fazer cirandar tudo com muita habilidade. Quando a gente da cidade despertou, no dia seguinte, encontrou a tabuleta do Instituto Histórico num salão de bilhares e o Instituto tinha lá, em troca, a tabuleta arrancada de um asilo para crianças... Havia criadas e mamadeiras... Um peleiro tinha pintado na tabuleta uma raposa. Mudei a tabuleta para o outro lado da rua, para a casa de um conselheiro avarento, que pretendia passar por excelente pessoa. Toda a população se riu, sobretudo quando viu a tabuleta que eu tinha posto na casa de um juiz: era um pau com uma navalha de madeira. A mulher do juiz tinha o apelido de "A Navalha", por sua má língua.
Mas a partida mais original - continuou o vento com voz baixa - foi a que preguei a uma rica mulher que inventava grandes histórias contra os seus vizinhos. Pus na casa dela um letreiro que havia num solar abandonado e que dizia: "Aqui precisa-me de estrume."
Foram dias alegres - suspirou o vento - mas que já não voltam. Depois do que eu fiz nunca mais usaram aquelas tabuletas; por minha causa muitos se envergonharam do seu comportamento e muitos homens nem queriam ouvir falar de mim e nas minhas travessuras. O vento acabou de falar na varanda e, dando um grito muito agudo, foi-se embora.


Conto de Hans Christian Andersen.


Conversando sobre a historinha.


O vento como um fenômeno da Natureza. 


O que fazer para evitar os desastres naturais? - Não podem ser evitados, levar as crianças a pensar como o homem pode conviver em harmonia com a natureza.


Na nossa historinha, o nosso amigo vento de divertia fazendo suas travessuras? Por quê?


Mesmo que em alguns casos ele tivesse razão e quisesse se vingar dos homens, você acha essa atitude correta?  - Não fazer justiça por sua conta.

Deve ficar claro para a criança a diferença do vento como fenômeno natural e na nossa historinha o vento transformado em personagem que pensa e age inteligentemente para pregar peças nos humanos.


Você acha que o vento se arrependeu de suas travessuras? Por quê?


Atividade: 

Levar palavras edificantes com as letras recortadas. EX: Respeito, Educação, Boa vontade, amor ao próximo, e outras de acordo com o momento das crianças.

As palavras serão montadas e depois as crianças assopram imitando o vento para na sequência refazê-las novamente.

Na vida temos que ter persistência, seja pela ação do vento, do tempo, das dificuldades, muitas vezes teremos que reiniciar as tarefas com o mesmo amor dedicado na primeira vez, porque tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito.

                                        Imagem google


Atividade:


Ou você pode fazer os cataventos simples de papel como sempre fiz com as crianças e elas adoram brinquedos antigos. Vamos resgatar? Veja AQUI como fazer.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Polegarzinha. Hans Christian Andersen. Domínio Público.

Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=115844&picture=lavanderia-do-bebe

