domingo, 17 de outubro de 2021

A dança do arco-íris. Lenda indígena recontada por João Anzanello Carrascoza.

Há muito e muito tempo, vivia sobre uma planície de nuvens uma tribo muito feliz. Como não havia solo para plantar, só um emaranhado de fios branquinhos e fofos como algodão-doce, as pessoas se alimentavam da carne de aves abatidas com flechas, que faziam amarrando em feixe uma porção dos fios que formavam o chão. De vez em quando, o chão dava umas sacudidelas, a planície inteira corcoveava e diminuía de tamanho, como se alguém abocanhasse parte dela.

Certa vez, tentando alvejar uma ave, um caçador errou a pontaria e a flecha se cravou no chão. Ao arrancá-la, ele viu que se abrira uma fenda, através da qual pôde ver que lá embaixo havia outro mundo.

Espantado, o caçador tampou o buraco e foi embora. Não contou sua descoberta a ninguém.

Na manhã seguinte, voltou ao local da passagem, trançou uma longa corda com os fios do chão e desceu até o outro mundo. Foi parar no meio de uma aldeia onde uma linda índia lhe deu as boas-vindas, tão surpresa em vê-lo descer do céu quanto ele de encontrar criatura tão bela e amável. Conversaram longo tempo e o caçador soube que a região onde ele vivia era conhecida por ela e seu povo como “o mundo das nuvens”, formado pelas águas que evaporavam dos rios, lagos e oceanos da terra. As águas caíam de volta como uma cortina líquida, que eles chamavam de chuva. “Vai ver, é por isso que o chão lá de cima treme e encolhe”, ele pensou. Ao fim da tarde, o caçador despediu-se da moça, agarrou-se à corda e subiu de volta para casa. Dali em diante, todos os dias ele escapava para encontrar-se com a jovem. Ela descreveu para ele os animais ferozes que havia lá embaixo. Ele disse a ela que lá no alto as coisas materiais não tinham valor nenhum.

Um dia, a jovem deu ao caçador um cristal que havia achado perto de uma cachoeira. E pediu para visitar o mundo dele. O rapaz a ajudou a subir pela corda. Mal tinham chegado lá nas alturas, descobriram que haviam sido seguidos pelos parentes dela, curiosos para ver como se vivia tão perto do céu.

Foram todos recebidos com uma grande festa, que selou a amizade entre as duas nações. A partir de então, começou um grande sobe-e-desce entre céu e terra. A corda não resistiu a tanto trânsito e se partiu. Uma larga escada foi então construída e o movimento se tornou ainda mais intenso. O povo lá de baixo, indo a toda a hora divertir-se nas nuvens, deixou de lavrar a terra e de cuidar do gado. Os habitantes lá de cima pararam de caçar pássaros e começaram a se apegar às coisas que as pessoas de baixo lhes levavam de presente ou que eles mesmos desciam para buscar.

Vendo a desarmonia instalar-se entre sua gente, o caçador destruiu a escada e fechou a passagem entre os dois mundos. Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal, tanto na terra como nas nuvens. Mas a jovem índia, que ficara lá em cima com seu amado, tinha saudade de sua família e de seu mundo Sem poder vê-los, começou a ficar cada vez mais triste. Aborrecido, o caçador fazia tudo para alegrá-la. Só não concordava em reabrir a comunicação entre os dois mundos: o sobe-e-desce recomeçaria e a sobrevivência de todos estaria ameaçada.

Certa tarde, o caçador brincava com o cristal que ganhara da mulher. As nuvens começaram a sacudir sob seus pés, sinal de que lá embaixo estava chovendo. De repente, um raio de sol passou pelo cristal e se abriu num maravilhoso arco-íris que ligava o céu e a terra. Trocando o cristal de uma mão para outra, o rapaz viu que o arco-íris mudava de lugar.

– Iuupii! – gritou ele. – Descobri a solução para meus problemas!

Daquele dia em diante, quando aparecia o sol depois da chuva, sua jovem mulher escorregava pelo arco-íris abaixo e ia matar a saudade de sua gente. Se alguém lá de baixo se metia a querer visitar o mundo das nuvens, o caçador mudava a posição do cristal e o arco-íris saltava para outro lado. Até hoje, ele só permite a subida de sua amada. Que sempre volta, feliz, para seus braços.

