quinta-feira, 3 de junho de 2021

Burrice.



Caminhavam dois burros, um com carga de açúcar, outro com carga de esponjas. Dizia o primeiro: 

— Caminhemos com cuidado, porque a estrada é perigosa. 

O outro redargüiu: — Onde está o perigo? Basta andarmos pelo rastro dos que hoje passaram por aqui.

 — Nem sempre é assim. Onde passa um, pode não passar outro. 

— Que burrice! Eu sei viver, gabo-me disso, e minha ciência toda se resume em só imitar o que os outros fazem. 

— Nem sempre é assim, nem sempre é assim... continuou a filosofar o primeiro.

Nisto alcançaram o rio, cuja ponte caíra na véspera. 

— E agora? 

— Agora é passar a vau. 

O burro do açúcar meteu-se na correnteza e, como a carga se ia dissolvendo ao contato da água, conseguiu sem dificuldade pôr pé na margem oposta. O burro da esponja, fiel às suas ideias, pensou consigo: 

— Se ele passou, passarei também — e lançou-se ao rio. Mas sua carga, em vez de esvair-se como a do primeiro, cresceu de peso a tal ponto que o pobre tolo foi ao fundo. 

— Bem dizia eu! Não basta querer imitar, é preciso poder imitar — comentou o outro.


Fábulas de Monteiro Lobato

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