Era uma vez uma mulher que queria ter um filho muito pequenino, mas não sabia como havia de fazer para encontrar um. Então, foi ter com uma velha bruxa e disse-lhe:
— Gostava tanto de ter um filho pequenino! Não sabes dizer-me onde posso arranjar um?
— Oh, isso não é difícil — disse a bruxa. — Aqui tens um grão de cevada, e olha que não é da que cresce nos campos dos lavradores nem daquela que as galinhas comem. Planta este grão num vaso e verás o que acontece!
— Oh, obrigada! — disse a mulher, dando uma moeda de prata à bruxa.
Depois foi para casa e semeou o grão. Não foi preciso esperar muito tempo para que nascesse uma bela flor; parecia uma tulipa, mas as pétalas estavam muito fechadas como se fosse ainda um botão.
— Que linda flor! — disse a mulher, dando um beijo nas pétalas vermelhas e amarelas.
Nesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma tulipa — agora via-se bem —, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina minúscula, graciosa e delicada como uma fada. Não era maior que metade de um polegar, e por isso ficou a chamar-se Polegarzinha.
A cama em que dormia era uma casca de noz muito bem polida; tinha um colchão de pétalas de violeta azuis escuras e o seu cobertor era uma pétala de rosa. Dormia ali à noite, mas durante o dia brincava em cima da mesa, onde a mulher tinha posto um prato de sopa cheio de água com um círculo de flores à volta, com os caules virados para o meio. Dentro do prato, a flutuar, estava uma grande pétala de tulipa em que a Polegarzinha se podia sentar e remar de um lado para o outro usando dois pelos brancos de cavalo como remos. Era lindo de se ver! Ela também sabia cantar, e tinha a vozinha mais frágil e mais doce que jamais se ouviu.
Uma noite, quando estava deitada na sua linda cama, um sapo entrou no quarto através de um vidro partido da janela. O sapo parecia muito grande e estava molhado quando saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha dormia profundamente debaixo da sua pétala de rosa.
— Ora aqui está uma bela esposa para o meu filho! — disse o sapo.
E pegou na cama de casca de noz em que a Polegarzinha estava a dormir e saltou com ela através da janela para o jardim. No fim do jardim corria um largo regato, de margens pantanosas e lamacentas; era aí que o sapo vivia com o seu filho.
Este não era nada bonito; na realidade, era igualzinho ao pai.
— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo quanto disse quando viu a linda menina na casca de noz.
— Não fales tão alto, se não ela acorda — disse-lhe o pai. — Olha que pode fugir, porque é leve como uma pena de cisne. Já sei, vamos pô-la no meio do rio, em cima de uma daquelas grandes folhas de nenúfar! Assim, ela vai pensar que está numa ilha, porque é uma criaturinha minúscula. Entretanto, nós podemos começar a preparar o melhor quarto debaixo da lama, para vocês os dois lá viverem.
No regato, havia muitos nenúfares com grandes folhas verdes que pareciam flutuar soltas na água. A folha que estava mais longe era também a maior de todas, e foi nela que o velho sapo pousou a casca de noz com a Polegarzinha. A pobre menina acordou muito cedo e, quando viu onde estava, começou a chorar amargamente, porque havia água a toda a volta da grande folha e era impossível voltar para terra.
Entretanto, o velho sapo andava metido na lama, decorando atarefadamente o quarto com juncos e flores aquáticas amarelas, para ficar bonito e alegre para a sua futura nora. Depois, acompanhado pelo filho, nadou até à folha onde estava a Polegarzinha. Iam buscar a linda cama de casca de noz para a colocarem no quarto antes de a noiva ir para lá.
O velho sapo, ainda dentro de água, fez uma profunda vénia e disse à Polegarzinha:
— Este é o meu filho. Vai ser o teu marido, e vocês os dois vão viver muito felizes numa bela casa debaixo da lama.
— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo o que o filho disse.
Então, pegaram na bonita caminha e lá foram a nadar com ela, enquanto a Polegarzinha ficava sozinha na folha verde, a chorar, porque não lhe apetecia nada viver com o velho sapo nem casar com o filho dele. Ora os peixinhos que nadavam ali por baixo tinham visto o sapo e ouvido o que ele dissera, de maneira que deitaram as cabeças de fora para verem a menina. Mas, assim que o fizeram, viram como era bonita e ficaram cheios de pena por ela ter de ir viver na lama com o sapo. Não, isso não podia acontecer! Juntaram-se em redor do pé verde da folha em que ela estava e puseram-se a roê-lo sem parar.
Lá foi a folha, flutuando pelo regato, levando a Polegarzinha para longe, cada vez para mais longe, para onde o sapo não podia ir.
Quando ela passava, os passarinhos nas árvores cantavam "Que linda criaturinha!" assim que a viam. E a folha lá ia a deslizar, cada vez para mais longe - e foi assim que a Polegarzinha chegou a outro país.