Ilustração: Alarcão
Fonte:https://www.revistaprosaversoearte.com/3-contos-indigenas-para-mostrar-outra-visao-de-mundo-as-criancas/?fbclid=IwAR0WLK2cfTepoeIok62-4-3phUAqSmXZV5uX2OKgVU-HjohZX6Sp0txKMts

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O nascimento do mundo Lenda maori recontada por Maria de la Luz

No início só havia Kore, a energia, vagando na escuridão do espaço infinito. Então, veio a luz e surgiram Ranginui, o Pai Céu, e Papatuanuku, a Mãe Terra. Rangi e Papa tiveram muitos filhos: Tangaroa, deus das águas; Tane, deus das florestas; Tawhirmatea, deus dos ventos; Tumatauenga, deus da guerra, que deu origem aos seres humanos; e Uru, que não era deus de nada.

Rangi e Papa viviam num perpétuo abraço de amantes. Acontece que esse enlace apaixonado não deixava a luz penetrar entre seus corpos, onde ficavam os filhos. Obrigados a viver apertados e sempre no escuro, os jovens resolveram dar um basta na situação.

– Vamos matar Rangi e Papa e ficar livres deles! – disse Tumatauenga.

– Não! – disse Tane. – Vamos apenas separá-los, empurrando um para cima e deixando o outro embaixo. Assim sobrará espaço para nós e a luz vai poder entrar.

Todos acharam a ideia excelente.

Tane, que era o mais forte de todos, firmou bem os pés em Papa, encaixou os ombros no corpo de Rangi e o empurrou para cima com toda a força.

Os pais se separaram, mas – oh, decepção! – só um pouco de luz chegou ao mundo dos filhos. Além disso, Rangi e Papa estavam nus e, longe um do outro, sentiam muito frio.

Comovido com a situação, Tane abrigou o pai com o negro manto da noite.

Para a mãe fez um vestido com as mais verdes e tenras folhas e as flores mais coloridas. Em torno dela fez ondular as águas azuis dos mares e rios de Tangaroa. Os ventos de Tawhirmatea sopravam suavemente seus cabelos. Os filhos de Tumatauenga já começavam a povoar o mundo recém-criado.

Olhando lá de cima os lindos trajes da mulher e sua participação no novo mundo, Ranginui ficou doente de inveja. Sua dor cobriu o mundo com uma névoa úmida e cinzenta.

Refugiado em uma dobra do manto paterno, Uru chorava e chorava por não ter sido útil em nada aos pais e aos irmãos. Para que ninguém percebesse suas lágrimas, escondia-as em cestas e mais cestas. Mas Tane tudo percebera:

-Uru, meu irmão, preciso de sua ajuda!

 – Nada tenho para dar, você bem sabe!

 – Ora, Uru, você tem tantas cestas…

Surpreso e com medo de ser descoberto em sua fraqueza, Uru abaixou a cabeça: – Não tem nada dentro delas, irmão.

Tane avançou e destampou uma das cestas. Dela voaram luzes faiscantes e risonhas para todos os lados. As lágrimas de Uru haviam se transformado em crianças-luz (para nós, estrelas)!

– Uru, será que você podia me ceder duas de suas cestas? Seus filhos poderiam enfeitar e iluminar a morada de nosso pai… Uru concordou. As duas cestas foram passadas para Te Waka o Tamareriti, uma canoa muito especial. Tane conduziu a canoa até o céu, espalhando sobre o manto de Rangi milhares de estrelinhas que riam e piscavam umas para as outras o tempo todo.

Quando Tane ia pegar a segunda cesta, esta tombou e se abriu, deixando as estrelas se espalharem numa grande faixa chamada Ikaroa, que cruzou o céu de lado a lado (para nós, a Via Láctea). Tane deixou Ikaroa e Waka o Tamareriti (que é a “cauda” da nossa constelação do Escorpião) no espaço celeste, onde se tornaram os guardiões das estrelas.