Uma linda borboleta branca esvoaçava por cima dela e acabou por pousar na folha, porque tinha começado a gostar da menina. Como ela estava feliz agora! O sapo já não podia apanhá-la e era tudo maravilhoso à sua volta, para onde quer que olhasse. A água, onde o sol brilhava, parecia ouro a cintilar. A Polegarzinha tirou o seu cinto e deu uma ponta à borboleta amiga e atou a outra à folha. Agora é que ia mesmo depressa!
Nesse momento, um grande escaravelho apareceu a voar por cima dela. Assim que viu a menininha, agarrou-a num ápice pela cintura e voou com ela para cima de uma árvore. A folha verde continuou a flutuar rio abaixo com a borboleta.
Meu Deus!, como a Polegarzinha ficou assustada quando o escaravelho a levou para cima da árvore! E como teve pena da sua amiga, a borboleta branca! Mas o escaravelho não queria saber disso. Pousou na maior folha verde da árvore e largou-a aí. Deu-lhe pólen para comer e disse-lhe que ela era muito bonita, embora não tanto como um escaravelho.
Em breve, todos os outros escaravelhos que viviam na árvore foram visitá-la. Olhavam para ela, e as jovens escaravelhas encolhiam as antenas, dizendo: "Mas só tem duas pernas, este inseto miserável! Não tem antenas! Tem uma cintura tão fina! Parece mesmo humana! Que feia que é!", e por aí fora, apesar de a Polegarzinha ser realmente uma criatura linda.
O escaravelho que a tinha levado também era desta opinião, mas quando todas as escaravelhas disseram que ela era horrível, ele começou a pensar o mesmo e acabou por não querer saber dela; podia ir para onde quisesse. Várias escaravelhas pegaram nela e voaram até ao solo, deixando-a em cima de uma margarida. Lá ficou ela a chorar, por ser tão feia que os escaravelhos não a queriam — e, no entanto, era a criaturinha mais bonita que se podia imaginar, mais bela que a mais perfeita pétala de rosa.
Durante todo o Verão, a pobre Polegarzinha viveu completamente sozinha na grande floresta. Teceu uma cama com ervas e pendurou-a como se fosse uma rede por baixo de uma grande folha de azeda, para ficar abrigada da chuva. Para comer apanhava mel e pólen das flores e bebia as gotas de orvalho que encontrava todas as manhãs nas folhas. E assim passou o Verão e o Outono, mas depois chegou o Inverno, o longo e frio Inverno. Os passarinhos, que tão docemente tinham cantado, voavam agora para longe, as árvores perdiam as folhas, as flores murchavam. Depois, a grande folha de azeda que lhe fazia de telhado começou a enrolar-se e murchou, até que ficou apenas uma haste seca e amarela. A Polegarzinha tinha imenso frio, porque o seu vestido estava todo roto e ela era muito frágil e pequenina. Em breve morreria de frio. A neve começou a cair, e cada floco que caía sobre ela era tão pesado como uma pazada atirada a um de nós. Afinal, ela só tinha dois centímetros e meio de altura. Embrulhou-se numa folha murcha, mas não conseguiu aquecer-se, e tremia cada vez mais.
Por essa altura, já tinha alcançado a orla da floresta. Mesmo ao lado havia um grande campo de trigo, mas este tinha sido ceifado há muito tempo e só se via o restolho seco na terra gelada. Para ela, aquilo era o mesmo que uma floresta para atravessar e oh!, como ela tremia de frio! Finalmente, chegou à porta de um rato do campo, que vivia numa casinha por baixo do restolho. Era aconchegada e confortável, com um armazém cheio de trigo, uma cozinha quente e uma sala de jantar. A pobre Polegarzinha parou à porta da casa do rato como se fosse uma mendiga e pediu se ele lhe dava um bocadinho de um grão, porque já há dois dias que não comia nada.
— Pobrezinha! — disse o rato do campo, que tinha muito bom coração. — Vem para a cozinha, que está quente, e comes comigo.
Gostou tanto da companhia da Polegarzinha que acabou por lhe dizer:
— Podes ficar comigo durante o Inverno, mas tens de limpar e arrumar a casa e contar-me histórias. Gosto muito de histórias.
A Polegarzinha fez o que o velho rato do campo lhe disse; e o tempo foi passando agradavelmente.
— Em breve teremos uma visita — disse o rato do campo. — O meu vizinho vem visitar-me todas as semanas. A casa dele ainda é melhor do que a minha, com grandes e belos quartos, e ele usa um lindo casaco de veludo preto! Se conseguisses que ele casasse contigo, nunca mais te faltaria nada. Mas ele é quase cego, de maneira que tens de te preparar para lhe contar as melhores histórias que souberes.
A Polegarzinha não gostou muito da ideia. Não lhe apetecia nada casar com o vizinho rico; era um toupeiro, e veio fazer a sua visita com o casaco de veludo preto. O rato do campo lembrou à Polegarzinha como ele era rico e culto; disse-lhe que a casa dele era vinte vezes maior do que a sua.
Que ele sabia muitas, muitas coisas, embora não gostasse do sol e das lindas flores, porque nunca os tinha visto. A Polegarzinha teve de cantar para ele, e cantou:
 Tive uma nogueirazinha
e Joaninha voa, voa.

O toupeiro apaixonou-se pela sua linda voz, mas não disse nada, porque era muito cauteloso.
Ele tinha escavado recentemente uma passagem muito longa, que ia da sua casa à do vizinho, e disse ao rato do campo e à Polegarzinha que podiam ir visitá-lo quando quisessem. Mas pediu-lhes que não tivessem medo da ave morta que estava na passagem. Contou-lhes que a ave não tinha qualquer marca nem ferida, não lhe faltavam penas, e o bico estava intacto; devia ter morrido há muito pouco tempo, com a chegada do Inverno, e, de alguma maneira, tinha caído na sua passagem subterrânea.
Então, o toupeiro agarrou num pedaço de madeira podre com a boca (porque a madeira podre brilha como fogo no escuro) e foi à frente para iluminar a longa passagem para os seus convidados. Depressa chegaram ao sítio onde estava a ave, e o toupeiro empurrou o teto com o focinho largo, levantando a terra para fazer um buraco que deixou entrar a luz do dia. E lá estava uma andorinha, com as lindas asas encostadas ao corpo, as pernitas e a cabeça escondidas nas penas; a pobre ave de certeza que tinha morrido de frio. A Polegarzinha teve muita pena dela, porque amava todas as avezinhas, que tinham cantado e chilreado para ela de uma maneira tão encantadora durante todo o Verão. Mas o toupeiro empurrou a andorinha para o lado com as suas pernas curtas e disse:
— Esta já não assobia mais! Que pouca sorte nascer ave! Felizmente que nenhum dos meus filhos será como elas. Uma ave não sabe fazer nada a não ser dizer tuit-tuit e depois morrer de fome no Inverno!
— Sim, lá nisso tens razão — disse o rato do campo. — Com todo o seu tuit-tuit, que é que elas fazem quando chega o Inverno? Morrem de fome e de frio. E, no entanto, toda a gente as acha muito importantes.
A Polegarzinha não disse uma palavra, mas, quando os outros recomeçaram a andar, baixou-se, afastou meigamente as penas da cabeça da andorinha e beijou-lhe os olhos fechados.
— Talvez esta seja a que cantou tão suavemente para mim durante o Verão — pensou. — Que felicidade me deu esta pobre avezinha da floresta!
Então, o toupeiro tapou o buraco que tinha feito para deixar entrar a luz do dia e acompanhou as visitas a casa. Mas nessa noite a Polegarzinha não conseguia dormir, de maneira que levantou-se e teceu uma cobertazinha de feno. Quando acabou, foi pô-la em cima da ave. Ao lado, deixou um pouco de lanugem de cardo que tinha encontrado na sala de estar do rato do campo, para que a ave pudesse repousar quentinha sobre a terra fria.
— Adeus, linda andorinha! — disse ela. — Adeus e obrigada pelas tuas belas canções no Verão, quando as árvores estavam verdes e o Sol brilhava tão alegremente sobre nós todos!
Depois encostou a cabeça ao coração da andorinha — mas ficou logo muito espantada, porque parecia que alguma coisa batia lá dentro. Era o coração da andorinha a bater. Não estava morta, apenas entorpecida pelo frio, e, como tinha sido aquecida, começava a voltar a si.
No Outono, as andorinhas voam todas para terras mais quentes, mas, se uma delas se atrasa, o frio pode fazê-la gelar; então cai no chão e depressa fica coberta de neve.
A Polegarzinha tremia, assustada; a ave era muito maior do que ela, que só tinha dois centímetros e meio de altura. Mas encheu-se de coragem e aconchegou a lanugem de cardo ao corpo da pobre andorinha. Depois, foi a correr buscar a sua coberta, uma folha de hortelã, para lhe tapar a cabeça.
Na noite seguinte, esgueirou-se outra vez para visitar a andorinha — ela estava realmente viva, mas tão fraca que mal pôde abrir os olhos para olhar para a Polegarzinha. Ali estava ela, com um pedacinho de madeira podre na mão, porque não tinha outra lanterna.
— Obrigada, obrigada, linda menina — disse a andorinha doente. — Aqueceste-me tão bem que depressa estarei suficientemente forte para voar ao sol brilhante.
— Oh! — exclamou a Polegarzinha —, ainda está muito frio lá fora! Há neve e gelo por todo o lado. Fica aí na tua caminha quente que eu trato de ti.
Depois levou-lhe água numa folha, e a andorinha bebeu e contou-lhe como tinha magoado uma asa numas silvas e, por isso, não tinha conseguido voar tão depressa como as outras andorinhas quando partiram para terras mais quentes. Por fim, acabara por cair, e não se lembrava de mais nada. Não fazia a menor ideia de como tinha ido parar ali.
Durante todo o Inverno, a andorinha ficou na passagem subterrânea. A Polegarzinha tratou dela e tornou-se muito sua amiga. Mas não disse nada ao toupeiro nem ao rato do campo, porque eles não gostavam de avezinhas. Por fim, chegou a Primavera e os raios de Sol começaram a atravessar a terra. A andorinha disse adeus à Polegarzinha e reabriu o buraco que o toupeiro tinha feito no teto da passagem. A luz do Sol encheu ambas de alegria, e a andorinha pediu à Polegarzinha que fosse com ela; podia subir para as suas costas e voariam para a floresta cheia de verdura. Mas a Polegarzinha sabia que o velho rato do campo ficaria triste se ela se fosse embora assim sem mais nem menos.
— Não, não posso ir — disse ela.
— Então adeus, adeus, linda menina bondosa! — respondeu a andorinha, voando em direção ao Sol.
A Polegarzinha viu-a subir no céu, e os seus olhos encheram-se de lágrimas, porque se tinha tornado muito amiga da pobre andorinha.
— Tuit, tuit! — cantou a avezinha, voando em direção à floresta verde.
A Polegarzinha estava agora muito triste. Não a deixavam sair para a claridade do Sol, e, nos campos onde vivia, o trigo era tão alto que, para ela, era como uma floresta que se erguia muito acima da sua cabeça.
— Tens de ter o teu enxoval pronto este Verão — disse o rato do campo, porque, entretanto, o vizinho toupeiro do casaco de veludo tinha proposto casamento à Polegarzinha. — Precisas de roupas de linho e lã e de muitos cobertores e lençóis quando fores casada com o toupeiro.
A Polegarzinha teve de trabalhar arduamente com a roca, e o toupeiro contratou quatro aranhas para tecerem para ela de dia e de noite. Todas as tardes lhe fazia uma vista e dizia sempre que, quando o Verão acabasse e o Sol não estivesse tão terrivelmente quente e deixasse de queimar a terra até a deixar dura com uma pedra, então casariam. Mas a Polegarzinha não estava nada satisfeita, porque não gostava daquele velho toupeiro tão pomposo. Todas as manhãs, quando o Sol se erguia, e todas as noites, quando se punha, ela esgueirava-se lá para fora; quando o vento fazia ondular as espigas de trigo, conseguia ver o céu azul e pensava sempre como era bom e belo viver ao ar livre. Desejava imenso ver de novo a sua amiga andorinha, mas ela não voltou a aparecer; tinha voado para o bosque verde coberto de folhas.