Fonte:https://www.revistaprosaversoearte.com/3-contos-indigenas-para-mostrar-outra-visao-de-mundo-as-criancas/?fbclid=IwAR1S6kxr3Ljj8aoOZX9nz-CebTrNRBnK1pYNbRjlZA3uAC6R_B1mGjFR9ls


terça-feira, 12 de outubro de 2021

Fábula do porco-espinho - Uma fábula rica de Arthur Schopenhauer com atividades.

Séculos atrás, quando a Terra estava coberta por espessas camadas de gelo, durante uma era glacial, muitos animais não aguentavam o intenso frio e morriam, por não se adaptarem ao clima severamente gelado.

Foi então que numa tentativa de sobrevivência e proteção, uma manada de porcos-espinhos começou a se juntar, unindo-se um bem pertinho do outro. Dessa maneira ficavam em grupos protegidos e aquecidos mutualmente. E assim eles conseguiam resistir ao frio por mais tempo.

No entanto, com o passar do tempo eles começaram a se ferir e ferir os companheiros com os espinhos de seus corpos, e, justamente os que estavam mais próximos e ofereciam mais calor eram os mais feridos. Por isso, foram ficando magoados com as dores das espinhadas e decidiram se afastar.

Se afastaram pois não conseguiam mais suportar a dor dos espinhos de seus semelhantes e preferiram ficar sozinhos. No entanto, ao desfazerem os grupos voltaram a morrer congelados de frio e logo perceberam que se afastar não foi a melhor solução!

Os que não morreram, precisaram fazer uma escolha: ou aceitavam os espinhos dos companheiros ou morreriam e desapareceriam da Terra.

Com sabedoria, aos poucos, os que não morreram foram voltando a se aproximar, devagarinho, com jeito e com cuidado tal, que conservavam uma mínima distância um do outro, suficiente para conviver sem ferir, proteger sem magoar, sobreviver sem causar danos recíprocos.

E assim, aprenderam a conviver com as pequenas feridas que a relação muito próxima de alguém pode causar, e entenderam que o mais importante era o calor do outro. Aprenderam a amar, aprenderam a respeitar.

Resistiram ao gelo e juntos, sobreviveram!

Morais da história:

É fundamental para o sucesso de qualquer relacionamento, aprender a respeitar os gostos, os sentimentos e as diferenças do outro.

Ninguém jamais será totalmente bom, perfeito ou igual. O melhor relacionamento não é o que une pessoas iguais ou perfeitas, pois essas pessoas não existem. O melhor relacionamento é aquele onde as diferenças são respeitadas, e onde as pessoas aprendem a conviver com os defeitos e admiram as qualidades do outro.

E nunca se esqueçam que juntos somos mais fortes!


Arthur Schopenhauer.


Promover e estimular o bom relacionamento com as pessoas é de fundamental importância tanto para a educação quanto para a vida em sociedade.

Sabemos que muitas vezes é difícil se relacionar bem, pois a convivência gera conflitos que muitas vezes magoam e afastam as pessoas.

No entanto, o bom relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mesmo porque essas pessoas não existem, mas sim, aquele onde cada pessoa aprende a conviver e respeitar as diferenças do outro.

Nesse sentido, descreveremos abaixo a fábula do porco-espinho, escrita pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que traz uma reflexão excelente sobre esse tema e também possibilita muitas atividades educacionais com as crianças.

Afinal, quanto mais cedo as crianças aprenderem a se relacionar bem, respeitando as diferenças para uma boa convivência, melhor será para sua aprendizagem e para sua vida de maneira geral!

Essa fábula possibilita trabalhar o relacionamento entre colegas de sala, respeito as diferenças, trabalho em equipe, tolerância e amor ao próximo.

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ATIVIDADE.


Leia essa fábula com as crianças e depois faça uma roda de conversa explique sobre o ensinamento da fábula e aborde temas como respeito aos coleguinhas de sala, amigos, familiares e deixe que as crianças falem sobre seus sentimentos com os relacionamentos que possui. Depois de ouvir as crianças fale sobre atitudes que reforçam o bom relacionamento e atitudes que devemos evitar para não destruir um relacionamento, e estimule a participação das crianças nessa conversa.