Quando o Outono chegou, o enxoval da Polegarzinha estava pronto.
— Casas daqui a quatro semanas — disse o rato do campo.
Mas a Polegarzinha começou a chorar e disse que não queria casar com o toupeiro.
— Que disparate! — respondeu o rato do campo. — Não te ponhas com problemas. Arranjaste um marido esplêndido, pois nem a rainha tem um casaco de veludo preto tão bom como o dele! E pensa naquela cozinha e cave tão bem fornecidas! Deves agradecer a tua boa sorte.
E, assim, chegou o dia do casamento. O toupeiro já tinha ido buscar a Polegarzinha, pois ela ia viver com ele bem debaixo do solo; nunca mais poderia apanhar a luz radiante do Sol, porque o toupeiro não a suportava. Cheia de tristeza, foi dizer o último adeus ao Sol brilhante; enquanto vivera com o rato do campo, sempre a tinham deixado ir pelo menos até à porta.
— Adeus, Sol brilhante! — disse ela, erguendo os braços em direção a ele e dando alguns passos no campo imenso, pois o trigo tinha sido ceifado e só ficara o restolho. — Adeus, adeus — disse ela outra vez, abraçando uma florzinha vermelha que crescia por entre os caules. — Se alguma vez tornares a ver a andorinha, diz-lhe que lhe mando saudades!
Nesse preciso momento ouviu um som — tuit, tuit — mesmo por cima de si. Era a andorinha.
Como estava, contente por ver a sua amiga Polegarzinha! Então esta contou-lhe que tinha de casar nesse mesmo dia com o toupeiro e ir viver com ele debaixo da terra, onde o Sol nunca brilhava. E as lágrimas saltaram-lhe dos olhos só de pensar nisso.
— Vem aí o frio Inverno — disse a andorinha. — Vou voar para longe, para os países quentes. Por que não vens comigo? Podes subir para as minhas costas e atares-te a mim com o teu cinto. Deixamos o toupeiro e a sua casa escura e voamos para muito, muito longe, por cima das montanhas, para um país onde o Sol brilha ainda mais do que aqui, onde é sempre Verão e onde as matas e as florestas estão cobertas das mais belas flores. Ah, vem comigo, querida Polegarzinha, tu que me salvaste a vida quando eu estava gelada na escura passagem debaixo da terra!
— Sim, vou contigo — acabou por dizer a Polegarzinha.
Sentou-se nas costas da ave e atou o cinto a uma das suas penas mais fortes. Então, a andorinha ergueu-se muito alto no céu e voou por cima de florestas, lagos e montanhas onde há sempre neve. O ar gelado fazia a Polegarzinha tremer, mas ela enfiava-se debaixo das penas quentes da ave e só espreitava para olhar, assombrada, para as belas coisas lá em baixo.
Por fim, chegaram aos países quentes. Aí, o Sol brilhava com muito mais intensidade do que a Polegarzinha supunha ser possível; o céu parecia duas vezes mais alto. Ao longo das estradas, havia deliciosas uvas brancas e roxas; limões e laranjas pendiam das árvores; o ar estava perfumado de mirto e de muitas outras plantas aromáticas; e, pelos caminhos, corriam muitas crianças lindas, a brincar por entre coloridas borboletas. Mas a andorinha voou ainda para mais longe, para onde a paisagem era também ainda mais bonita. E então, à sombra de enormes árvores verdes, na margem de um lago azul-safira, viram um palácio muito antigo construído em mármore branco, com videiras enroladas nas suas altas colunas. Mesmo no cimo das colunas havia muitos ninhos de andorinhas, e num deles vivia a amiga da Polegarzinha.
— A minha casa é esta — disse ela. — Mas, se quiseres escolher uma daquelas lindas flores ali em baixo, eu ponho-te lá, e podes viver feliz à tua vontade.
— Ah, como vou gostar! — gritou a Polegarzinha, batendo as mãozinhas.
Uma grande coluna branca estava caída por terra, partida em três bocados, e entre eles cresciam altas e belas flores brancas. A andorinha voou até lá abaixo com a Polegarzinha e poisou-a numa pétala. Então, a Polegarzinha teve uma grande surpresa. Ali, no centro da flor, estava um principezinho, tão belo e delicado que parecia feito de vidro. Tinha na cabeça a coroa de ouro mais bonita que pode imaginar-se e nos ombros um par de asas coloridas e brilhantes, e não era maior do que a própria Polegarzinha. Era o espírito que guardava a flor. Em cada flor havia uma criaturinha igual, mas ele era o rei de todas.
— Que bonito que ele é! — sussurrou a Polegarzinha à andorinha.
O principezinho ao princípio ficou muito assustado com a ave, que lhe parecia gigantesca, mas quando viu a Polegarzinha ficou cheio de alegria. Achou que ela era a mais bela de todas as criaturas que jamais tinha visto, mesmo entre as fadas das flores. Tirou a coroa de ouro da sua cabeça e colocou-a na dela e perguntou-lhe como se chamava e se queria ser sua mulher e rainha de todas as flores.
Bem, este marido podia ela amar de verdade — era muito diferente do filho do sapo ou do velho toupeiro com o seu casaco de veludo. E por isso disse que sim ao belo príncipe. Então, ergueu-se de cada flor uma criaturinha, rapaz ou rapariga, homem ou mulher, tão pequeninas e tão bonitas que era emocionante vê-las. Todas deram uma prenda à Polegarzinha, mas a melhor de todas foi um lindo par de asas. Prenderam-nas aos ombros da Polegarzinha, e agora também ela podia voar de flor em flor. Toda a gente estava cheia de alegria: era como uma maravilhosa festa de Verão. A andorinha, lá em cima no seu ninho, cantou-lhes a canção mais bonita que sabia, mas no fundo estava triste, porque gostava tanto da Polegarzinha que não queria separar-se dela.
— Nunca mais te chamarás Polegarzinha — declarou o príncipe das flores. — Não é um nome suficientemente bonito para uma criatura tão bela como tu. A partir de agora, vamos chamar-te Maia!
— Adeus, adeus — disse a andorinha, quando chegou à altura de voar de novo dos países quentes para a Dinamarca.
Aí, ela tinha um pequeno ninho ao lado da janela do homem que escreve contos de fadas.
— Ouve, ouve — trinou a andorinha para o escritor de contos de fadas...
E foi assim que soubemos esta história.


Autoria: Hans Christian Andersen - Domínio Público.

terça-feira, 7 de junho de 2016

As Velas. Lindo conto de HANS CHRISTIAN ANDERSEN.

Fonte da imagem:http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=31492&picture=velas

Era uma grande vela de cera que sabia exatamente o que valia.
– Nasci em cera e vazada em molde! – disse ela. – Eu ilumino melhor e ardo por mais tempo do que todas as outras velas.
O meu lugar é num lustre ou num candelabro!
– Deve ser uma linda existência! – disse a vela de sebo. –
Eu sou só de sebo, só vela de imersão, mas consolo-me com o facto de que é sempre um pouco melhor do que um mero pavio que é mergulhado apenas duas vezes, enquanto eu sou mergulhada oito vezes para obter a minha espessura decente. Estou satisfeita!
É certamente mais fino e fica-se feliz por ter nascido de cera e não de sebo, mas, neste mundo, ninguém escolhe a sua própria condição. Você vem para a sala para o lustre. Eu fico na cozinha, que também é um bom lugar. Daí vem a comida para toda a casa!
– Mas existe algo que é mais importante do que a comida! – disse a vela de cera: – A sociedade! Brilham para ver, e eles próprios brilham. Hoje à noite, há baile, em breve virão buscar-nos. A mim e toda a minha família.
Mal isto foi dito, todas as velas de cera foram levadas, e também a vela de sebo foi com elas. A dona da casa tomou-a na sua mão fina e levou-a para a cozinha.
Ali estava um pobre rapaz com um cesto, que se encheu de batatas e também um par de maçãs. Tudo isto deu a boa dama ao rapazinho.
– Aí tens também uma vela, meu pequeno amigo! – disse ela.
– A tua mãe está sentada pela noite dentro a trabalhar, pode precisar dela!
A filha pequena da casa estava ali próximo, e quando ouviu as palavras «pela noite dentro», disse com íntima alegria:
– Ficarei levantada também pela noite dentro! Teremos um baile e eu irei receber os grandes laços vermelhos!
Como lhe brilhava o rosto! Era uma alegria! Nenhuma vela de cera pode brilhar como dois olhos de criança!
«É abençoado ver!», pensou a vela de sebo, «nunca o esquecerei, e isto certamente que nunca mais verei!»
E então a vela viu o cesto tapar-se com a tampa e o rapaz foi-se embora com ela.
«Para onde vou agora!», pensou a vela, «irei para gente pobre, não terei nem mesmo um castiçal de latão, mas a vela de cera é colocada em prata e vê a gente mais fina”. Como deve ser bonito luzir para a gente fina“! É o meu destino ser de sebo e não de cera!»
E a vela veio para a gente pobre. Uma viúva com três filhos numa casa baixinha, mesmo em frente da casa rica.
– Que Deus abençoe a boa senhora, por aquilo que nos ofereceu!
– disse a mãe. – É uma vela maravilhosa! Pode brilhar pela noite fora.
E acendeu-se a vela.
– Pff! – Ui! – disse esta. – Mas foi com um pau de enxofre a cheirar mal que ela me acendeu! Tal coisa não se faz com uma vela de cera, na casa rica.
E lá, na casa rica, também se acenderam os candeeiros que brilhavam para a rua. Lá fora, as carruagens chegavam, trazendo os visitantes,arrumados para o baile. A música tocava.
– Agora começam eles do outro lado! – apercebeu-se a vela de sebo. E pensou no rosto radiante da pequena menina rica, mais brilhante do que todas as velas de cera. – Esta visão não a verei nunca mais!
Veio então a menor das crianças na casa pobre. Era uma rapariguinha. Lançou os braços à volta do pescoço do irmão e da irmã. Tinha algo muito importante a contar. Tinha de ser em segredo.
– Vamos ter hoje à noite – imaginem! – Vamos ter hoje à noite, batatas quentes!
E o seu rosto brilhava de felicidade. A luz brilhava mesmo dentro dela, uma alegria, uma felicidade tão grande como na casa rica, onde a menina tinha dito: – Vamos ter baile esta noite e eu vou receber os grandes laços vermelhos.
«Ter batatas quentes é assim tanto?», pensou a vela. «Há uma tão grande alegria nos pequenos!» E espirrou, quer dizer, crepitou, porque mais não consegue uma vela de sebo fazer.
A mesa foi posta e as batatas foram comidas. Oh! Como souberam bem! Foi realmente uma refeição festiva, e, ainda por cima, cada um teve uma maçã. A criança menor recitou um pequeno verso:
Tu bom Deus, muito te tenho a agradecer, que uma vez mais me tenhas dado de comer!
Amem.
– Não foi bem dito, mãe? – exclamou a pequenina.
– Isso não deves perguntar ou dizer! – disse a mãe. – Deves pensar só no bom Deus, que te deu de comer!
Os pequenos foram para a cama, receberam um beijo e adormeceram imediatamente. A mãe ficou a coser até noite adiante para ganhar a subsistência para eles e para si. E em frente, na casa rica, brilhavam luzes e soava a música. As estrelas brilhavam sobre todas as casas, as dos ricos e as dos pobres, igualmente claras, igualmente abençoadas.
– Foi, no fundo, uma noite agradável! – segundo a opinião da vela de sebo. – Tiveram-na melhor as velas de cera nos castiçais de prata? Gostaria bem de saber, antes de arder completamente!
E pensou nas duas crianças igualmente felizes, uma iluminada pela vela de cera e a outra por uma vela de sebo!
Sim, é toda a história.


HANS CHRISTIAN ANDERSEN.

Fonte: http://arquivos.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/16/2013/12/Os-Contos-H-C-Andersen.pdf

Moral da história: 

não são as riquezas que trazem a felicidade, mas o que se faz com os dons que temos. A vela de sebo conseguia iluminar tanto quanto a vela de cera, e a alegria das crianças era a mesma independente de uma ser rica e a outra pobre.

domingo, 22 de maio de 2016

A princesa e a ervilha. Hans Christian Andersen.