Ao final da conversa, peça que em duplas, elas façam um desenho livre sobre o tema “Como me relacionar bem”. Ao final do desenho, peça para cada dupla expor seu desenho.

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COMO FAZER UM PORCO ESPINHO BEM FÁCIL:

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Burrice.



Caminhavam dois burros, um com carga de açúcar, outro com carga de esponjas. Dizia o primeiro: 

— Caminhemos com cuidado, porque a estrada é perigosa. 

O outro redargüiu: — Onde está o perigo? Basta andarmos pelo rastro dos que hoje passaram por aqui.

 — Nem sempre é assim. Onde passa um, pode não passar outro. 

— Que burrice! Eu sei viver, gabo-me disso, e minha ciência toda se resume em só imitar o que os outros fazem. 

— Nem sempre é assim, nem sempre é assim... continuou a filosofar o primeiro.

Nisto alcançaram o rio, cuja ponte caíra na véspera. 

— E agora? 

— Agora é passar a vau. 

O burro do açúcar meteu-se na correnteza e, como a carga se ia dissolvendo ao contato da água, conseguiu sem dificuldade pôr pé na margem oposta. O burro da esponja, fiel às suas ideias, pensou consigo: 

— Se ele passou, passarei também — e lançou-se ao rio. Mas sua carga, em vez de esvair-se como a do primeiro, cresceu de peso a tal ponto que o pobre tolo foi ao fundo. 

— Bem dizia eu! Não basta querer imitar, é preciso poder imitar — comentou o outro.


Fábulas de Monteiro Lobato

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Bullying na Escola: Como crianças lidam e reagem diante de apelidos pejorativos

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC/SP   

David Sergio Hornblas   Bullying na Escola: 

Como crianças lidam e reagem diante de apelidos pejorativos    

Mestrado em Educação: Psicologia da Educação – 

Material disponível gratuitamente na internet.

CAPÍTULO 1 – 

INTRODUÇÃO 

1.1 O QUE É BULLYING?  

Bullying é uma palavra (expressão) de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o desejo deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sob tensão. A expressão foi construída a partir do substantivo bull – touro em inglês – e por derivação  bully  (ou  bullie), com alguns significados tais fortão, tirano, valentão e briguento  (corruptela para gíria). Termo que envolve comportamentos antissociais – preferencialmente nas escolas – utilizado pela literatura psicológica nos estudos sobre a violência (Olweus, 1999)3. O termo Bully como substantivo, é traduzido por valentão, briguento, tirano etc., e como verbo, brutalizar, tiranizar, amedrontar etc. (Fante, 2005). Ainda como substantivo, bullying é definido como um subconjunto de comportamentos agressivos, sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder. Esses critérios nem sempre são aceitos como universais, mesmo sendo largamente empregados. Alguns pesquisadores consideram serem necessários no mínimo três ataques contra a mesma vítima durante o ano, para sua identificação como bullying (Olweus, 1993). Há desproporção de força, onde o desequilíbrio de poder caracteriza-se pela incapacidade da vítima de se defender: ser mais jovem, menor estatura ou força física; apresentar pouca habilidade de defesa; falta de assertividade e pouca flexibilidade psicológica perante o autor ou autores dos ataques (Fante, 2005). Ainda como verbo, bullying pode ser traduzido como intimidar, agredir, apelidar, ofender, fazer gozações, encarnar, humilhar, causar sofrimento, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, dominar, agredir, bater, 18dar chutes, dar empurrões, causar ferimentos, roubar e ainda quebrar pertences (Fante, 2005). Assim, por convergência entre autores (Fante, 2005; Olweus, 1983; Catini, 2004 e Guareschi, 2008), bullying é definido como um conjunto de atitudes violentas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação aparente, adotado por um ou mais alunos contra outro(s) causando dor, angústia e sofrimento físico ou psicológico, Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, fofocas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do comportamento de bullying. Portanto, as quatro características sempre frequentes nos episódios de bullying segundo Olweus (1993) são: 1. Comportamento violento  2. Produção de danos  3.  Ações repetidas e continuadas com o passar do tempo 4. Relação interpessoal caracterizada por um desequilíbrio de poder ou força. O fenômeno bullying não é novo, por se tratar de uma forma de violência que sempre existiu nas escolas onde valentões  ou briguentos oprimem suas vítimas por motivos banais e de forma sutil, sendo percebida por uma significativa parcela de professores, coordenadores e diretores que pouco fazem, seja por omissão deliberada, seja em decorrência das ameaças às quais também são frequentemente reféns. No entanto, o estudo aprofundado do bullying é recente4 e tem sido objeto de investigação e estudos nas últimas décadas, despertando a atenção da sociedade para suas consequências nefastas, já que se evidenciam pela desigualdade entre iguais, resultando num processo em que “valentões” projetam, algumas vezes, sua  19agressividade com requintes de perversidade e, por vezes de forma oculta, dentro do contexto escolar. O bullying é um tipo de comportamento, em que os mais fortes convertem os mais frágeis em objetos de diversão e prazer através de brincadeiras que disfarçam o propósito de maltratar e intimidar (Olweus, 1999) e pode ocorrer de diversas formas. As mais comuns, segundo Olweus (1983) são: 52% apelidos pejorativos e discriminatórios 21% ameaças (reais e/ou virtuais) 12% furtos de pertences 9% agressões físicas 5% exclusões do grupo O bullying é um fenômeno universal e os educadores devem estar atentos – dentro dos limites da função e da instituição – à identificação de agressores e agredidos, tendo em vista que estes últimos podem apresentar comportamentos que trafegam desde a angústia e sofrimento intensos até a violência fatal. Os episódios constantes de violência aguda (com graves lesões e mortes) nas escolas de ensino médio, universidades americanas, européias e asiáticas, podem ter explicação no bullying. Alguns dos agressores além de apresentar demandas psicopatológicas estruturais, sinalizam indícios de terem sido vitimados por episódios de bullying em uma determinada fase da vida escolar. Dan Olweus – importante estudioso do fenômeno bullying na Escandinávia – não estabeleceu relação entre jovens vitimizados pelo bullying e condição socioeconômica, ao sugerir que situações semelhantes ocorrem em todas as categorias sociais. Ele atribui este achado à homogeneidade relativa nos países escandinavos onde seus estudos foram conduzidos. No início dos anos 70, Olweus iniciou seus suas investigações nas escolas, embora não se verificasse um real interesse das instituições sobre o assunto.

 20No entanto, diante de situações agudas, ocorridas na década de 80 – três rapazes entre 10 e 14 anos, cometeram suicídio (Olweus, 1993) – um maior interesse das instituições de ensino para o problema começou a ser despertado. Olweus pesquisou inicialmente cerca de 84.000 estudantes, 300 a 400 professores e 1.000 pais entre os vários períodos de ensino, concluindo que 28% dos jovens em idade escolar sofreram alguma ação intimidatória. Um fator essencial para a pesquisa, visando à prevenção do bullying,  foi conhecer com profundidade, sua natureza e frequência. Como as técnicas de observação direta ou indireta são demoradas, o procedimento adotado foi a utilização de questionários. Estes serviram para caracterizar e avaliar a dimensão do bullying, além de melhor entender o impacto das intervenções já adotadas. Nos estudos noruegueses desenvolvidos por Olweus (1983), utilizou-se um questionário composto por 25 questões do tipo múltipla escolha5 Com este instrumento foi possível verificar a frequência, tipos de agressão e agressores, locais de maior risco, dentre outras informações para compreensão do bullying. No entanto, Olweus (1983) presume que, em outros países, como os Estados Unidos – onde a estratificação social é mais evidente, assim como o fluxo migratório enlaçando culturas diferentes – as ocorrências de bullying podem estar mais intensamente relacionadas aos indicadores socioeconômicos, embora nenhum padrão tenha sido encontrado que relacione alunos vitimizados e, por exemplo, renda familiar. Um estudo feito pela UNESCO com estudantes entre 14 e 19 anos de cinco capitais brasileiras (Brasília, Fortaleza, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo) apontou que 60% deles disseram ter sido vítimas de algum tipo de violência (física ou moral) dentro da escola (Abramovay, M. & Rua, 2003). Especialistas e educadores de todo mundo, com o apoio de instituições públicas e privadas, têm proposto às autoridades educacionais a criação de programas especiais de prevenção e combate e ao bullying nas escolas.