Fonte da imagem;https://pixabay.com/pt/menina-dan%C3%A7a-vestido-flores-1349272/

Havia uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas não se contentava com uma princesa que não fosse de verdade. De modo que se dedicou a procurá-la no mundo inteiro, ainda que inutilmente, pois todas que via apresentavam algum defeito. Princesas havia muitas, porém não podia ter certeza, ja que sempre havia nelas algo que não estava bem. Assim, regressou ao seu reino cheio de sentimento, pois desejava muito uma princesa verdadeira!
Certa noite, caiu uma tempestade horrível. Trovejava e chovia a cântaros. De repente, bateram à porta do castelo, e o rei foi pessoalmente abrir.
No umbral havia uma princesa. Mas, Santo Céu, como havia ficado com o tempo ea chuva! A água escorria por seu cabelo e roupas, seu sapato estava desmanchando. Apesar disso, ela insistia que era uma princesa real e verdadeira.
"Bom, isso vamos saber logo", pensou a rainha velha.
E, sem dizer uma palavra, foi ao quarto, tirou toda a roupa de cama e colocou uma ervilha no estrado, em seguida colocou vinte colchões sobre a ervilha, e sobre eles vinte almofadas feitas com as plumas mais suaves que se pode imaginar.
Ali teria que dormir toda a noite a princesa.
Na manhã seguinte, perguntaram-lhe como tinha dormido.
-Oh, terrivelmente mal! - disse a princesa. Não consegui fechar os olhos toda a noite. Vá se saber o que havia nessa cama! Encostei-me em algo tão duro que amanheci cheia de dores. Foi horrível!
Ouvindo isso, todos compreenderam que se tratava de uma verdadeira princesa, já que havia sentido a ervilha através dos vinte colchões e vinte almofadões. Só uma princesa podia ter uma pele tão delicada.
E assim o príncipe casou com ela, seguro que sua era uma princesa completa. A ervilha foi enviada a um museu onde pode ser vista, a não ser que alguém a tenha roubado.


sábado, 16 de abril de 2016

O Rei Está Nu!!! A roupa nova do rei. Baseado no conto de Hans Christian Andersen


Este é um conto que trata da vaidade humana. Quanto maior a vaidade, mais tolos nos tornamos. E costumamos alimentar a vaidade uns dos outros. 



Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado. Um dia, um alfaiate espertalhão deu-lhe o seguinte conselho:
- Majestade, é do meu conhecimento que apreciais andar sempre muito bem vestido, como ninguém; e bem o mereceis! Descobri um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um manto assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes das pessoas tolas, parvas e estúpidas que não servirão para a vossa corte.
- Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. - Traga-me já esse tecido e faça-me a roupa; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.
O alfaiate aldrabão tirou as medidas do rei e, daí a umas semanas, apresentou-se, dizendo:
- Aqui está o manto de Vossa Majestade.
O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:
- Oh! Como é belo!
Então o alfaiate fez de conta que estava vestindo o manto no rei, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:
- Vossa Majestade está tão elegante! Todos vos invejarão!
A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um manto que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia, o rei decidiu sair para se mostrar ao povo, desfilando pela cidade, com sua comitiva real acompanhando.
Toda a gente fingia admirar a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
- Olha, olha! O rei está nu!
Ninguém conseguiu segurar o riso. Todos gargalharam e só então o rei compreendeu que fora enganado. Envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

(Baseado no conto de Hans Christian Andersen)

Moral da história

confie nos seus instintos e ouça o seu coração.  A situação apresentada na história pode se repetir na sua vida, sempre que alguém quiser te convencer de alguma coisa usando palavras elogiosas.
A verdade não precisa ser adornada, devemos falar a verdade simplesmente, com honestidade.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Pequena Sereia. Hans Christian Andersen. Ilustrado.

Fonte da imagem:https://pixabay.com/pt/sereia-fantasia-recados-p%C3%A1gina-1301877/