Diversas pesquisas e programas de intervenção6 têm sido desenvolvidos na Europa, América do Norte e também no Brasil, visando principalmente conscientizar a comunidade escolar sobre o fenômeno e sensibilizá-la sobre a importância do apoio às vítimas, da necessidade de extinção do problema, além da implantação de programas de prevenção. O educador é uma espécie de terceira visão neste processo silencioso, temperado pelo sofrimento das vítimas que frequentam salas de aula, corredores e pátios de recreação. Assim, a sociedade civil deverá ter seu quinhão de responsabilidade na construção de modelos e procedimentos para controle e extinção do bullying. Em uma decisão judicial inédita, dois adolescentes de classe média, de 15 e 16 anos, foram obrigados a prestar serviços comunitários por seis meses, por terem sido acusados de apelidar e insultar uma colega de classe em uma escola particular de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo). Eles foram também acusados de divulgar os insultos na internet (Coisse, 2008). A vítima, uma garota de 15 anos, disse à promotoria que os insultos começaram há três anos. Um dos garotos colocou-lhe o apelido de bode, mas ela afirmou que os xingamentos iam além: fedida, retardada, idiota, monga e esterco. Ao promotor de justiça local, a estudante afirmou que, “... além de a rotularem de bode, passaram a fazer barulhos com a boca, simulando berros do animal nas aulas...". No início do ano letivo, a vítima reclamou ao pai que continuava a ser ofendida. Ele foi à escola e depois registrou um boletim de ocorrência (BO) por injúria. A decisão de aplicar a prestação de serviços foi do juiz da Infância e Juventude em audiência com os acusados e seus pais. O juiz concedeu remissão judicial, um perdão para evitar que o processo por injúria prosseguisse. Na ocasião a mídia anunciava: A prática de constranger colegas por xingamentos ou violência física é conhecida pelo nome de bullying (Coisse, 2008) Por outro lado, a mãe do menino de 15 anos – da mesma forma o jornalista que subscreveu a matéria – disse que aceitou o acordo na Justiça para que a história tivesse fim (SIC), mas achou um exagero que a situação tenha terminado em uma audiência, declarando: “... Não vou dar razão para o meu filho, ele errou, mas apelido é uma coisa normal, é só levar na brincadeira...” (SIC) Vários episódios de bullying  são minimizados e seus desdobramentos considerados pouco importantes na vida do jovem agredido. Para este estudo, foi considerado especificamente o uso de apelidos pejorativos.  Uma maior atenção sobre esses eventos que alguns consideram aparentemente inofensivos deveria servir como elementos de reflexão visando à implantação de programas de prevenção e extinção a médio e longo prazo, ou seja, ações antibullying. Na escola, alunos intimidando alunos, professores, funcionários e diretores compõem uma realidade de difícil manejo, compreensão e intervenção. Violência e bullying são comportamentos expressamente manifestos, mensuráveis e modificáveis. Contudo, os processos mentais envolvidos são de complexa verificação experimental e portanto, devem compor uma análise multifatorial, levando em conta fatores biologicamente determinados e o processo histórico que explica agressividade e violência. Assim sendo, a psicogênese de Henri Wallon, que contempla fatores genéticos e influências sociais, oferece respostas consistentes no entendimento dos fenômenos aqui apresentados. O foco deste estudo foi o comportamento observável – adquirido ou herdado – e não as inferências e interpretações decorrentes das intrincadas relações do ser com o mundo. Algumas culturas são mais agressivas que outras, incentivando competitividade, determinação e tomada de decisão. Outras são mais passivas, cordatas e menos estimuladoras da competição entre seus pares. Isso significa que, sob condições específicas, determinados comportamentos se fazem mais ou menos presentes.

 23Nas sociedades mais utilitaristas, o fenômeno se agrava. Pela pressão do consumo, alguns jovens em especial, não medem esforços para alcançar seus objetivos, sejam eles legais ou ilegais. Nos países com índices de desigualdade mais acentuados, o problema parece ser mais grave, embora Olweus (1980) não tenha identificado relação entre condição socioeconômica e bullying.  Esse utilitarismo cria um padrão comportamental onde em alguns casos, são mais ou menos agressivos, mas em outros, por demais violentos. Os altos índices de criminalidade nos centros urbanos são a prova inconteste do que aqui se afirma Outro desdobramento das sociedades que se organizam desta forma é a determinação de padrões de comportamento, de constituição física (daí o aumento dos transtornos alimentares, por exemplo), do belo e do feio, do bem e do mal, ou seja, políticas maniqueístas do que deve e do que não deve ser aceito. Neste universo, o bullying é mais um evento encontrado neste enquadramento.

1.2 OS APELIDOS PEJORATIVOS  As ofensas repetidas, sob a forma de exposição ao ridículo por meio de apelidos pejorativos, configuram mecanismo perverso de discriminação identificado na literatura psiquiátrica e jurídica como modalidade de assédio moral 7. Foi observado em uma pesquisa específica, que os apelidos pejorativos são percentualmente os eventos de bullying mais frequentes entre jovens (Olweus, 1983), correspondendo a 52% do universo total dessas ações intimidatórias. Tal constatação culminou na decisão de aprofundar o estudo destes dados em um formato diferente, qual seja, o qualitativo. Essa metodologia permitiu uma análise mais detalhada deste processo, visando a entender como crianças se sentem e lidam com o apelido pejorativo. Esses apelidos são na opinião deste pesquisador, o começo do bullying.

 

 27ameaçando-os, perseguindo-os e intimidando-os. Não são poucos os professores que, ao se referirem a alguns alunos, usam os apelidos (que, às vezes, eles mesmos colocam), como Cascão, Tampinha, Fantasminha, Lunático, Esquisito, Burraldo, fomentando assim, a vitimização desses alunos (p. 98-69). Alguns professores não atribuem o uso de apelidos como um aspecto relevante relacionado ao bullying, sendo que eles próprios afirmaram que muitas vezes referem-se aos alunos dessa forma e também aceitam apelidos que os alunos lhes colocam. Alguns pais também concordam com esta postura, alegando que jovens, como num ritual de passagem, colocam mesmo apelidos nos outros. Da mesma forma, introduzem-se na vida social adulta que incluí comportamentos transgressores (Szymansky, 2008). Tendo em vista as considerações acima, este estudo procurou verificar, o que os alunos sentem e como reagem diante do apelido pejorativo recebido. Esses eventos levaram à construção de inúmeras iniciativas para estudar e combater a prática de bullying no Brasil e no mundo.  No Brasil, o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais lançou uma campanha educativa para combater o bullying nas escolas privadas e públicas do estado, durante o I Fórum Paraibano Sobre Bullying Escolar e Incentivo à Cultura da Paz, realizado no Centro de Convenções Cidade Viva, em João Pessoa e organizado pela Curadoria da Infância e Juventude. Os temas debatidos foram Bullying Escolar, Construção da Cidadania, Causas e Consequências do Fenômeno do Bullying - Implicações Psicológicas, Jurídicas e Legislação Pertinente.  Além desses fóruns, a ABRAPIA – Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência – aparece como centro de referência ao estudo e pesquisas sobre bullying.

 28O Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar-CEMEOBES, com sede em Brasília, foi criado em maio de 2006, com o objetivo de disseminar uma Cultura de Paz e Não-Violência. É uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), que se dedica exclusivamente ao estudo e orientação sobre o Bullying Escolar, por considerá-lo questão de saúde pública, cujos prejuízos incidem na aprendizagem, na socialização e na saúde emocional de crianças e adolescentes envolvidos. Seu foco principal é atuar junto às instituições de ensino, para que sejam capazes de identificar e intervir nas situações embrionárias de Bullying e interromper seu processo reprodutivo e epidêmico, através de estratégias promotoras da educação para a paz, da cidadania e dos direitos humanos – Programa Antibullying – Educar para a Paz.

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