Muito longe da terra, onde o mar é muito azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas, todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar, porém a mais moça se destacava, com sua pele fina e delicada como uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não tinha pés, mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia.
Essa princesa era a mais interessada nas histórias sobre o mundo de cima, e desejava poder ir à superfície; queria saber tudo sobre os navios, as cidades, as pessoas e os animais.
— Quando você tiver 15 anos — dizia a avó — subirá à superfície e poderá se sentar nos rochedos para ver o luar, os navios, as cidades e as florestas.
Os anos se passaram... Quando a princesa completou 15 anos mal pôde acreditar. Subiu até a superfície e viu o céu, o sol, as nuvens... Viu também um navio e ficou muito curiosa. Foi nadando até se aproximar da grande embarcação. Viu, através dos vidros das vigias, passageiros ricamente trajados. O mais belo de todos era um príncipe que estava fazendo aniversário, ele não deveria ter mais de 16 anos, e a pequena sereia se apaixonou por ele.
A sereiazinha ficou horas admirando seu príncipe, e só despertou de seu devaneio quando o navio foi pego de surpresa por uma tempestade e começou a tombar. A menina viu o príncipe cair no mar e afundar, e se lembrou de que os homens não conseguem viver dentro da água. Mergulhou na sua direção e o pegou já desmaiado, levando-o para uma praia.
Ao amanhecer, o príncipe continuava desacordado. A sereia, vendo que um grupo de moças se aproximava, escondeu-se atrás das pedras, ocultando o rosto entre os flocos de espuma.
As moças viram o náufrago deitado na areia e foram buscar ajuda. Quando finalmente acordou, o príncipe não sabia como havia chegado àquela praia, e tampouco fazia ideia de quem o havia salvado do naufrágio.
A princesa voltou para o castelo muito triste e calada, e não respondia às perguntas de suas irmãs sobre sua primeira visita à superfície.
A sereia voltou várias vezes à praia onde tinha deixado o príncipe, mas ele nunca aparecia por lá, o que a deixava ainda mais triste. Suas irmãs estavam muito preocupadas, e fizeram tantas perguntas que ela acabou contando o que havia acontecido.
Uma das amigas de uma das princesas conhecia o príncipe e sabia onde ele morava. A pequena sereia se encheu de alegria, e ia nadar todos os dias na praia em que ficava seu palácio. Observava seu amado de longe e cada vez mais gostava dos seres humanos, desejando ardentemente viver entre eles.
A princesa, muito curiosa para conhecer melhor os humanos, perguntou a sua avó se eles também morriam.
— Sim, morrem como nós, e vivem menos. Nós podemos viver trezentos anos, e quando “desaparecemos” somos transformadas em espuma. Nossa alma não é imortal. Já os humanos têm uma alma que vive eternamente.
— Eu daria tudo para ter a alma imortal como os humanos! — suspirou a sereia.
— Se um homem vier a te amar profundamente, se ele concentrar em ti todos os seus pensamentos e todo o seu amor, e se deixar que um sacerdote ponha a sua mão direita na tua, prometendo-te ser fiel nesta vida e na eternidade, então a sua alma se transferirá para o teu corpo. Ele te dará uma alma, sem perder a dele... Mas isso jamais acontecerá! Tua cauda de peixe, que para nós é um símbolo de beleza, é considerada uma deformidade na terra.
A sereiazinha suspirou, olhando tristemente para a sua cauda de peixe e desejando ter um par de pernas em seu lugar. Mas a menina não esquecia a ideia de ter uma alma imortal e resolveu procurar a bruxa do mar, famosa por tornar sonhos de jovens sereias em realidade... Desde que elas pagassem um preço por isso.
O lugar onde a bruxa do mar morava era horrível, e a princesa precisou de muita coragem para chegar lá. A bruxa já a esperava, e foi logo dizendo:
— Já sei o que você quer. É uma loucura querer ter pernas, isso trará muita infelicidade a você! Mesmo assim vou preparar uma poção, mas essa transformação será dolorosa. Cada passo que você der será como se estivesse pisando em facas afiadas, e a dor a fará pensar que seus pés foram dilacerados.
Você está disposta a suportar tamanho sofrimento?
— Sim, estou pronta! — disse a sereia, pensando no príncipe e na sua alma imortal.
— Pense bem, menina. Depois de tomar a poção você nunca mais poderá voltar à forma de sereia... E se o seu príncipe se casar com outra você não terá uma alma imortal e morrerá no dia seguinte ao casamento dele.
A sereiazinha assentiu com a cabeça e, sem dizer uma palavra, ficou observando a bruxa fazer a poção.
— Pronto, aqui está ela... Mas antes de entregá-la a você, aviso que meu preço por este trabalho é alto: quero a sua linda voz como pagamento. Você nunca mais poderá falar ou cantar...
A princesa quase desistiu, mas pensou no seu príncipe e pegou a poção que a bruxa lhe estendia. Não quis voltar para o palácio, pois não poderia falar com suas irmãs, sua avó e seu pai. Olhou de longe o palácio onde nasceu e cresceu, soltou um beijo na sua direção e nadou para a praia.
Assim que bebeu a poção, sentiu como se uma espada lhe atravessasse o corpo e desmaiou. Acordou com o príncipe observando-a. 
Ele a tomou docemente pela mão e a conduziu ao seu palácio. Como a bruxa havia dito a cada passo que a menina dava sentia como se estivesse pisando sobre lâminas afiadíssimas, mas suportava tudo com alegria, pois finalmente estava ao lado de seu amado príncipe.
A beleza da moça encantou o príncipe, e ela passou a acompanhá-lo em todos os lugares. À noite, dançava para ele, e seus olhos se enchiam de lágrimas, tamanha dor sentia nos pés.
Quem a visse dançando ficava hipnotizado com sua graça e leveza, e acreditava que suas lágrimas eram de emoção.
O príncipe, no entanto, não pensava em se casar com ela, pois ainda tinha esperança de encontrar a linda moça que ele vira na praia, após o naufrágio, e por quem se apaixonara. Ele não se lembrava muito bem da moça, e nem imaginava que aquela menina muda era essa pessoa...
Todas as noites a princesinha ia refrescar os pés na água do mar. Nessas horas, suas irmãs se aproximavam da praia para matar a saudade da caçulinha. Sua avó e seu pai, o rei dos mares, também apareciam para vê-la, mesmo que de longe.
A família do príncipe queria que ele se casasse com a filha do rei vizinho, e organizou uma viagem para apresentá-los. O príncipe, a sereiazinha e um numeroso séquito seguiram em viagem para o reino vizinho.
Quando o príncipe viu a princesa, não se conteve e gritou:
— Foi você que me salvou! Foi você que eu vi na praia!
Finalmente encontrei você, minha amada!
A princesa era realmente uma das moças que estava naquela praia, mas não havia salvado o rapaz. Para tristeza da sereia, a princesa também se apaixonara pelo príncipe e os dois marcaram o casamento para o dia seguinte. Seria o fim da sereiazinha. Todo o seu sacrifício havia sido em vão.
Depois do casamento, os noivos e a comitiva voltaram para o palácio do príncipe de navio, e a sereia ficou observando o amanhecer, esperando o primeiro raio de sol que deveria matá-la.
Viu então suas irmãs, pálidas e sem a longa cabeleira, nadando ao lado do navio. Em suas mãos brilhava um objeto.
— Nós entregamos nossos cabelos para a bruxa do mar em troca desta faca. Você deve enterrá-la no coração do príncipe. Só assim poderá voltar a ser uma sereia novamente e escapará da morte. Corra, você deve matá-lo antes do nascer do sol.
A sereia pegou a faca e foi até o quarto do príncipe, mas ao vê-lo não teve coragem de matá-lo. 
Caminhou lentamente até a murada do navio, mergulhou no mar azul e, ao confundir-se com as ondas, sentiu que seu corpo ia se diluindo em espuma.